quinta-feira, 30 de novembro de 2006

CITAÇÕES.

Extracto de Sentimentos misturados, José Pacheco Pereira, Público 30.11,06. (Sublinhados meu)
«Claro que ninguém vai ao teatro, claro que acabaram os cafés (pelo menos em Lisboa), claro que se desertificaram os bairros, claro que acabou a Lisboa dos anos 60, tão íntima como provinciana, onde éramos os absolutos cosmopolitas, exactamente porque os filhos dos deserdados das cheias, os filhos dos operários do Barreiro, os filhos das criadas de servir, os filhos dos emigrantes de Champigny, os filhos da "canalha" anarco-sindicalista e faquista de Alcântara mandam no consumo e o mundo que eles querem é muito diferente. Eles entraram pelos cafés dentro e transformaram-nos em snackbars e em lanchonetes, entraram pelas televisões e querem os reality shows, entraram pela "cultura" e pela política e não querem o que nós queremos, ou melhor, o que nós queríamos por eles. O acesso das "massas" ao consumo material e "espiritual" faz o mundo de hoje, aquele que é dominado pela publicidade, pelo marketing, pelas audiências, pelas sondagens. É um mundo infinitamente mais democrático, mas menos "cultural" no sentido antigo, quando a elite, que éramos nós, decidia em questões de bom senso e bom gosto. E agora? Queríamos que "eles" tivessem voz e agora que a têm não gostamos de os ouvir, quando o enriquecimento revelado por todos os indicadores económicos e sociais dos últimos 30 anos transformou muitos pobres na actual classe média, "baixa" como se diz na publicidade, nos grupos B e C das audiências. Nós queríamos que eles desejassem Shakespeare e eles querem a Floribella, os Morangos e o Paulo Coelho. E depois? Ou ficamos revoltados ou pedagogos tristes e ineficazes, ou uma mistura das duas coisas. Nós ajudámos a fazer este mundo de mais liberdade e mais democracia, que o é de facto. O 25 de Abril foi o que foi porque a geração de 60 o fez assim. Se os militares tivessem derrubado Salazar nos anos 40 ou Delgado o tivesse feito em 1958, o país seria certamente muito diferente.»
(Imagem: ilustração livre sobre a obra Esteiros de Soeiro Pereira Gomes).

MEMÓRIAS.

Sempre que leio este senhor lembro-me de um delicioso pequeno episódio passado em Porto Alegre, em finais de Agosto de 2001. Numa reunião preparatória do Fórum Social Mundial de 2002, que se realizou em de Porto Alegre, tal como o de 2001, Boaventura botou discurso a convite da organização. Apresentado à assistência como uma “sumidade”, durante mais de uma hora falou sobre nada. Literalmente. Mas, disse para com os meus botões: isto é o que tu pensas, talvez esteja a ver mal. Quando o senhor acabou de falar, com a sala a bater palmas efusivamente, o uruguaio sentado ao meu lado, perguntou-me: ele falou sobre o quê? Afinal, não estava errado. No dia seguinte, numa outra reunião, chamei reaccionário a Miguel Portas, também presente, sob o olhar incrédulo de Tarso Genro, perfeito de Porto Alegre na altura, que deve ter achado que, ali, era suposto sermos todos “irmãos” e, por isso, não deviam estarem presentes reaccionários. Ou eu estava enganado ou ele, que o convidara, estava enganado. Depois da reunião todos os presentes, na sua maioria latino-americanos, muitos deles me conheciam há anos, me pediam esclarecimentos completares sobre o reaccionário, solicitações a que não me fiz rogado. Perante o pequeno episódio, embaraçoso, tive um momento de fraqueza: no jantar que se seguiu à reunião, para descansar toda aquela gente, sentei-me à mesa, a sós, com o Miguel Portas. Recordo-me bem do que falámos (ficará para outra altura) e sei que o tempo me deu razão. Mas sei que aquela conversa ao jantar, a sós na mesma mesa, diante de toda a gente, desvalorizou o ter-lhe chamado publicamente, na reunião, com toda a legitimidade, reaccionário.

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

TELEFONEMAS DESPROPOSITADOS.
Um amigo de longa data, católico nas horas vagas, defensor do não no próximo referendo, votante convicto de Cavaco Silva, telefonou-me há poucos minutos, e disse-me: - Éstás a ver? Os americanos têm o 11 de Setembro e os espanhóis o 11 de Março. E nós vamos ter o 11 de Fevereiro. Julgas que a data escolhida é por acaso?
- Vitor, tu achas que...? - interroguei-o.
- Acho! Acho! - respondeu quase eufórico.
- O Sporting-Benfica é no sábado ou no domingo - perguntei para mudar de assunto.

ANIVERSÁRIOS (2). As palavras sucumbem ao vazio da própria pequenez. Nenhum cais tem a forma do navio, nenhum navio a forma das marés.

Torquato da Luz (Ofício Diário)

ANIVERSÁRIOS.

Tomei conhecimento pelo João Villalobos que hoje é dia de aniversário da Gena Lee Nolin que, tal como o meu amigo João Gonçalves, é sagitário. Primeiros estão os amigos, mas a Gena também merece um abraço de parabéns.

COISAS DO ARCO DA VELHA.
Durão Barroso foi escolhido num escrutínio através da Internet "Governante do ano", promovido pelo semanário European Voice. Parece que ficou à frente da chanceler alemã, Angela Markhel, do primeiro-ministro italiano, Romano Prodi, do chanceler da Áustria, Wolfgang Schüssel, e do Presidente da Croácia, Stjepan Mesic. Só me ocorre uma pergunta: governante de quê?

VER OS OUTROS. (2)

"Com título, sem técnica e não me lembro das dimensões.Um dos quadros que fiz que ainda gosto." (Liberdade nas Asas)

VER OS OUTROS.

José Nunes (Foram-se os anéis).

DUAS HISTÓRIAS MAL CONTADAS. 1. A de um segurança; 2. a de um advogado.

terça-feira, 28 de novembro de 2006

GOODBYE LENINE.

(…) Sou um juiz à antiga e assumo com muita honra que pertenci aos “Tribunais Plenários”, onde se defendeu a pátria contra aqueles que venderam o Ultramar a seguir ao 25 de Abril e quase entregaram o país a Moscovo.Hoje fala-se muito em corrupção, mas gostava de saber se o Doutor Salazar era corrupto. Aqueles que lhe chamam fascista deviam ter mais respeito pela sua personalidade íntegra e pela sua elevação intelectual.Essa tal cultura garantista da abrilada, que a Unidade de Missão para a Reforma Penal tão bem personifica (e, por isso, devia se chamar Unidade de Demissão) tem de acabar. Então as vítimas não têm direitos? Um assassino não pode continuar a ser interrogado ao fim de 4 horas por estar cansado. Tem direito a intervalo e a uma jornada de 8 horas de trabalho por dia?Felizmente vejo uma luz ao fundo do túnel. Juízes honestos como Mouraz Lopes e Fátima Mata-Mouros pronunciam uma nova mentalidade.A III República está por um fio. A libertinagem democrática será varrida de Portugal.Se Deus quiser, apesar da minha idade, ainda cá estarei para assistir.
(Comentário de um anónimo no Câmara Corporativa).

GOSTEI DE LER: «Contra o véu», António Figueira (Cinco Dias).

GUANTÁNAMO.

A base militar norte-americana de Guantánamo, em Cuba, é um símbolo de um mundo contraditório. A revista alemã Focus diz que se trata de um campo de concentração e, provavelmente, não está longe da verdade. Mas, ao mesmo tempo, sabemos que nos últimos 30 ou 40 anos, muitos cubanos selvaticamente perseguidos pela ditadura castrista, procuraram aí a liberdade. Afinal o que é Guantánamo, um campo de concentração, uma porta para a liberdade ou as duas coisas?

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

SEPARADOS À NASCENÇA?
Não são contas do meu rosário, mas não fico indiferente à semelhança destas duas frases:
1. «Pacheco Pereira, nas reuniões estudantis da Academia do Porto, fez discursos inflamados sem ir parar aos calabouços da PIDE.», António Vilariges, Público, 20 de Janeiro, 2006.
2. «Será interessante acompanhar o nascimento, evolução (e, se se mantiver a tendência do passado, a morte por inanição) de blogues políticos que, pelos seus meios profissionais, se percebe terem financiamentos próprios cuja origem é desconhecida. É um fenómeno novo que mostra a importância crescente da blogosfera e do qual não vem nenhum mal, se existir um pouco mais de transparência. No fundo, trata-se de política pura e dura e não de qualquer actividade amadora e lúdica pelo que saber quem paga é relevante. Relevante e instrutivoJosé Pacheco Pereira, Abrupto, 27 de Novembro de 2006.
Ambas são insinuações maldosas.

RAFAEL CORREA GANHA NO EQUADOR.
Rafael Correa, representante da esquerda equatoriana (e, diz-se, amigo pessoal de Hugo Chàvez), anti-americano, ganhou as eleições presidenciais na Equador – anunciam todos os jornais de hoje publicados em Quito. El Mercurio escreveu hoje: “Los ecuatorianos eligieron a Correa tras una década de inestabilidad política en la que ninguno de los tres presidentes elegidos culminó el mandato, presionados por revueltas populares que se saldaron con su destitución en el Congreso.” Há dois anos atrás ninguém acreditava que Ortega ganhasse as presidenciais na Nicarágua; na semana passada já todos acreditavam que Correa poderia ganhar no Equador. A América do Sul está a viver um ciclo político muito especial. O facto de se poder votar sem medo de que a consequência seja um golpe de Estado militar tem dado um outro rumo aos resultados eleitorais.

CITAÇÃO:
«A voz da sua insubmissão atravessa o século XX e essa é uma qualidade que o transforma e a toda a sua vida num diamante em estado bruto. Insubmissão estética, política, social, cultural, insubmissão em tudo o que deve fazer de cada um de nós pessoas inteiramente livres. Só com pessoas inteiramente livres se construirão melhores sociedades, só com pessoas inteiramente livres se respeitará verdadeiramente a condição humana. A história, sabe-se, é quase sempre o contrário disso, mas se muitos Cesarinys florescessem tudo seria tão diferente. Todos seríamos menos prisioneiros, desde logo das nossas próprias cabeças tantas vezes poluídas com certezas excessivamente inabaláveis ou com preconceitos estupidamente destrutivos
Eduardo Dâmaso, Cesariny, DN, 27.11.06

domingo, 26 de novembro de 2006

ATÉ AMANHÃ.

Eider Astrain, Libertad, Óleo y carboncillo sobre lienzo.

APLAUSO: «POR FAVOR, ALGUM PUDOR!», Paula Sá (comunicar a direito)

(...)
O Sindicato dos Jornalistas saiu em defesa do que classificou de “património” jornalístico e, num manifesto que já recolheu mil assinaturas (!?), justifica a manutenção da medicina convencionada e bem convencionada para os profissionais da comunicação social: “Jornadas intensas e prolongadas e informalidade de horários, com fortes impactos na saúde e na qualidade de vida destes profissionais, como demonstra a significativa prevalência de stress e de doenças do foro cardíaco, desgaste rápido e até morte precoce. Esta situação agravou-se nos últimos anos, com a crescente precariedade, um extraordinário aumento dos níveis de exigência, polivalência e de disponibilidade.”
(...)
"Calámo-nos cobardemente até agora. Porque foi bom enquanto durou. Até para os que se batem pela igualdade. A partir de agora, no mínimo, ficava-lhes bem algum pudor."

INQUÉRITOS.

(Fonte: IPSOS )

ILUSTRAÇÂO.

Em 2000, a Bedeteca de Lisboa editou um livro de Ilustrações de André Carrilho. Era então primeiro-ministro António Guterres e o PSD, já liderado por Durão Barroso, estava longe de chegar ao governo. Santana Lopes estava a banhos na Figueira da Foz e Marques Mendes estava condenado a apoiar todo e qualquer dirigente máximo do seu partido. No prefácio, João Paulo Cotrim, escreveu: “a ilustração pertence ao território do efémero. São momentos breves de iluminação de um texto, de uma história, de uma notícia.”. Mal adivinhava o João Paulo que o traço de André Carrilho estava a antecipar, com alguns anos de antecedência, a sucessão cronológica dos presidentes do PSD, senão mesmo de primeiros-ministros. João Paulo: foste traído pelas palavras. Território do efémero ou previsão do futuro?

MÁRIO CESARINY (1923-2006). Um pássaro

a pino sobre as rochas
um pássaro jamais visto
um pássaro só pássaro
um pequeno pássaro enorme
fascinante
gelado
Um pequeno pássaro vivo
sobre as coisas
como um lado do mar
brilhante
impalpável
seguro
e apesar disso impossível
terrível
obsediante
Foi quando me voltei
para dizer-te: «Repara!»
que ele passou

EQUADOR.
Hoje defrontam-se na segunda volta das eleições presidenciais no Equador Rafael Correa, 43 anos, amigo do presidente venezuelano Hugo Chávez e o milionário Álvaro Noboa, o maior exportador de bananas do Equador. Na primeira volta as sondagens apontavam claramente Rafael Correa com vencedor, mas assim não aconteceu. Nesta segunda volta, Correa aparece de novo à frente, mas com curta vantagem. Depois das trapalhadas de Lucio Gutiérrez, deposto a meio do mandato pelo Congresso, em Abril de 2005, na sequência de grandes manifestações de rua, vamos ver qual a decisão dos equatorianos.

FERNANDO PESSOA.
No próximo dia 30 de Novembro, às 21H30, na Casa Fernando Pessoa, autores lêem os seus textos: Manuel António Pina, José Eduardo Agualusa, Pedro Mexia, Luís Quintais, José Luís Peixoto, José Tolentino Mendonça.

sábado, 25 de novembro de 2006

NOVA "DEMOCRACIA".
«Seremos nós que imporemos a mudança que o país precisa», Carvalho da Silva, secretário-geral da CGTP.

LER OS OUTROS:
1. «Liberais à moda antiga», série de 7 "post" de João Pinto e Castro (...bl-g- -x-st-).
2. «NÃO HAVIA NECESSIDADE», João Gonçalves (Portugal dos Pequeninos).
3. «DUPLICIDADES», Jorge Ferreira (Tomar Partido).
4. «Judeus votam à esquerda nas eleições americanas», Nuno Guerreiro Josué (Rua da Judiaria).
5. «Uma Monica Bellucci por dia... », Revisão da Matéria.
6. «O aborto», Pedro Lomba (vício de forma).
7. «A cultura de um gajo», Coisas de Gajos.

FAZER.
O meu amigo João nunca mais se resolve a modernizar o site pessoal que mantêm há cinco anos. Aquilo é uma cangalhada de primeira geração. Ele que adora construir, fazer. A propósito de fazer: no último dia de Novembro, comemora-se o décimo terceiro aniversário da abertura da Casa Fernando Pessoa (parabéns para o Francisco José Viegas pela programação). Poucos sabem do empenho, do carinho e da determinação do João para que aquela Casa existisse e abrisse as suas portas a 30 de Novembro 1993. O mesmo que meteu em tantas outras coisas boas de que a cidade ainda hoje desfruta. Outros tempos!

NOVIDADES.

Já está no "ar" o 31 da Armada. Parabéns. Para já, a ler: Armados em nada.

INCOERÊNCIA DESAVERGONHADA.

Há gente para quem o Estado devia interferir em tudo o que mexe na sociedade. Rejubilaram com as “nacionalizações” em 1975 e sempre espernearam quando se privatizaram as empresas então nacionalizadas. (Ainda hoje lhe brilham os olhos e batem palmas quando, na Bolívia, Evo Morales decreta a nacionalização dos sectores energéticos ou expropria terras na mira de uma “reforma agrária”.) Para eles, a iniciativa privada na economia devia cingir-se aos vendedores de castanhas e pouco mais. Como em Cuba – regime que defendem (às vezes às escondidas, outras vezes abertamente) – em que o Estado é proprietários de todos os meios de produção, controla e vigia o comportamento de todos os cidadãos. É esta gente que, quando lhes convém, se dá ao despudorado luxo de escrever: “A guerra contra o véu é antiliberal. Dá ao Estado o direito de decidir como cada um se veste e se comporta.” (Daniel Oliveira, Expresso de 25.11.06). Para além de se armarem em “liberais” apenas quando lhes dá jeito ainda querem esconder a questão essencial: as mulheres árabes não decidem como se devem vestir: é o Estado quem decide, em primeira linha, depois os “chefes” das instituições religiosas (que nalguns casos são os mesmos) e, finalmente, os homens da família. Esta cadeia repressiva não preocupa minimamente os nossos “liberais” caviar porque está dentro dos seus esquemas mentais. Esta gente ignora os dramas pessoais de milhares de jovens raparigas árabes na França, na Holanda ou na Alemanha, que desejam ir para a escola com as mesmas vestes das suas colegas, ir aos bares ou jogar ténis com a mesma naturalidade que elas, terem um namorado europeu. Mas nada disso lhes é permitido pela família. A jovem rapariga árabe na Europa é obrigada a vestir-se como se veste, a sair onde lhe permitem e a namorar quem os pais decidem. É da liberdade de ela, a rapariga árabe, poder escolher que estamos a falar. A cultura democrática europeia deve proibir a proibição.

ATÉ AMANHÃ.

Rosário Andrade, Nú-esperando, Óleo sebre tela, 2003.

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

ESTA É A CIDADE.

Esta é a Cidade, e é bela. Pela ocular da janela foco o sémen da rua. Um formigueiro se agita, se esgueira, freme, crepita, ziguezagueia e flutua. Freme como a sede bebe numa avidez de garganta, como um cavalo se espanta ou como um ventre concebe. Treme e freme, freme e treme, friorento voo de libélula sobre o charco imundo e estreme. Barco de incógnito leme cada homem, cada célula. É como um tecido orgânico que não seca nem coagula, que a si mesmo se estimula e vai, num medido pânico. Aperfeiçoo a focagem. Olho imagem por imagem numa comoção crescente. Enchem-se-me os olhos de água. Tanto sonho! Tanta mágoa! Tanta coisa! Tanta gente! São automóveis, lambretas, motos, vespas, bicicletas, carros, carrinhos, carretas, e gente, sempre mais gente, gente, gente, gente, gente, num tumulto permanente que não cansa nem descança, um rio que no mar se lança em caudalosa corrente. Tanto sonho! Tanta esperança! Tanta mágoa! Tanta gente!
(António Gedeão)

SONSOS?
Os militares que ontem foram "passear" até à Baixa Pombalina, fardados e acompanhados das respectivas esposas, lamentam que a Marinha (para já) tenha aberto um processo de averiguações com vista a abertura de processos disciplinares aos militares que foram à Baixa ver as montras e fazer compras de Natal.

NÃO HÁ COINCIDÊNCIAS. A CGTP e o 31 da Armada escolheram a mesma data.

MARIA MENDES.

Maria Mendes nasceu a 8 de Janeiro de 1943, no Caramulo. Andou pela Escola António Arroio, a escola que ensinava Artes Decorativas, mas dividia-se, nessa altura, entre a escrita e a pintura. Publicou alguns contos e poemas no Século e no República. Em 1971, porque a ruralidade salazarista a queria diminuir ou porque, simplesmente, queria dilatar o espaço em que se queria mover, foi viver para Amesterdão, e por lá ficou, dedicando-se às artes plásticas. A mulher – as mulheres – simbolicamente “descrita”, é o tema principal da sua pintura. Expõe regularmente, sobretudo, na Holanda e na Bélgica, tendo realizado várias exposições individuais em Portugal, normalmente no Porto. Conheci a obra de Maria Mendes, pela primeira vez, em 1991, na Europália Portugal, na Bélgica, e fiquei “preso” ao traço, ao símbolo, ao tema e, porque não, à poesia.

ANTÓNIO ALEIXO. O poeta popular algarvio morreu há 57 anos, em Loulé, num dia de Novembro. Lembrando António Aleixo, lá vai uma quadra:

Eu não sei porque razão Certos homens, a meu ver, Quanto mais pequenos são Maiores querem parecer.

VIDAS PRESAS POR UM FIO©.

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

PARA MEMÓRIA FUTURA.

FALTA DE CORAGEM?

Há coisas que ficam mal a quem escolheu a carreira militar como profissão. Uma delas é a falta de coragem. Por isso não se comprende que um militar que participa numa acção de protesto contra propostas orçamentais que lhes desagradam ou lhes retiram benefícios adquiridos pretenda esconder esse protesto. "Não estou a manifestar-me, estou a passear. Não são os chefes militares que me impedem de passear"- disse um deles, primeiro-tenente da Armada no activo, enquanto disfarçava o seu temor observando as montras das lojas no Rossio. Esta resposta é uma mariquice.

ELEIÇÕES NA HOLANDA:
Extrema-esquerda e extrema-direita sobem significativamente nas eleições holandesas.

CITAÇÕES.
«Com as reformas que estão a ser aplicadas pelo actual Governo,e com o processo de ajustamento orçamental que está a seguir, Portugal pode, nos próximos anos, ultrapassar os problemas que herdou do passado.»
Joaquín Almunia, Comissário Europeu dos Assuntos Ecónómicos.

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

ATÉ AMANHÃ.

John Currin, óleo sobre tela (Gagosian Gallery)

AMIGOS DE PENICHE.
Li, já não sei bem onde, que um tribunal português vai constituir arguidos um ministro de Espanha, a pedido do Grupo de Amigos de Olivença. Zapatero já deu a resposta: «Zapatero augura un crecimiento del 3,8% para 2006. El presidente del Gobierno también ha anunciado que, durante 2007 se crearán más de 600.000 puestos de trabajo.» Amigos de Olivença ou amigos de Peniche?

O VÉU!

Há pessoas “bem” que, num dado momento das suas vidas, decidiram ser de “esquerda”, como quem opta por ir para Letras ou para Engenharia Informática em função das oportunidades de emprego. Porque não existe substrato ideológico que suporte tal decisão, o resultado da intervenção cívica (ou política) de “esquerda” de tais pessoas, normalmente, pauta-se pelo nível folclórico. Dizem umas coisas... É o caso de Joana Amaral Dias: mostra-se preocupadíssima com a proibição, em alguns países europeus, das vestes medievais que os árabes emigrados na Europa obrigam as suas mulheres a usar. Ela, a senhora “bem”, é tão reaccionária e tão inconsistente que não enxerga o que isso tem de discriminação contra as mulheres árabes cujos maridos, pais ou irmãos não andam pelas ruas de carapuça enfiada. Eles não; elas sim - assim deve estar escrito no Alcorão. A dita Joana, qual embaixadora de um (ou de todos) aqueles países em que a mulher é tratada abaixo de cão, em que os homossexuais são condenados a pena de morte, em que a mutilação genital é prática comum, em que um homem pode ter dez mulheres, mas uma mulher não pode ter dez homens, em que o adultério feminino dá direito a apedrejamento, mas o adultério masculino nem sequer existe enquanto conceito, e muito mais, insurge-se contra a “islamofobia”. Pergunto: porque é que a Joana, indefectível defensora da opressão das mulheres árabes, não emigra para Teerão e, aí, se passeia em mini-saia para experimentar os ares da “liberdade” árabe em contraste com a “opressão” europeia. Vá até lá Joana, deixe-se de teorias; deixe-se de conversa fiada. Pratique!

OPORTUNIDADES.
O governo já se livrou do "peso" de algumas SCUTS e, ao mesmo tempo, abriu caminho para aliviar toda essa carga em tempo útil. Agora só falta o momento oportuno de acabar com a OTA. Já faltou mais...

COISAS QUE NUNCA TE DISSE (12)

Franz Kline.
Robert Motherwell
«...Robert Motherwell, falando sobre o seu quadro Granada (1949) disse que Kline sempre reconheceu, excepto em declarações públicas, que sofria as sua influências.» (Diário de B.H. Friedmam, 10 de Fevereiro de 1963)

terça-feira, 21 de novembro de 2006

CONFIRA: O Glória Fácil... deixou de ser um blogue colectivo...

PRÍNCIPE REAL.

Torquato da Luz publicou hoje no seu OFÍCIO DIÁRIO um poema sobre um pintor (japonês, penso) que há muitos anos, quase todos os dias, pinta o PRÍNCIPE REAL e que assina m. nagashima. Um dia, há anos, adquiri-lhe um quadro do qual reproduzo um pormenor. Não tenho dúvidas: o "nosso" pintor ama mesmo Lisboa. Atrevo-me a dizer que, vindo de longe, ama mais esta cidade que muitos dos que por cá nasceram. Aqui deixo o poema do Torquato:
Nem ele sabe quantas vezes
já pintou estas casas, estas árvores,
estes canteiros e bancos de jardim,
as portas e janelas da Rua de Dom Pedro V,
o mais amado rei que Portugal teve.
Nem ele sabe quantas vezes
já saíu de cavalete e tela ao ombro
rumo ao Príncipe Real,
em busca de um novo traço, uma cor nova,
que, sob o sol, a chuva, o nevoeiro,
nos dêem outra imagem de Lisboa.
Mas sabe e mostra que esta é a cidade
que, vindo de longe, ele escolheu
e é sua porque a ama
como qualquer de nós.

NOTAS SOLTAS: 1. João Gonçalves chama a atenção – e bem – para o "programa especial de recuperação do dr. Barroso", o PERB.
2. José Pacheco Pereira mostra-se politicamente agastado com a comunicação social por não falar nos cremes e nos tratamentos de beleza de Ségolène Royal, quando – diz ele – falou nos cremes e nos tratamentos de beleza de Sílvio Berlusconi.
3. Carlos Manuel Castro (Tugir) denuncia a palhaçada que Andres Manuel Lopez Obrador, candidato de esquerda derrotado nas eleições presidenciais mexicanas, em 2 de Junho, anda a fazer há quatro meses, culminando hoje com a autoproclamação de "presidente legítimo".
4. Aos amigos Luis Novaes Tito (Tugir) e ao colectivo do Revisão da Matéria um abraço pela distinção.

CITAÇÕES.

Extractos de A gazela que corre mais depressa que os elefantes, de Teresa de Sousa, hoje no Público:
1. (Ségolène Royal) Venceu contra o aparelho do seu partido. Praticamente sozinha. Contra Lionel Jospin, que saiu da reserva a que se remeteu depois da derrota de 2002, quando perdeu para Jean-Marie le Pen na primeira volta das presidenciais, apenas para tentar impedir a sua ascensão. Sem o apoio, sequer implícito, das figuras históricas do socialismo francês, de Michel Roccard a Jacques Delors. Contra o oportunismo impensável de Laurent Fabius, convertido à ala esquerda do PS, depois de ter sido em tempos a sua ala direita e de ter liderado a campanha do "não" à Constituição europeia. Contra o rigor tecnocrático de Dominique Strauss-Kahn. Contra Martine Aubry ou Jack Lang. Venceu contra a arrogância dos velhos senhores de Matignon ou de Bercy, que pensavam arrasá-la nos debates, puxando pelos galões da sua vasta e infinita sabedoria sobre Finanças e Negócios Estrangeiros. O que disse, afinal, Royal para vencer tão facilmente o aparelho do PS francês, arrebatar as primárias e conseguir manter-se persistentemente, teimosamente, à frente de qualquer sondagem? 2. Sabe-se que não teme encarar de frente as questões da segurança que hoje estão no centro da preocupação dos franceses. Que recomenda o serviço cívico obrigatório no exército para os jovens delinquentes. Que não teme falar de temas que são tabu para a esquerda, como a família ou a disciplina. Que diz ser um erro não prestar atenção ao que Tony Blair fez no Reino Unido, que muitas das suas reformas tiveram bons resultados, e que ele teve pelo menos a coragem de enfrentar os problemas novos e procurar para eles novas soluções. Que admitiu rever a lei das 35 horas, emblema da esquerda francesa, pela simples razão de que pode ter sido prejudicial para os mais fracos e apenas vantajosa para as empresas e para os mais qualificados. Que defendeu mais liberdade para os pais escolherem a escola onde querem matricular os seus filhos. Que diz e insiste que é preciso ouvir as pessoas e levar em conta as suas reais aspirações em vez de repetir slogans ou enunciar belos desígnios. Pode parecer muito pouco e, em boa medida, ainda não é suficiente para se saber o que Ségolène defende e pensa realmente. Mas são pequenas coisas que têm pelo menos o mérito de ir todas no mesmo sentido: quebrar o dogma, aceitar a mudança e encontrar soluções pragmáticas, não ideológicas, para resolver os problemas reais. 3. A gazela mostrou que pode correr muito mais do que os elefantes porque é diferente, porque é bonita, porque é mulher, porque ousa romper a teia de velhos lugares-comuns em que se enredou a elite política francesa e porque as sondagens indicam que pode ganhar. Mas é agora que o verdadeiro combate vai começar. Se a direita chiraquiana não conseguir torpedear a candidatura de Nicolas Sarkozy - coisa que ainda não é certa -, a bela dama de Poitou-Charentes que fascinou o PS terá de se confrontar com um adversário que também sabe o que quer. O seu discurso das pequenas coisas deixará de ser suficiente, bem como a forma como conseguiu iludir as grandes questões incómodas da economia, da Europa ou da globalização. Terá de fazer muito mais. Mas isso não impede que Ségolène Royal seja já hoje uma lufada de ar fresco no debate político em França.

APOSTAS.
Ali para os lados do Bicho Carpinteiro há tantas apostas que até parece um casino.

DESESPERO. Marques Mendes, enquanto bebia um “chop” numa esplanada de Copacabana, num fim de tarde acalorado, perante a impossibilidade de solicitar a audição no Parlamento do Presidente da República sobre o conteúdo da entrevista concedida há dias a um canal de televisão, decidiu chamar ao Parlamento o Procurador Geral da República e o director da Polícia Judiciária para que o informem de que meios precisam para combater a corrupção. Depois de obter essa informação, Marques Mendes comunicará a José Sócrates como este deverá resolver o problema.

SÍMBOLOS.

Sophia Loren, aos 72 anos, é a vedeta do calendário da Pirelli 2007, juntamente com Hilary Swank, Naomi Watts, Penélope Cruz e a novata francesa Lou Doillon, filha de Jane Birkin. É obra!

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

CITAÇÕES.

«Vivi o esgotamento de uma esquerda que acreditava na razão, na produção e na história. Vivemos a invenção de uma outra esquerda, a da liberdade pessoal, da solidariedade e da diversidade?(...) É necessário reencontrar o universal em todos, homens e mulher, gente com línguas, memórias e crenças diferentes, indivíduos com actividades, interesses e gostos diversos ou opostos. Criar a diversidade. Este é o principal objectivo da acção política, pois uma sociedade é moderna na medida em que é diversa e já não porque coloca todos os indivíduos, arrancados à sombra da sua memória, à luz crua da Razão
Alain Touraine, Carta aos socialistas, 1996.

Sonhos. Uma vez sonhei que tinha um bilhete de circo feito de sonhos como um chão coberto de estrelas e guardei-o na alma.
Ricardo Paula (Pintura e texto).

E AGORA UMA COISA COMPLETAMENTE DIFERENTE!

O João sugere a “assinatura” desta petição. As petições, em regra, não se destinam a obter resultados directos e imediatos. Mas, muitas vezes, como neste caso, constituem uma tomada de posição que, mais cedo ou mais tarde, vai ter reflexos nos comportamentos. Pela minha parte já assinei.

(Escultura de George Segal)

ATÉ AMANHÃ.

Paul Laurenzi, óleo sobre tela - Galerie Marc faugeras.

NOTAS SOLTAS.

Hoje deu-me para reler uma entrevista concedida por Heidegger à revista alemã Der Spiegel, em Setembro de 1966, realizada em sua casa em Friburgo, conduzida pelo então director da revista, Rudolf Augstein. (Publicada na Revista Filosofia, nº 1 , 1989). Procurei ignorar os sublinhados e as notas à margem que resultaram da primeira leitura há quase duas décadas. Mas não conseguir alcançar outra leitura diferente da primeira: o seu comprometimento que o nazismo. À parte isso, não escondo que a frase “o autoritarismo e rigidez que a democracia permite” atribuída à acção de “Cavaco e Sócrates” escrita por Vasco Pulido Valente, no Público de hoje – e sem querer fazer qualquer comparação completamente desajustada –, tenha constituído o ponto de partida, na medida em que me lembrava vagamente queHeidegger, no seu discurso de tomada de posse, em 1933, como reitor da Universidade de Friburgo, tinha considerado a “liberdade académica” como uma “liberdade negativa”. E que meia dúzia de meses mais tarde se tenha referido à nomeação de Hitler no cargo de chanceler do Reich “como a grandeza e o esplendor deste movimento”. Isso conduziu-me à «bandalhice" versos "firmeza" em democracia. Nesta entrevista, Heidegger explica as suas posições naquela altura com os mesmos fundamentos que justificaram, entre nós, a queda da primeira República e o aparecimento do salazarismo: “Eu então não via nenhuma alternativa. Entre a confusão geral de opiniões e das tendências políticas de 22 partidos, era necessário uma tomada de posição nacional e, sobretudo social”. Ora, ao contrário do que VPV escreve, a “firmeza”e o “não depender da rua” de Cavaco e Sócrates nada tem a ver com a ascendência provinciana e, muito menos, decorre do facto de vivermos “Num país politicamente educado por Salazar”. É apenas uma consequência necessária à sobrevivência da democracia, sobretudo em situações de crise económica. É um sentimento de defesa dos dirigentes das classes no poder. Como já foi sobejamente provado, a “bandalheira” facilita a ascensão dos extremos - seja de extrema-direita, seja de extrema- esquerda.

domingo, 19 de novembro de 2006

BILLIE HOLDAY

Vencer o vazio de um Domingo ao fim do dia: All or Nothing at All.

MUDANÇAS. O México está mudar.

sábado, 18 de novembro de 2006

MÁRIO SOTTOMAYOR CARDIA.

Hoje, o nome de Mário Sottomayor Cardia diz pouco a muita gente, apesar de dizer muito a pouca gente. Um homem bom é, de facto, o epitáfio que melhor lhe assenta desde que se acrescente que homens bons há poucos.

TÍTULOS DE JORNAIS QUE NÃO RESISTEM AO TEMPO.

«Cavaco Silva vence à primeira volta e deixa a esquerda destroçada»

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

AINDA A ENTREVISTA DE CAVACO.
A propósito de dois textos de Pedro Correia ( I e II), que assino por baixo, apesar do título (aos quais, para melhor entendimento, adiciono este do Francisco), relembro um artigo do Público, assinado por Nuno Sá Lourenço (sexta, 20 de Janeiro de 2006): «Foi visível quando falava de cooperação estratégica com o Governo. "Eu serei o Presidente que se empenhará fortemente para unir os portugueses", prometeu. "Eu serei o Presidente da cooperação", garantiu mais à frente na sua intervenção. Até mesmo quando se referia aos seus apoios partidários, querendo assegurar que não daria privilégios a detentores de cartões de partidos, afirmou: "Todos sabem que eu serei o Presidente de todos os portugueses, serei um Presidente isento." "Serei o Presidente da estabilidade política", afirmou também. » De facto, na entrevista de ontem não houve nada de novo. Ainda bem!

ESTAR DE ACORDO:
«Revisionismo.», Francisco José Viegas (Origem das Espécies).
« SÉGOLÈNE ROYAL.», Tiago Barbosa Ribeiro (Kontratempos). « Folgas para o défice?» Rui Pena Pires (Canhoto).

SÉGOLÈNE.

Se Ségolène conseguiu atrair tanta atenção fora de portas porque razão não iria conseguir atrair os franceses?

LOUÇÃ É UM PÂNDEGO. Num comentário à entrevista de Cavaco Silva, Louçã declarou: “O país está a ser governado pela coligação Sócrates-Cavaco. Estão coligados, têm a mesma visão do que se deve fazer para o país”. O que é que este pândego queria? Que Portugal fosse governado por quem não foi eleito? É natural que o país seja governado por quem foi eleito: Cavaco e Sócrates! Louça esperava que Cavaco tivesse a visão do Bloco de Esquerda? Ou qualquer visão lhe servia desde que debilitasse o governo? O que não seria natural ( não seria democrático para ser mais rigoroso) era o país ser governado pela visão de Louçã e seus comparsas.

ATÉ AMANHÃ.

Paul Laurenzi, óleo sobre tela - Galerie Marc faugeras.

FICÇÃO.

Hoje foi notícia a deslocação de José Saramago à Azinhaga, sua terra natal, onde passa o seu 84º aniversário e lançou o 39º livro. Ao ouvir as suas palavras enevoadas pela emoção – um homem não chora, disse –, pensei: o que teria sido o percurso deste homem se, em 1975, a história tivesse tomado outro rumo. E deitei-me a adivinhar: teria saído directamente da direcção do Diário de Notícias para ministro da Propaganda no governo revolucionário presidido pelo Dr. Álvaro Cunhal. Aí, no zeloso desempenho desse cargo, seria a primeira voz a mandar encerrar todos os órgãos de comunicação social contra-revolucionários, a proibir a publicação de todas as obras literárias que não tecessem loas à revolução e a perseguir e a encarcerar todos os artistas que não compreendessem o carácter progressista e revolucionário da revolução democrática e popular dirigida pela classe operária e pelo seu partido – o partido comunista português. Neste período, deslocar-se-ia várias vezes a Moscovo, onde receberia instruções directamente de Leonid Brejnev, Aleksei Kossygin e Nikolai Podgorni, com direito a fotografia ocupando toda a primeira página dos jornais portugueses. Atrevo-me a imaginar que, maldade minha, face à sua ortodoxia, aí pelos anos 78/79, Cunhal o promoveria a ministro do Interior, entregando-lhe a chefia directa das polícias políticas, dos serviços secretos e das prisões. Nessa altura, e com as prisões a abarrotar, defenderia a pena de morte para todos os contra-revolucionários e os inimigos do povo. Com a medalha de herói da União Soviética ao peito nunca mais teria escrito uma linha, a não ser naqueles despachos em que mandava introduzir uma bala na nuca dos presos, nem nunca mais teria voltado à Azinhaga. E dou por mim a pensar como estou feliz por José Saramago ter escrito o seu 39º livro e ter voltado à Azinhaga. Como diz o povo: há males que vêm por bem!

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

NAMORO.

Estive dividido entre as entrevistas de Santana Lopes e Cavaco Silva. Decidi-me sobretudo pela última, espreitando de vez em quando a primeira. Em relação à entrevista de Cavaco acrescento à lista do João as seguintes frases:“Cooperação estratégica”, “entendimento”, “cooperação leal”, “ colaboração silenciosa para produzir resultados”, “não é uma tarefa fácil a do governo”, “eu não quero fragilizar o governo” “as reformas, as mudanças se quiser, são necessárias; deixar tudo na mesma é pior”, “é preciso explicar aos portugueses que os sacrifícios que estão a ser pedidos são para o bem do seu futuro” . Da entrevista de Santana Lopes não retive uma única frase, apenas ficou o estilo guerreiro.

MÁRIO BOTAS.

Às vezes, nestas divagações nocturnas, apenas se pretende não perder a memória: Mário Botas nasceu em Dezembro de 1952, na Nazaré e morreu no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, em Setembro de 1983. Licenciado com distinção em medicina, em 1975, nunca exerceu, dedicando-se quase exclusivamente à pintura e ao desenho – as escolhas inatingíveis da vida. Ao contrário do projecto de Baudelaire de comentar as gravuras de Meryon, Mário Botas partiu do texto para construir a “sua” pintura – numa certa medida uma exaltação da “estética do feio”. Apesar da sua meteórica passagem pela vida ainda expôs as suas obras, em vida, em mais de 30 exposições individuais ou colectivas, desde Lisboa a Nova Iorque. Só vi uma única exposição de desenhos de Mário Botas, no começo dos anos 80, na galeria Ana Isabel, em Lisboa. Deixou uma obra importante, apesar de ter morrido com 31 anos.

A REPÚBLICA (3).
«- Não tens vergonha nenhuma, Sócrates, e interpretas as coisas de maneira a desvirtuares o meu argumento.
- De modo algum, meu excelente amigo. Mas explica mais claramente o que queres dizer.
- Certamente que cada governo estabelece as leis de acordo com a sua conveniência. Uma vez promulgadas essas leis, fazem saber que é justo para os governos aquilo que lhes convém, e castigam os transgressores, a título de que violam a lei e cometeram uma injustiça. De onde resulta, para quem pensar correctamente, que a justiça é a mesma em toda a parte: a conveniência do mais forte.»
(Platão, A República.)

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

FERNANDO BOTERO.

O pintor e escultor colombiano Fernando Botero expõe na Marlborough Gallery, em NY, quadros sobre os abusos norte-americanos em Abu Graib. As obras expostas não estão à venda porque Botero considera que o tema tem a ver com a memória e não com benefícios materiais. Por isso, na sua ingenuidade decidiu ofereceu todas as obras a vários museus norte-americanas que as recusaram.

TRISTE LISBOA.

Lisboa, enquanto cidade, definha aceleradamente. Até dói. A cidade deixou de ser pensada e amada. Hoje consumou-se a previsível rotura PSD/CDS, ainda por cima por razões de “mercearia”. Pobre cidade... (foto daqui.)

Gostei de ler:
«NÃO É FÁCIL DIZER BEM - 8 », João Gonçalves (Portugal dos Pequeninos).
«Dez notas sobre o congresso do PS» Pedro Correia (Corta-fitas).
«Está por aí algum professor de matemática?», Luis Novaes Tito (Tugir...)

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Citações. Fé vermelha, de Nuno Pacheco, Público de hoje:

«O que querem, pois, os resistentes comunistas da cimeira de Lisboa, mesmo os mais devotos ou honestos? Sobreviver, apenas isso. Manter galvanizadas as suas bases de apoio, nem que para isso tenham de mentir, como aliás sempre fizeram: o comunismo, enquanto sistema, deve deter um dos maiores índices de mentiras de toda a história universal. Ou parasitar os muitos podres que a sociedade, infelizmente, ainda lhes oferece: o subdesenvolvimento, a fome, a pobreza, as muitas guerras absurdas que o comércio, legal ou ilegal, de armas alegremente sustenta. Podem ser poucos, podem enganar-se mutuamente acerca da sua verdadeira representatividade ou força, mas isso pouco ou nada importa quando o que está em causa é a manutenção de um cenário que pretende iludir a decrepitude à base da fé. A fé nos "amanhãs que cantam" e na verdade não sabem cantar, a fé num "socialismo" que os seus antepassados políticos enterraram sob as cinzas de milhões de vítimas. No comício final, o russo Guenadi Ziugannov disse que o planeta "está a ficar mais vermelho". De raiva? Ou de vergonha

Deriva.

«LIMITO-ME A DIZER OBJECTIVAMENTE
O QUE PENSO.
CHEGÁMOS AO EXTREMO-LIMITE DO PERIGO
(Mário Cesariny, Titânia história hermética em três religiões e um só deus verdadeiro com vistas a mais luz como Goethe queria, Assírio & Alvim, 1994.)

América, América. (William Copley e Marisol Escobar.)

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

Lixo?

Ontem, fiz um comentário a um texto de José Pacheco Pereira (Público, 9.11.06) sobre a “blogosfera”, onde usei o meu “humor primário” para reprovar a “tese” ali defendida. A propósito do dito comentário já recebi 4 e-mail – todos de amigos – onde me dizem, diplomaticamente, que é um comentário “idiota”. Um deles deu-se ao trabalho de escrever quase duas páginas para me dizer, mais coisa, menos coisa, que se não estou de acordo devo explicar seriamente as minhas razões. Estes meus amigos, que me conhecem há alguns anos, deviam saber como eu “despacho” determinados “teses” com uma alarvice que, quase por instinto, acho resposta adequado à “teoria” que pretendo rebater. Às vezes, de tão primária – a alarvice – torna-se incompreensível. Sem querer perder-me em explicações desnecessárias, apenas digo que o texto em causa não dava a menor pista sobre o que o seu autor considera “lixo”: serão os blogues de conteúdo erótico ou os diários intimistas? Serão os blogues escritos por pessoas que não têm curso superior ou aqueles que não versam sobre literatura, arte ou política? Serão apenas os blogues cujos autores se mantêm anónimos ou aqueles cujo nível não se pode equiparar à produção jornalística de diários ou semanários de “referência”? Daí o comentário. Em boa verdade, só encontro nas minhas deambulações “blogosféricas”, ao contrário do autor do texto em causa, na pior das hipóteses, menos de 10% de “lixo”. E sabem porquê? Porque não faço a comparação com a produção jornalística tradicional – matéria em que JPP se mostra viciado. A democratização do “novo mundo” comunicacional deve ser apreciadoa e entendida fora do colete-de-forças elitistas do “velho mundo”. Este “novo mundo” não vai ser plasmado segundo as regras do “velho mundo”. É, efectivamente, outra coisa que se está a desenvolver. Esta é uma má notícia para quem considera que 90% do que existe na “blogosfera” é “lixo”.