terça-feira, 30 de outubro de 2007

Agenda.

De 7 a 12 de Novembro, no Pavilhão 4 da FIL, no Parque das Nações: 7ª EDIÇÃO DA ARTE LISBOA, com a presença de 60 galerias de arte (16 espanholas, 2 brasileira e 1 húngara). Actividades paralelas: ciclo de debates: Visões Mediáticas, dia 9; Museus em Rede, dia 10; Mercados Emergentes, dia 11.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

||| Ditadores.

O Pedro Correia desafiou-me para entrar numa nova corrente blogosférica. Desta vez – usando as suas palavras – para sublinhar o papel do acaso na abordagem ao texto literário. São cinco as regras: 1. Pegue no livro mais próximo, com mais de 161 páginas – implica aleatoriedade, não tente escolher o livro; 2. Abra o livro na página 161;3. Na referida página procurar a quinta frase completa;4. Transcreva na íntegra para o seu blogue a frase encontrada;5. Aumentar, de forma exponencial, a improdutividade, fazendo passar o desafio a mais cinco bloguistas à escolha.
Procurei seguir à risca as instruções. O resultado não foi assim tão fácil de obter como me pareceu à primeira impressão. Em cima da secretária tinha dois livros. Duvidei de imediato se teriam 161 páginas, mas confirmei um a um: não tinham. Dirigi-me às estantes e aí, ao acaso, sem olhar os livros de frente, cumprindo religiosamente as regras, fiz duas tentativas frustradas. Na primeira, na dita página, saiu-me uma fotografia de Che Guevara (Che, de Paco Ignacio Taibo II); na segunda uma única frase (Dádiva Divina, de Rui Zink). À terceira tentativa saiu-me uma edição velhinha de O zero e o infinito, de Arthur Koestler, Livros de Bolso Europa-América. Página 161, 5ª frase completa: «Os diletantes em tirania tinham obrigado os seus súbditos a agir sob comando, o Nº 1 tinha-lhes ensinado a pensar às suas ordens».
E por aqui me fico. Agora, resta-me convidar 5 «camaradas», sugerindo-lhes que façam o mesmo que eu agora fiz, como me sugeriu o Pedro: o Eduardo Graça (Camus não vale); a miss woody & miss allen (para matar a curiosidade de saber que frase lhes caberá em sorte); à Carla (na esperança de que o sorteio a brinde com uma frase cândida); o Raimundo Narciso (pode ser que acerte no Foi assim); e o Lauro António (se a Cine Eco lhe der tempo).

||| Peronismo.

Cristina Kirchner foi eleita, como todas as sondagens indicavam, à primeira volta, Presidente da Argentina, com 44% dos votos expressos. No país do tango, o peronismo ainda continua a ser o que era. E tal como Isabelita Perón sucedeu na Presidência a seu marido, Juan Domingo Perón, em 1974, Cristina sucede a seu marido, em 2007. (Está errada a notícia do DE que titula: “Cristina Kirchner eleita a primeira mulher Presidente da Argentina», como está errada a «informação» de que seriam necessários 45% do votos para evitar a segunda volta. Hoje, quando a memória nos falha, o conhecimento está à distância de um computador).

||| Achas para a fogueira.

Excerto de Referendos e democracia, João Marques de Almeida, Diário Económico de 29.10.07 (sublinhados meus).

«O argumento que associa o referendo à democracia constitui uma séria ameaça aos princípios e instituições fundamentais da democracia representativa. Este ponto é claro quando se observa o recurso ao referendo por parte de ditadores. Hitler, por exemplo, era um grande adepto do referendo. Entre 1933 e 1938, o ditador nazi convocou quarto referendos. O primeiro decidiu retirar a Alemanha da Sociedade das Nações com 95% dos votos. O segundo, em 1934, reforçou os poderes de Hitler como Chanceler, com 90% dos votos. O terceiro, em 1936, confirmou a remilitarização do Reno, com 98,8% dos votos. O último ratificou a anexação da Áustria, com 99% dos votos. Conclusão: segundo aqueles que associam os referendos à democracia, a estratégia de conquista militar de Hitler foi um caso exemplar de “expansão democrática”»

||| LisboArte.

Dia 3 de Novembro, a partir das 15 Horas, na Galeria Novo Século, Rua do Século 23, Pintura de Rinoceronte. (Na imagem, Um Cão Visita o Museu, acrílico sobre MDF, 50x50).

||| Sondagens e inquéritos.

1. De acordo com uma sondagem da Marktest para o DN e a TSF, 67% dos portugueses consideram que a ida de agentes da PSP às instalações de um sindicato na Covilhã, nas vésperas da visita do primeiro-ministro, representou uma interferência no direito de manifestação dos organizadores do protesto. Mas, o que me deixa candidamente perplexo é que há 33% de portugueses que não consideram tal facto uma interferência. São muitos portugueses. São mais do que aqueles que elegeram Cavaco Silva primeiro-ministro, em 1985. E são mais do quádruplo dos eleitores do PCP.
2. De um inquérito encomendado pelo Instituto Nacional de Administração (INA) à Universidade Católica resulta que três em cada quatro pessoas inquiridas entendem que a administração pública funciona «pior» ou «muito pior» do que o sector privado. Mas, o que me deixou candidamente perplexo é que há 25% de portugueses que consideram que a Administração Pública funciona melhor do que o sector privado. Contudo, encontrei a explicação no texto da notícia «O inquérito abrange não só cidadãos/utentes, mas também dirigentes públicos, que naturalmente têm opinião distinta quanto ao desempenho da "sua" administração».

sábado, 27 de outubro de 2007

||| Treinador de sofá.

No Sporting já ninguém resolve. Isto, no estado em que está, depois dos rodriguinhos de Fátima e de Roma e, hoje, com o Nacional, já não vai com Liedson, mas com Viagra.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

||| Dúvida metódica ou as teias que a história tece.

Hoje, ao ver na televisão o Presidente da Federação Russa entrar, com ar matreiro, no Oceanário de Lisboa, veio-me à memória a deputada comunista Luísa Mesquita (relação obtusa - eu sei -, mas as ideias, às vezes, prendem-se umas à outras e desfilam, sem nexo, em catadupa). E, de repente, assaltou-me uma dúvida: o Partido Comunista da Federação Russa, legítimo herdeiro dos pergaminhos do Partido Comunista da União Soviética, terá expulso das suas fileiras o camarada Putin?

||| Destaque.

O Gabinete de Imprensa da Associação ModaLisboa criou o bom hábito de enviar os seus comunicados de imprensa também para a blogosfera, para além de ter acreditado na edição deste ano da Moda Lisboa/Estoril, a par de algumas centenas de jornalistas, alguns blogues, como Miss Pearls, o que merece destaque.

||| Lembrete.

Pedro Vieira lembra que, nos tempos que correm (em que os canais e os suportes de comunicação se multiplicam como coelhos) é difícil calar a voz da «classe operária». Cada vez mais, querer amordaçar a liberdade de expressão é como querer tapar o sol com uma peneira.

||| Não é miopia, é cegueira.

Tiago Barbosa Ribeiro dá um bom exemplo de alguns empresários têxteis cuja visão de futuro não vai além de meados do Século XIX. As «reivindicações» do patrão dos têxteis merece ser transcrita:
«(...) as reivindicações não se ficaram por aqui. Além de preconizar a redução do número de feriados, e como forma de contrabalançar a subida do salário mínimo, a ATP reclamou a isenção dos descontos para a Segurança Social das horas suplementares, a limitação dos montantes globais das indemnizações por despedimento, bem como a alteração do pagamento do total do rendimento anual dos trabalhadores de 14 para 12 meses, ou seja, o fim dos subsídios de Natal e de férias

||| Sondagens.

Tal como era previsível, após o Congresso do PSD iniciou-se a «corrida» entre o descontentamento e a credibilidade de uma alternativa de Governo. A sondagem hoje publicada no JN dá alguns sinais.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

||| Incomodidades.

Adensam-se os sinais de que a blogosfera incomoda o poder. Incomoda-me que seja a esquerda democrática no poder a sentir-se incomodada pela blogosfera.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

domingo, 14 de outubro de 2007

||| O novo PSD.

Li e ouvi os mais variados comentários sobre o Congresso do PSD este fim-de-semana. Uns centram-se nas dificuldades que Pedro Santana Lopes, como líder parlamentar, irá criar a Luís Filipe Menezes; outros, são da opinião que Menezes é líder de meio partido (o outro meio – Marcelo, Pacheco Pereira, Rui Rio e outros - vai andar por aí a conspirar e a dificultar a acção da nova direcção; outros, ainda, dizem que o discurso final de Menezes joga em todos os tabuleiros: quer mais e menos Estado, mais e menos serviço público, mais e menos serviço privado, mais contenção e mais despesa. É possível encontrar «verdade» em cada um destes comentários, mas tudo se reduz e encaixa na dicotomia «credibilidade/descontentamento», ou seja: ganhará «este» PSD credibilidade para capitalizar o eventual descontentamento que ainda não teve oportunidade de se expressar eleitoralmente? Dentro de certos limites, o «descontentamento» é conservador, não arrisca: para pior já basta assim, enquanto a «credibilidade», muitas vezes, é assimilada mais por elementos emocionais do que racionais. O PSD de Marques Mendes nunca ganhou a «credibilidade» necessária para ser alternativa ao actual governo e, assim, continuaria até 2009. Os militantes do PSD sabiam isso, como todos sabíamos. O PSD de Luís Filipe Menezes vai ter uma nova «oportunidade», antes de 2009, para se «credibilizar». Os próximos 6 meses são decisivos para avaliar como cresce ou decresce o «descontentamento» e como cresce ou decresce a «credibilidade». Está tudo em aberto, obviamente.

||| Tarde e a más horas.

O general Ricardo Sanchez, comandante das tropas americanas no Iraque entre o início da guerra e meados de 2004, diz, agora, que «Não há dúvidas de que os EUA estão a viver um pesadelo sem fim à vista no Iraque». Já todos sabemos, como sabemos que foi Sanchez quem terá autorizado os militares americanos a usarem cães para intimidar prisioneiros iraquianos em Abu Ghraib. As declarações do general são corporativas: os Estados Unidos perderam a guerra do Iraque por causa dos políticos e não dos militares. Até pode ser verdade, mas o pecado original está nos motivos da invasão de um país soberano e não no modo de conduzir a guerra. E sobre o pecado original o general nada disse.

||| A vida não está fácil para ninguém.

«Igreja abriu sob apupos e assobios»

sábado, 13 de outubro de 2007

||| Releituras.

Ás vezes procuro nas estantes um livro e a minha atenção recai sobre outro. Foi o caso: um livro de textos de Che Guevara, editado em 1975, e traduzido da revista cubana Verde Olivo. Folhei-o e prendo-me nos sublinhados e nas notas à margem (naquele tempo fazia dos livros cadernos de apontamentos). Detenho-me na seguinte passagem: «Duas organizações de polícias, ambas pagas por Baptista, andavam à procura de Fidel Castro [no México, em 1956]. Uma delas teve a sorte de prendê-lo, mas cometeu o erro absoluto de não o matar depois de tê-lo aprisionado». A nota à margem, escrita há mais de trinta anos, já meio desmaiada, diz: alguém no exército boliviano leu este texto e não cometeu o mesmo erro absoluto…

||| Treinador de sofá.

A propósito do jogo de hoje da selecção nacional de futebo, o Público escreve: «a selecção somou a quinta vitória na fase de apuramento e quebrou a série de três jogos consecutivos de derrotas (1-1 na Arménia, 2-2 com a Polónia e 1-1 com a Sérvia)» . Até no futebol o Público vê o mundo a preto e branco: só há vitórias e derrotas. Não há empates.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

||| Armadilhas da história.

Se a lei do direito de reunião e de manifestação que nos rege é de 1974 e foi feita pelo governo provisório de Vasco Gonçalves, é óbvio que não houve qualquer ilegalidade na «visita» ao Sindicato feita pelos dois polícias da Covilhã. É elementar, do ponto de vista do cumprimento da lei. Pensavam, na altura, que a lei se destinava a «controlar» o direito de reunião e de manifestação da direita. Mas não. É uma lei geral e abstrata. Mudem a lei em nome da Constituição e da democracia.

||| Religiões e pastorinhos.

Sou agnóstico, mas respeito as crenças de todos os que professam uma religião, seja o cristianismo, o comunismo ou islamismo. Esse respeito não chega às burlas. Aliás, nem os médicos do Vaticano respeitam, quanto mais eu.

||| Portalegre: Festival Sons do Mundo - Blues.

Este fim de semana, em Portalegre. Por exemplo: David "Honeyboy" Edwards, nascido no ano de 1915, no Mississipi, é um dos últimos originais "bluesmen" acústicos. Uma lenda. Little Freddie King (também um dos últimos grandes nomes dos country blues eléctricos do Delta do Mississipi). E Portalegre aqui tão perto.

||| Prémio Nobel da Paz.

A tese de Al Gore fez vencimento em Estocolmo.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

||| Histórias e memórias.

Vítor Dias queixa-se com frequência de omissões ou de falta de memória dos «comentadores burgueses». Neste caso concreto, sobre a intervenção militar cubana no Congo e em Angola, ao referir à famosa batalha do Cuito Cuanavale, em Angola, Vítor Dias devia ter dito, pelo menos em nota de rodapé, em nome da memória, que o grande estratega da dita batalha, o General Arnaldo Ochoa Sanchez, foi fuzilado, nos arredores de Havana, a mando dos irmãos Castros, na madrugada de 13 de Julho de 1989. É caso para citar José Luís Borges: «A verdade histórica não é o que sucedeu, é o que pensamos que sucedeu».

||| Governo e oposição ou apenas puro veneno.

O PCP, na oposição na Câmara de Lisboa, defende que «os trabalhadores não são descartáveis», como a maioria PS/BE pretende. Como ajuíza o «Avante», a maioria PS/BE está a proceder a «despedimentos»: cerca de três dezenas de funcionários da Divisão de Medicina no Trabalho receberam cartas a anunciar a rescisão dos contratos. É notório que o PCP quer fazer, a partir do concreto, a prova de que o BE representa a pequena burguesia radical e, por razões de classe, está sempre disposta a vergar à grande burguesia e ao capital, neste momento «representado pelo PS». Na lógica do olhar marxista, em que o BE se situa, numa revisão «modernista», a desmedida ambição de Sá Fernandes em ser vereador com pelouro vai dando razão ao PCP. Mas, as razões do PCP vão mais longe. O BE não se submetia ao «acordo de Lisboa» só em função das ambições pessoais de Sá Fernandes. O PCP «sabe» que a «pequena burguesia radical de fachada socialista», como a caracterizam os clássicos, por muito que barafuste, capitulará sempre face ao poder do grande capital. Esta luta entre a «classe operária» e a «pequena burguesia» vai dar um grande romance…

||| Há mais vida para além do deficit.

Não sei a que horas o Eduardo Graça «meteu» este post. Mas, não é relevante. O que importa é que há mais vida para além do deficit... Bom, não abandalhem muito senão vem aí a polícia dos costumes.

||| Esquire: as melhores capas do 1º semestre de 2007.

Por estes dias, dois polícias entraram pelas portas de um Sindicato adentro, ali para os lados da serra, e enrodilharam a democracia. Hoje, o Parlamento vergastou o acto. Como resposta, o primeiro-ministro anunciou que este ano o défice público português se vai cifrar em 3% do PIB, quando a meta era 3,7% (O brilharete é à nossa custa, no entanto, pela minha parte, está pordoado atendendo aos bons motivos). Mas, não fica sem resposta, nem perdão de outros lados: dia 18, quinta-feira, é dia da grande manifestação nacional contra o Governo. Os ricos que paguem a crise, dizem. Mas o primeiro-ministro não se fica pelos ajustes e já respondeu à letra por antecipação: «Tudo faremos para que os funcionários públicos não percam poder de compra no próximo ano», declarou José Sócrates hoje. Eu sei que tudo isto é muito importante, mas não se esqueçam de olhar para as melhores capas da Esquire deste ano. Se não injectamos cultura na política a vida torna-se árida, pior do que um deserto. Animaliza-nos. A propósito não se esqueçam, também, de ler as crónicas da Moda Lisboa (ou da Moda Cascais?) que a Miss Pearls nos promete. É a blogosfera a conquistar espaço.

||| O mundo de Doris.

Doris Lessing, nasceu na Pérsia, que já não é Pérsia, mas Irão. E aí viveu até aos 6 anos. Depois seguiu para a Rodésia, que já não é Rodésia, mas Zimbabué. Já tinha 30 anos quando foi viver para a Grã-Bretanha. Aos 87 recebe o Nobel da Literatura.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

||| Distracção ou falta de memória

Como devemos entender a atitude de um actual militante do Bloco de Esquerda, o qual, ainda há poucos anos, cantava loas à União Soviética, cumprindo o ritual de militante do PCP, ao reproduzir no seu blogue, em tom crítico, um video do YouTube, datado de 1975, em que Durão Barroso se embrulhava contra o ensino burguês. Será distracção ou falta de memória?

||| Há optimismos que não auguram nada de bom.

«O inevitável Sócrates», Domingos Amaral, Diário Económico, 10.10.07.

||| Ler os outros.

Parece que se trata de um professor presente na manifestação de ontem contra o primeiro- ministro. «Você entregava o seu filho a este indivíduo...?» - é a pergunta de Cavaco Silva (Claro). A pergunta, para mim, ultrapassa a imagem. É a Educação e o Ensino que devem ser questionados. -->

||| Investigações.

Um amigo que não vejo há muitos anos e que, talvez por azar, descobriu este blogue, enviou-me um e-mail. Na presunção (elidível, obviamente) de que eu terei comunicação fácil com o poder, escreveu: «Há que averiguar, no inquérito que abriram, se os polícias que foram ao Sindicato, na Covilhã, são ou não militantes do PCP.» Respondi-lhes que, na minha modesta opinião, era muito mais importante saber se o que os tablóides ingleses escreveram ontem sobre o «caso Madeleine» é verdade ou não. Até ao momento ainda não me respondeu, mas devo ter caído muito na sua consideração.

||| Desatenção ou cumplicidade?

Percorri, um a um, dia a dia, os blogues de autores que são militantes ou dirigentes do Partido Comunista. Nos últimos dias por lá passaram vários heróis: o José Rodrigues dos Santos, dois polícias da Covilhã, o Che, naturalmente. Mas nem uma linha sobre a repressão na Birmânia. Será desatenção ou cumplicidade? Na dúvida, procurei investigar se a ditadura dos militares seria também do proletariado. Mas não. Os militares no poder na Birmânia não reclamam a representação do proletariado local. Acho estranho. Provavelmente alguma citação de Marx ou de Engels sobre a democracia na Birmânia que me escapa. Vou continuar atento.

||| Amiguismo.

A disponibilidade para participar, sem ar enjoado, nas correntes, inquéritos ou prémios faz parte das boas regras de convivência no espaço blogosférico (há quem despreze estas manifestações de amiguismo, como coisas menores que só incomodam quem está concentrado na resolução dos problemas do mundo – uma treta.). Seja sobre os livros que não mudaram a vida de ninguém, seja sobre blogues com tomates. A Cristina, ela sim, uma mulher solidária, pelo que escreve, mas também por este exemplo aqui, nomeou o «Conquilhas» como Blog Solidário. Agradeço, sinceramente, sobretudo porque não nos conhecemos pessoalmente e, por isso, tal conclusão só se pode deduzir do que por aqui se escrevinha. Quanto ao nomear outros blogues a coisa pia mais fino. Desta vez passo.

||| A história repete-se, na primeira como tragédia, na segunda como farsa.

«Vão bardamerda mais o fascista

Pinheiro de Azevedo, primeiro-ministro, 13 de Novembro de 1975.

||| Não desautorizar significa falhanço.

A propósito dos «casos» de José Rodrigues dos Santos e dos polícias da Covilhã, ontem à noite, na SIC-Notícias, Bettencourt Resendes dizia, com toda a razão: (cito de cor) «está na altura do primeiro-ministro dar sinais claros de desautorização deste tipo de situações». Na mesma linha, hoje, no Público, Rui Tavares escreve: «O Governo está no topo dessa cadeia e se não demonstrar que está contra actos de retaliação e vigilância excessiva, estará implicitamente passando a mensagem de que eles lhe agradam.» Parafraseando o primeiro-ministro, acrescento: «Não desautorizar significa falhanço».

||| Contra a pena de morte, sempre.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

||| Excesso de zelo [3].

||| Excesso de zelo [2].

No Telejornal da RTP1, Bernardino Soares – o tal deputado do PCP que canta loas à «democracia» da Coreia do Norte – mostra-se tão agastado com «acção» dos dois polícias da Covilhã que parece estar à beira de passar à clandestinidade. É caso para dizer: nas ditaduras do «proletariado» isto não acontece porque não há sindicatos, só há polícias. Há pessoas que não têm moral para falar em «atentados à democracia».

||| Excesso de zelo.

Dois polícias foram apanhados em excesso de zelo no Sindicato dos Professores, na Covilhã. Talvez por falta de experiência em manifestações e cordões humanos (a última manifestação na Covilhã deve ter sido no primeiro de Maio de 1974, ainda eles não eram nascidos) procuraram informações junto dos organizadores. Uma idiotice, obviamente. E tal idiotice deve ser tratada no quadro da corporação policial para que não se volte a repetir. Agora, dizer que o Governo praticou um «atentado à democracia»? Se um polícia for apanhado, às 2 da manhã, a mijar nas escadas de um prédio vão acusar o Governo de atentado aos bons costumes? Haja bom senso. E não se esqueçam do provérbio popular: «com quem ferro mata, com ferro morre».
(Adenda: a propósito de polícias, o PCP já condenou a violenta repressão e as dezenas ou centenas de mortos na Birmânia?)

||| Como se constrói um mito.

Primeiro, é indispensável que o futuro mito possua os ingredientes necessários para ascender a mito. Em seguida, faz-se uma caçada ao futuro mito. Depois de caçado é necessário tratá-lo, pelo menos um ou dois dias, como um animal selvagem de rara perigosidade (o espancamento e a humilhação não podem ser descurados). Em seguida, abate-se o futuro mito com requintes de matadouro. Finalmente, não esquecer de lhe cortar as mãos antes de o enterrar para evitar que leve com o corpo as impressões digitais. Seguindo à risca estes procedimentos, não falha. Temos mito, pelo menos para um século.

||| De que falamos quando falamos de qualificação do Turismo.

«Aconteceu mesmo assim».

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

||| Democracia e Radicalismos.

A propósito deste texto do Francisco, lembrei-me de uma história que me foi contada, há mais de 10 anos, por um deputado de um partido da esquerda radical com representação no Parlamento catalão: o Rei, em visita à Catalunha, discursou no Parlamento, obviamente, em espanhol, a que se seguiu o discurso dos representantes dos diversos partidos. O representante do dito partido radical iniciou o seu discurso em francês. Foi de imediato interrompido pelos apupos de todo o parlamento. Então, interrogou: se o Rei pode vir aqui, ao parlamento da Catalunha, e discursar numa língua estrangeira, porque motivo eu não o posso fazer? No fundo, a democracia enriquece com esta diversidade de olhares. Os «outros» - as ditaduras - não têm estes pequenos prazeres.

||| Exageros ideológicos.

Parece não haver dúvida, à esquerda e à direita, que Hitler e o nazismo constituem o símbolo por excelência da barbárie. Por isso, serve de referência, de um lado e de outro, a todos os exageros... nem o bigode é o de Staline, mas o de Hitler. É significativo.

||| Pastorinhos?

«Más de mil videntes se ofrecen a los McCann para encontrar a Madeleine»

||| Referendos à vista ou ameça para inglês ouvir?

||| Polémicas.

Um estudo da revista Forbes diz que as capas das revistas com Jennifer Aniston são as que mais vendem, informa Coutinho Ribeiro. Por sua vez André, em tarde de Domingo, discorda e diz que o prémio devia ir para Scarlett Johansson. Cá por mim, nem Woody Allen me convence: ninguém vende mais do que a Angelina, (apesar de António Vitorino a ter confundido com Francisco Louçã) a actriz mais votada pela Forbes no The Celebrity 100. Aceitam-se mais sugestões...

||| Citações.

Excerto de O fim de Bush e o campo liberal, Francisco José Viegas, JN, 08.10.07.

«Não se percebe como, na história das ideias do último quartel do século XX, um termo tão expressivo e tão belo, "liberal" (reproduzo as palavras de Bernard Henri-Levy no seu último ensaio sobre a América), pôde ser tão enxovalhado pela esquerda e pela direita; ele diz respeito a uma consciência livre da cidadania, a uma independência de carácter que é herdeira dos cavalheiros e das ideias que no século XIX forjaram as nossas sociedades democráticas; diz respeito ao primado da liberdade, dos direitos dos cidadãos e do rigor republicano sobre o interesse absoluto do Estado e o prolongamento dos interesses de casta. Isso é ser liberal no nosso velho mundo.»

domingo, 7 de outubro de 2007

||| Alta tensão.

Foi você que pediu uma linha de alta tensão sobre a sua casa? A REN leva-a até si sem despesas, nem encargos. E se algum Tribunal se intrometer no seu desejo, não se preocupe: a REN está tecnicamente preparada para fazer valer os seus interesses e superar as «burocracias». Aliás, a REN «introduziu no pensamento empresarial o conceito de “cidadania”». Durma, pois, descansado, debaixo de uma rede de alta tensão. A REN zela por si e pelo seu sono.

sábado, 6 de outubro de 2007

||| Banda desenhada.

O Avante, num exercício de literatura infantil, explica detalhadamente o «processo eleitoral» em Cuba. O povo cubano deve estar ansioso à espera do próximo dia 21 de Outubro, dia das próximas «eleições». Num amanhã próximo, quando milhões de cubanos saírem à rua a festejar a queda do regime castrista, os comunistas portugueses vão ficar de boca aberta e exclamar atónitos: com um regime tão democrático que eles tinham isto só pode ser obra da CIA.

||| Madame Bobone.

Uma tal senhora Bobone, apresentada como «especialista em etiqueta», o que significa que não faz das mãos talher, nem usa uma pedra quando não há papel higiénico, foi entrevistada pelo Sol, naquelas entrevistas de praia da página 2. De mãos na anca, tipo forcado, como manda a «etiqueta», é uma pedra da primeira à última linha: desde dizer que «sofre mais com uma árvore cortada do que com um enforcado» até «eu daria um “granda” política, mas não estou para isso», a senhora desfaz em caca em cada resposta. Mas, a má notícia, é que o país está cheio de Bobones.

||| O referendo.

Não há, na democracia portuguesa, uma tradição referendária. Nem os portugueses estão com isso preocupados. Antes pelo contrário: nos três referendos realizados mais de metade dos eleitores dispensou a participação. Não acreditam no «esclarecimento» que daí advém ou, quem sabe, ainda carregam o «trauma» do referendo à Constituição de 1933. Então, no que diz respeito à Europa e aos seus tratados, referendo é algo que nunca lhes passou pelo goto: não referendaram o Tratado de Adesão, assinado a 12 de Junho de 1985, nem o Acto Único Europeu, nem os Tratados de Maastricht e de Amesterdão. Porque cargas de água têm, agora, de referendar o novo Tratado? Porque há uns «ilustres» que precisam de espaço para «esclarecer» duas coisas que sabem de antemão: a primeira é que o Tratado é mau, muito mau mesmo. Provoca desemprego, pobreza e outras mazelas; a segunda é que um governo que quer ver aprovado este Tratado é mau, muito mau mesmo. Em consequência, votar neste governo nas próximas eleições legislativas é votar na «desgraça» que o Tratado nos traz. Cá por mim tanto o referendo, como o Tratado não alteram grande coisa.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

||| Corrupção e ditaduras.

Um juiz chileno ordenou, ontem, a detenção da viúva do ditador Augusto Pinochet e dos seus 5 filhos, envolvidos no saque de milhões de dólares durante a ditadura. Há 3 anos, uma investigação do Senado norte-americano descobriu quase uma centena de contas bancárias, nos Estados Unidos, em nome do ditador chileno, de familiares e amigos. As ditas contas, quase 15 anos depois do afastamento de Pinochet do poder, ainda totalizavam a «simpática» quantia de 27 milhões de dólares. Corrupção e ditadura sempre se conjugaram, em todos os tempos e latitudes. Verdade seja dita: o ditador de Santa Comba deve ser a única excepção.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

||| Outono.

O Outono está cada vez mais Outono. Noto no cheiro a terra molhada, no cair da noite e na pasmaceira política. A agitação nas hostes do PSD, no rescaldo da eleição de Filipe Menezes, amainou. Não resistiu uma semana. A oposição anda escondida. O CDS vegeta, enquanto Paulo Portas procura desesperadamente uma «nova oportunidade». O PSD está adiado até ao Congresso. O PCP está a recuperar do esgotamento em que a Festa do Avante o deixou. O BE ainda não se encontrou depois do «acordo de Lisboa». Neste silêncio, nesta ausência de política, a oposição ao Governo ficou esta semana nas mãos dos socialistas: João Cravinho, em entrevista à Visão, queixa-se da insensibilidade do PS para combater a «corrupção de Estado, a apropriação de órgãos vitais de decisão ou da preparação da decisão por parte de lóbis»; Carlos César, por sua vez, demonstrando a sua boa educação, disse qualquer coisa imprecisa contra o Governo, ao pisar terra madeirense. E, por não haver mais nada, se transformam em notícias importantes. Nesta pasmaceira, sem centelha de vida política, ao «povo» resta-lhe dedicar-se ao futebol (onde sente que pode participar, discutir, ter opinião) ou ao caso McCann (onde pode mudar de opinião todos os dias). Pela minha parte, à falta de melhor, e porque é Outono, a partir de amanhã inicio a época do cozido à portuguesa. E seja bem vindo quem vier por bem. E pode trazer outro amigo, também.

||| A ler.

A entrevista de João Cravinho à Visão, onde se declara chocado com a falta de sensibilidade do grupo parlamentar do PS quanto ao fenómeno da corrupção.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

||| Subtilezas.

Vasco Pulido Valente aproveita as páginas da revista Atlântico para, a propósito da crítica ao filme A vida dos outros, de von Donnerrsmarck, comparar em cada parágrafo a actuação da Stasi à Pide, a repressão na RDA à repressão salazarista. Como exercício de crítica cinematográfica não está mal.

||| Dia 4 de Outubro: todos os blogs pela Liberdade na Birmânia.

||| Maioria absoluta em marcha?

Daniel Oliveira (Arrastão) tem no seu blogue um inquérito: «Se as eleições fossem hoje em quem votaria?» O Bloco de Esquerda está às portas da maioria absoluta.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

||| Sem título, acrílico sobre tela.

A 8 de Outubro de 1967, Che Guevara (uma espécie de Trotsky latino-americano) foi assassinado na Bolívia, num desfecho previsível para a sua aventura da «revolução permanente». Não lhe restou outro caminho, porquanto as divergências com Castro não tinham sucesso à vista: ele era, em Cuba, um estrangeiro. 40 anos depois ainda há quem lhe tema o gesto de querer incendiar toda a América Latina. Significa, no fundo, temer o simbolismo da Irmã Lúcia, deixando de lado a Nossa Senhora de Fátima.

||| Democracia e partidocracia.

Na Marinha Grande, tal como em Setúbal:«PCP substitui presidente da câmara por vice-presidente». O eleitorado põe, e o Partido Comunista dispõe. Os eleitos não respondem ao eleitorado, mas ao partido. Um dia a casa vem a baixo, tal como na URSS...

||| Gostei de ler:

||| Treinador de sofá.

O Sporting está a fazer escola em matéria de guarda-redes: Stojkovic é tão mau como Ricardo; e, ao mesmo tempo, é tão bom com Ricardo. De qualquer modo, a vitória de hoje sobre o Dynamo Kiev, na Ucrânia, «deixa espaço» para os próximos jogos.

||| Afinal, o Poder Local não é tão insignificante como nos querem fazer crer.

Jorge Sampaio, «saltou» da presidência de uma Câmara Municipal para a Presidência da República. Santana Lopes «saltou» da presidência de uma Câmara Municipal para exercer o cargo de Primeiro-Ministro. Luís Filipe Menezes «saltou» da presidência de uma Câmara Municipal para a presidência do principal partido da oposição. Conclusão: parece que se pode começar a falar na necessidade da «tarimba» no poder local como condição necessária para o exercício de cargos políticos de nível nacional.

||| Já os antigos tinham a solução…

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

||| Meteorologia política.

A margem de erro na «meteorologia política» aumenta na proporção do envolvimento. Quando este é elevado, a tendência é para confundir desejos com realidades. Quando se deseja sol, não se dá conta das nuvens negras que se aproximam. Marcelo Rebelo de Sousa atingiu o patamar – o que não é fácil, é preciso errar sistematicamente – da «previsão» ao contrário, como há 30 anos o «boletim meteorológico»: se diz que vai chover é porque, sem réstia de dúvida, o sol vai brilhar. É obra!

||| Polícias.

As manifestações de polícias são, para mim, um sinal da vitalidade das democracias. Não me perguntem porquê. É mais da área emocional, do que da racional. Vibrei com a manifestação de polícias em 21 de Abril de 1989, no Terreiro do Paço. Era, então, primeiro-ministro Cavaco Silva. A memória retém aquela acção do Corpo de Intervenção da PSP que dispersou os agentes da mesma PSP com bastonadas, canhões de água, cães e gás lacrimogéneo. Polícias contra polícias, uns secos, outros molhados. Uma tarde memorável. Para hoje, os jornais tinham-me prometido a maior manifestação de sempre da PSP. Com apoio de polícias europeus. Agucei o dente, e fiquei alerta. Uma desilusão: uma participação tímida mas, sobretudo, o que não deixo passar: estavam todos à civil. Assim não vale. São polícias ou não são?

||| Mau tempo no canal.

«Se for eleito presidente da Câmara, serei altamente populista».
Marcelo Rebelo de Sousa, Expresso, 18 de Novembro de 1989.

||| Publicidade.

Segundo dados recolhidos pelo Diário Económico, os investimentos em publicidade cresceram, no primeiro semestre deste ano, 4,1%. Destaque para a quebra de investimento publicitário nos jornais diários e na rádio e para o crescimento significativo nos canais por cabo e na Internet. Este último meio cresceu 136,4%, apesar de representar apenas 1,9% do investimento total.

||| Sem dó, nem piedade...

A Cristina, de regresso da Feira do Amor, em Beja, desanca sem dó, nem piedade: «Eu, sinceramente, não entendo o espanto desta gente...como é que um grupo de dirigentes medíocres e uma elite cobarde, daquela que dá tudo para não se despentear, achava que só o facto de existirem era garantia de vitória? Esta gente não se enxerga. Quando assim é, é preciso fazê-los compreender, e foi muito bem feito, que o facto de existirem não é, por si só, uma bênção para o partido

||| Citações.

Excertos de Quatro ideias simples sobre as directas no PSD, Pedro Magalhães, Público de 1.10.2007.
«1. A vitória de Menezes não foi uma surpresa. Nas sondagens, enquanto José Sócrates perdia popularidade desde Março deste ano, Marques Mendes conseguia o feito notável de perder ainda mais do que Sócrates. À beira das directas, Luís Filipe Menezes era visto como mais apto para liderar o partido quer pelos eleitores em geral, quer pelos eleitores do PSD. (…) Isto é importante porque ajuda a explicar uma das consequências que tendem a resultar das eleições directas dos líderes partidários: a sintonia entre as lideranças e a base eleitoral dos partidos e eliminação precoce de líderes eleitoralmente inviáveis. Digo "tendem", porque nem sempre é assim. Nas famosas directas de 1998 para a liderança do PSOE, a surpreendente vitória de Josep Borrell sobre Joaquin Almunia colocou no poder uma figura desejada apenas pelos militantes situados à esquerda quer dos quadros dirigentes, quer das bases eleitorais do partido. Contudo, em partidos como o PSD, onde a ideologia conta para pouco, não há grandes diferenças entre os militantes e base eleitoral mais alargada.
2. A culpa do que se passou não é das directas. Há sempre quem ache que são elas as culpadas de que o debate político se centre nos atributos dos líderes e não em programas políticos. Ou de que se beneficiem figuras que recorrem directamente aos media e aos apelos directos à opinião pública, em vez de adquirirem capital político em percursos tradicionais no Parlamento ou no governo. O resultado é, ao que parece, o "populismo". Mas quem critica tudo isto, de que julga que se faz, nas democracias modernas, a política eleitoral? E quem poderia achar que o PSD é, neste momento, outra coisa que não aquilo que se viu? As directas trazem para dentro dos partidos o que está lá fora e revelam para fora aquilo de que eles são realmente feitos. A primeira função é útil para o partido. A segunda é instrutiva para todos nós.
3. O resultado ilustra a crescente importância do poder local na política nacional. Há uns meses, a propósito do fenómeno dos "candidatos independentes", mencionei aqui que uma das características emergentes em muitos partidos contemporâneos é a sua transformação em "estratarquias", onde cada nível da organização partidária - nacional, regional, local - é relativamente autónomo em relação aos restantes, dispondo de mãos livres para gerir a distribuição de lugares políticos no nível respectivo. (…) Marques Mendes quis remar contra esta maré, e a maré passou-lhe por cima.
De resto, o resultado destas directas no PSD chama claramente a atenção para outra das consequências da eleição directa das lideranças partidárias. Nos Estados Unidos, a generalização das primárias - fenómeno que só acelerou decisivamente no início dos anos 70 - produziu uma mudança no perfil dos candidatos presidenciais: um aumento dos ex-governadores estaduais em desfavor dos detentores de cargos públicos a nível federal. (…) A vitória de Borrell em 1998 pode ser vista pelo mesmo prisma: o da ascendência, através das directas, de figuras que retiram parte do seu capital político da ligação sólida a interesses e bases eleitorais subnacionais, em vez de o retirarem exclusivamente de uma carreira política nacional no topo da hierarquia partidária. Menezes já pode ser contado como um exemplo adicional deste mesmo fenómeno.
4. O resultado não é um desastre para o PSD. Há quem preveja um futuro de divisionismo, o abandono das "elites" do partido e a queda no abismo. Calma. Em primeiro lugar, convém recordar que, em rigor, foi Marques Mendes quem foi abandonado pelas "elites" no meio do seu labirinto lisboeta, quem sabe se por alguns daqueles que agora vêm profetizar a "desgraça". Em segundo lugar, voltemos ao caso das directas do PSOE: é certo que, na altura, dividiram o partido, mas isso não chegou para pôr em risco a sua coesão. De resto, foi com o abalo causado pelas directas de 1998 que o PSOE começou a sair da passividade e da sombra do "filipismo". (…) Se quisermos ser realistas, toda a gente sabe que as próximas legislativas, para o PSD, seriam sempre, em princípio, para perder. E o que preferiam essas tais "elites" do PSD? Que seja Menezes o derrotado em 2009, ou que fosse Menezes a aparecer como líder após essa derrota? Se pensarem bem, verão que a coisa não correu tão mal como isso.»