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domingo, 6 de janeiro de 2008

||| Textos de guerrilha.

«Lusco-fusco. Tantas da tarde. No Chalhariz, já a chegar ao Largo do Camões, quem vejo? À minha frente, e reconheci-o pela sua bela cabeleira prateada (não confundir com a peruca despenteada do Abelaira, reles imitação), Mestre Zé Gomes Ferreira, comendo a furiosas dentadas um palmière. Um rapazito de oitenta anos, com tanta gula e alegria, como eu gostaria de ter, se chegasse à idade dele (não chego, descansem). - Mestre! Olhou para trás, desconfiado, deu a última dentado no bolo, não fosse eu roubar-lho, aturou-me. E como?- Mestre – repeti bem alto -, estou a ler o seu último livro e estou a gostar muito…Era a Memória das palavras. Ele falava bastante do Teixeira de Pascoaes e com o Pascoaes visto pelo Zé Gomes temos sempre que aprender. Diz-me o Mestre:- É pá, é uma chatice. Tas a ver: um escritor aos oitenta anos, que pode fazer. Escreve. E, depois? Repete-se, diz baboseiras, sei lá…Digo ao Mestre:- Não está certo. O Mestre diz ali coisas muito giras, sobre o Pascoaes e mais. Já estávamos na esquina da Rua da Misericórdia. O Mestre, despede-se num gesto largo, sem contradita: LIXEM-SE
(Luiz Pacheco, Textos de Guerrilha, Ler, Editora, 1981)

||| Luiz Pacheco (1925-2008)

PARA DAR O EXEMPLO.
Por Carlos Quevedo/Rui Zink.
FOMOS ENTREVISTAR O MAIOR ESCRITOR VIVO. O MAIS ESCRITOR, O MAIS PORTUGUÊS, O MAIS VIVO: LUIZ PACHECO.
Luiz Pacheco, escritor, sofre de asma brônquica. Calvície precoce. Fractura do úmero devido a tentativa de suicídio na Av. De Berna. Queda de dentes natural quase total. Efizema pulmonar bilateral diagnosticado em 1958, obrigado a uso permanente de botija de oxigénio, à noite e ao levantar. Hérnias inquinais não operadas com uso de funda dupla. Hipersensibilidade ao álcool, o que o conduziu a uma fraudulenta fama de alcoólico incorrigível.Tratamento de desintoxicação no Centro António Flores, ambulatório e dois internamentos. Miopia e astigmatismo, quase cegueira. Bissexual assumido. Leve surdez do ouvido esquerdo. Andropausa total. Três mulheres reconhecidas. Três estadias no Limoeiro: 1957, 1959, 1968. Duas estadias na cadeia das Caldas da Rainha: 1967, 1968. Prisões ocasionais e breves em esquadras da polícia. Autor, entre outros títulos, de: Literatura Comestível. O libertino passeia por Braga, a idolátrica, o seu esplendor. Exercícios de Estilo. Comunidade..
(Entrevista à revista Kapa, publicada em Julho de 92. )
O LIBERTINO PASSEIA POR BRAGA, A IDOLÁTRICA, O SEU ESPLENDOR.