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quarta-feira, 25 de julho de 2007

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, mas a democracia resiste.

Meu caro Carlos Manuel Castro: não estou, na maior parte dos casos, em sintonia com Manuel Alegre e, muito menos, com Helena Roseta. Alegre representa a velha esquerda passadista, a imutável voz de Argel, que ainda viaja num comboio imaginário, sem destino, nem «elasticidade» para acompanhar os tempos e desprender-se do passado. Roseta é o oposto: o seu passado político é outro, como todos sabem, e vai moldando o discurso, quase sempre vazio, ao sabor do vento, como convém a quem tem uma necessidade genética em manter-se na ribalta política e gerir a sua carreira. É uma populista por natureza: foi com Sá Carneiro e é hoje como «independente», como foi ontem no PS e, amanhã, quem sabe, no Bloco de Esquerda ou num «novo» partido. Mas, contudo, há princípios basilares que sustentam as democracias. E, esses, não podem ser beliscados. Nem ontem, nem hoje. Nem no tempo da pedra lascada, nem no tempo dos computadores de última geração. Mais: a sua violação tem sempre as mesmas raízes, venham do Santo Ofício ou do Estado Novo, dos Processos de Moscovo ou do «camarada» Chávez. E, aqui, nesta questão essencial, eu sou solidário, à direita e à esquerda, com a defesa da democracia. É uma questão de princípio. Não se pode assobiar para o ar e condescender com delatores e quejando ou com pessoas que não destoariam no tempo da «outra senhora». Só pára no tempo quem perdeu de vista o essencial.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Rupturas.

As eleições em Lisboa tiveram o mérito de ampliar os sinais de que o sistema político-partidário português está anquilosado. O PS e o PSD, que representaram, nos últimos 30 anos, entre 70% e 80% do eleitorado, alternaram-se invariavelmente no Governo sem diferenças significativas de políticas, objectivos ou metodologias. Até os aparelhos partidários se assemelham. Há apenas nuances «ideológicas», cujas fronteiras se diluem cada vez mais. Isto significa que começa a haver espaço político-eleitoral para experiências «alternativas». O pessoal sente-se agrilhoado e começa a estar disponível para partir as amarras. Não vale a pena meter a cabeça debaixo da areia: os 10% obtidos por Helena Roseta podem ter esse significado. O resultado obtido por Carmona Rodrigues, também, embora este, em princípio, represente mais um «fenómeno local», na linha de Fátima Felgueiras, Isaltino Morais ou Valentim Loureiro. Mas o «essencial» está lá: o descontentamento com o status quo partidário. O PCP e O BE não são «tubo de escape» à esquerda social. Como não o são Paulo Portas ou Santana Lopes à direita. Mas, há indícios de que se aproximam tempos de mudança se o PS e o PSD persistirem em dar mais do mesmo. E o terreno é propício à demagogia e ao populismo. Dentro de dois anos há eleições autárquicas e legislativas. Vamos ver, dia a dia, como vão evoluir os «tubos de escape», quer à direita, quer à esquerda.
(imagem: Pedro Garcia Espinosa, pintor cubano, acrílico sobre tela,121x100 cm.)