quinta-feira, 2 de março de 2006

Orgia vocabular III - Do coito
Diria Camões à sua amada:
Oh divina e fermosa criatura! De vós o coito não quero... Mas o amor E quedar-me assim a vossos pés prostrado Admirando-vos e cantando-vos em estrofes e sonetos Não maculando, senhora, vossa excelsa fermosura Quer com pensamentos impuros... Quer com meus dedos.
De vós senhora, quero os ouvidos nada mais.
Diria Bocage entre folhos:
Se a mim, Bocage, deixasses vós Tão escondida que estais entre pejos e saiotes Espreitar vossa greta tão pequena. Verias em meus calções a frente alçada E meu porraz se agitando aos pinotes. Sentirias entre as pernas tais calores Que as escancarias expondo-vos a meus ardores E me dirias a mim Elmano, vossa voz, não a minha, cavernosa Vem Bocage, dá-me tua porra, teu porraz Que em alvoroço estou... E aguentar-me mais não sou capaz.
Florbela suspiraria no canapé:
Ah … Do coito nada sei … Só da espera Neste longo e lânguido entardecer Em que te espero, meu amor, e te demoras E eu aqui reclinada a fenecer… Vieras tu, meu amor, à tardinha Ficaras tu comigo, meu amor, a noite inteira E do coito saberia escrever de manhãzinha E ao coito dedicaria não um soneto mas uma ode inteira…
Ah…. Como espero que me deixes feita num oito…Num coito….
Ary arrebatado:
Meu tesão inteiro e puro Duro Caneta Sólido amor Antes do coito Antes do orgasmo Que é esta tinta e este sémen Com que escrevo e te descrevo Meu poema Não castrado Minha liberdade Do coito Do acto do espanto Do espasmo.
Pessoa questionar-se-ia:
Penso que vi um coito Daqui. ~ Da minha esplanada Por entre o fumo que me tolda os olhos Por entre as duvidas que me embotam os sentidos Mas naquela posição seria mesmo um coito? E se era coito… De que espécie seria? Se ele estava de pé e ela ajoelhada?
Ah…. Como é triste o coito Que o poeta só vê.
encandescente, no Erotismo na Cidade

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