quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Sim, naturalmente.

Hesitei entre apenas fazer um link ou acompanhar o link com um pequeno comentário de concordância. Decidi-me pela transcrição na íntegra:
«Tinha-me decidido pela abstenção, tal como em 98. Não gosto de referendos e ainda menos deste. O aborto é um daqueles assuntos que não pode ficar à mercê de emoções manipuláveis. Não vale a pena recuar aos ominosos anos Guterres. Toda a gente conhece a história. Continuo a achar que o referendo do próximo dia 11 vai deixar quase tudo na mesma. Mas dois dias seguidos a ouvir os argumentos do NÃO que tem lugar cativo nos debates, têm consequências. Até sou capaz de admitir que haja argumentos e gente sensata desse lado, mas o que se ouve nas televisões é um susto. As prestações de ontem, na SIC Notícias, da viúva de Sousa Franco e de José Pedro Aguiar-Branco, raiaram a desfaçatez. Assim sendo, vou votar. SIM, naturalmente.»
Eduardo Pitta (Da Literatura).

Alguém sabe de onde vêm os ovos?

Ouvi no telejornal, entre duas garfadas, qualquer coisa do género: na China há, por cada mês que passa, 4,5 milhões de novos utilizadores de telemóvel, o mesmo número de utilizadores que a TMN tem em Portugal desde que apareceu no mercado. Naquelas paragens, qualquer migalha que se apanhe por debaixo do sacudir da tolha representa seguramente mais para a economia portuguesa do que a descoberta do Brasil (passe a comparação porque a descoberta do Brasil contribuiu em muito para a nossa decadência). Mas, cá no burgo, algumas vozes se erguem para dizer: "o que é que aquele gajo foi fazer à China? Gastar dinheiro dos contribuintes. Até o Presidente deles se pirou para África. Mais uma passeata, é o que é." Nós, portugueses, na maior parte das vezes, não sabemos de onde é que vem o pão. Comportamo-nos como aquelas crianças que nunca viram uma galinha viva e que pensam que os ovos nascem nos supermercados.
PS: Qualque êxito desta viagem à China nada tem a ver com o desastrado ministro da economia.

Não é possível alguém acordar assim... A Bomba transmite-nos sempre como acorda, quer seja numa radiosa manhã de primavera, quer debaixo da mais desolada tempestade de farrapos de neve (sim, por cá só existem farrapos; a neve é para os outros). Habituei-me (habituou-me) a ver a Bomba acordar assim, assim ou assim, por exemplo. Por isso, hoje, sinceramente, não entendi porque é que a Bomba acordou assim: não é possível alguém acordar assim…

Bom senso: «IGNORAR? NÃO FOCAR», Paulo Gorjão (Bloguítica).

Perguntar não ofende: quando os regimes democráticos usam os mesmo métodos* que os regimes ditatoriais ou totalitários é porque os métodos usados por estes regimes estavam/estão certos?
*(a odisseia - sequestro, prisão, tortura - de um cidadão alemão nascido no Kuwait que teve o azar de cair nas mãos da CIA).

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Até amanhã.

Jirayr Zorthian (Turquía 1911 - 2004)

Comunicação directa (2)

Quando Ségolène Royal apresentou uma mensagem de Natal através da Internet, destaquei o que me pareceu mais importante: O que me parece relevante nesta mensagem é o facto de, hoje em dia, ser possível aos políticos comunicarem com os eleitores sem intermediação da comunicação social. Esta comunicação directa é um dado novo no relacionamento dos políticos com os eleitores. Depois de Ségolène, foi Hillary Clinton a utilizar a mesma comunicação directa quando anunciou a sua candidatura à Presidência dos Estados Unidos. Por cá, por via do debate sobre a despenalização do aborto, Marcelo Rebelo de Sousa e Louça já fizeram uso deste novo tipo de comunicação. Hoje, o primeiro-ministro não perdeu a oportunidade de experimentar a fórmula a propósito da visita à China. Estamos no limiar de uma deslocação do eixo dos canais de comunicação entre o político e o eleitor. A intermediação feita pela comunicação social vai rivalizar com a comunicação directa e esta vai alterar as regras daquela intermediação. Acredito que na próxima década muita coisa vai mudar. Tal como escrevi noutro post: o pessoal da Time já conseguiu ver aquilo que por cá ainda nem se cheira. Vamos dar tempo ao tempo porque atrás do tempo tempo virá...

A sociedade civil

A maior parte dos protagonistas que, nesta campanha, defendem um e outro dos lados em confronto no próximo referendo, pertencem à sociedade civil (aqui usada a expressão em oposição aos partidos políticos e aos políticos profissionais). Pelo que tenho ouvido e lido nos últimos dias, quer de um lado, quer de outro, e dispenso-me de citar nomes, esta sociedade civil tão lesta a criticar a demagogia, a falta de rigor, as promessas dos políticos em campanhas eleitorais eminentemente políticas, apresenta-se agora, de crista no ar, a ultrapassar em muito os ditos políticos profissionais.

Prós e Contras

Para os partidários do Sim, entre os quais me incluo, os argumentos dos defensores da despenalização ganharam a “contenda” de hoje nos Prós e Contras; não erro se disser que para os partidários do Não foi exactamente ao contrário. Contudo, o que é mais importante é avaliar o efeito dos vários argumentos (uns mais avulso, outros mais sistematizados, quer de um e outro lado) naqueles que assistiram ao programa e que, sem decisão tomada, ainda são susceptíveis de serem convencidos a ir votar no Sim ou no Não. Não tenho certezas, mas estou convencido que Aguiar Branco está ali a dar uma boa mãozinha ao Sim. Espero que ele seja convidado a falar mais um pouco.

Treinador de sofá(2):Francisco: depois dos alcantarenses e dos leirienses terem molhado o pão na sopa adquire-se, naturalmente, alguma esperança, mesmo sabendo que os milagres não caem do céu aos trambolhões. Mas, perante a crua realidade, não há nada como um desabafo sincero.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Ler os outros

«Lisboa precisa de renascer II», Carlos Manuel Castro (Tugir).

domingo, 28 de janeiro de 2007

Até amanhã.

Elihu Vedder (New York 1836-1923).

Treinador de sofá: fui à Valenciana comprar um frango com muito picante e acomodei-me no sofá a ver o Boavista- Sporting. No final do jogo percebi, finalmente, porque sou sportinguista: trata-se de uma equipa que devia estar no meio da classificação, mas o esforço e a mestria dos seus jogadores fazem com que esteja no terceiro lugar. Não há dúvida que isso constitui uma grande satisfação para os seus adeptos.

Salazar

Li Os amores de Salazar, de Felícia Cabrita, há 6 anos, altura em que foi editado pela primeira vez (não entendo como se quer fazer crer que esta nova edição é a primeira). Desde a primeira leitura entendi que, pese embora a investigação e a especulação andassem a par, tratava-se de um livro destinado a reabilitar a imagem Salazar, sobretudo a humanizá-lo. A narração de alguns dos seus vários amores é um elogio a Salazar. Afinal, o velho ditador de Santa Comba Dão não era assim tão “austero, virtuoso e casto” quanto ele próprio fomentou enquanto imagem de marca. Era, afinal de contas, um homem comum, tocado como todos os mortais pelas paixões, pelo amor e pelo sexo. E é aqui que se levanta a questão mais interessante na interpretação dos seus amores: é um dissimulado que esconde a sua “natureza” e vende a imagem inversa ou, apenas, martirizado pelo “destino”, sacrifica os seus interesses e desejos pessoais à “missão histórica de servir a Pátria” que a si próprio atribuiu? A última coisa de que posso ser acusado é de ter qualquer tipo de simpatia pelo salazarismo, mas não tenho dúvidas de que Os amores de Salazar, ao contrário do que alguns pensam, suscita uma outra leitura do personagem. Livros atrás de livros têm sido publicados nos últimos anos sobre Salazar, sinal de amadurecimento democrático. Até o meu amigo João Paulo Cotrim se aventurou no tema. Não podemos separar o homem da Ditadura a que deu corpo e alma, mas o caminho está aberto para encontrar no homem uma personalidade com virtudes que não são de jogar liminarmente pela borda fora. Estamos apenas, por agora, a falar de amores.

Aniversários: O Luis Novaes Tito e o Carlos Manuel Castro andam a Tugir há 3 anos. Para os dois um abraço.

sábado, 27 de janeiro de 2007

Curiosidades: estatísticas em tempo real.

Príncipe Real

O quiosque do "senhor Oliveira" - uma autêntica instituição da cidade - pintado por m. nagashima - um pintor japonês que ama Lisboa (pintura gentilmente enviado por Diogo Gomes), já aqui referido a propósito de um poema de Torquato da Luz.

Até amanhã.

Diego Rodríguez de Silva y Velázquez, 1599-1660

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

Entre a memória e o esquecimento.

«Recordo que o principal compromisso de João Soares, assumido com a cidade em 1997, de erradicar os vários cancros de barracas que minavam o concelho em vários locais, foi cumprido na totalidade, contra muitas expectativas, que auguravam que o Casal Ventoso ou a Musgueira, como as conhecíamos, nunca deixariam de ser o que eram.Entre 1997 e 2001, fruto de um trabalho consistente e devidamente preparado, a cidade mudou de cara e, mais do que a mudança de face, mudou de Alma, como já estava a mudar desde 1990, tornando-se um concelho mais digno e promotor de coesão social.»
Carlos Manuel Castro (Tugir).

Há momentos em que até um ateu se rende...

... a cerveja Deus é engarrafada e maturada em caves como se se tratasse de um comum champanhe, sendo adicionada a mesma levedura responsável pela estrutura do famoso vinho gaseificado francês. O resultado é uma cerveja com uma estrutura de champanhe. É indescritível, é incomparável, pudera estamos na presença de Deus! (informação de Rui Curado Silva)

A linguagem da realidade

Escultura de Duane Hanson (1925-1996), Senhora de Supermercado, 1969. (Fibra de vidro pintado e poliéster). Como diria Piero Manzoni: «Não há nada a dizer, cada um deve simplesmente ser, cada um deve simplesmente viver

Masoquistas

pessoas que adoram cuspir para o ar na esperança que o cuspo lhe caia em cima.

Se...

um dia bater com a cabeça na parede e deixar imediatamente de fumar não se admire. Apenas afectou a ínsula.

Citações (6)

Extracto de A imagem dos políticos, Constança Cunha e Sá, Público 26.0107:
«Não é, portanto, de estranhar que, num concurso de televisão, o dr. Oliveira Salazar surja, ao lado do dr. Cunhal, como um dos dez maiores portugueses de sempre. A ordem, a autoridade e a imagem mítica de um salvador (ou de um revolucionário) dão-se mal com a "balbúrdia" da democracia. Como é natural, o dr. Soares não faz parte deste glorioso grupinho: a "normalidade" de um político "normal"que gosta de política e contribuiu, como nenhum outro, para a "normalização" da democracia não se coaduna com os sonhos de grandeza de um país de pelintras. O que já não é tão natural é o entusiasmo com que certa direita - supostamente liberal e "moderna" - recebeu essa extraordinária notícia. Não é por acaso que, 30 e tal anos depois do 25 de Abril, não existe um partido de direita em Portugal. E a responsabilidade, ao contrário do que por vezes se diz, não é da esquerda e do seu hipotético domínio cultural. É da direita, que, salvo raras excepções, continua igual a si própria. »

Fascistas

Todos sabemos que alguns dirigentes do Bloco de Esquerda tiveram como modelo de virtudes políticas ditadores como Leonid Brejnev - o homem que, entre outras bravatas, caldeou em banho de sangue a Primavera de Praga -, Yuri Andropov, o chefe da polícia política, o KGB, personagem importante na invasão da Hungria, em 1956, e que já caquéctico ascendeu ao "trono" da ditadura do "proletariado" e, ainda, Konstantin Chernenko que, também oriundo da polícia política, mais velho que o seu antecessor que morreu de podre, ainda conseguiu ser seu sucessor. Por isso não é de estranhar que o Bloco de Esquerda veja, hoje, aquilo que alguns dos seus mentores não viram quando deviam ver: "fascistas" em todo o lado. É apenas uma questão de lavagem das entranhas.

Percursos?

.

Prevenção:

Câmara de Lisboa previne-se contra as vagas de frio que se avizinham.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Hillary Clinton.

Vai ser muito interessante seguir as próximas presidenciais nos EUA, a começar pelas primárias, quer nos Democratas, quer nos Republicanos. Não só para ver como os norte-americanos vão reagir eleitoralmente ao atoleiro no Iraque, mas para ver como vão encarar a hipótese de uma mulher ocupar pela primeira vez a Presidência dos Estados Unidos. Se fosse norte-americano votava Hillary Clinton.

Apocalypto.

Mel Gibson está de volta, depois da Paixão de Cristo, agora à volta da decadência dos Mayas, para narrar no seu registo hiper-realista a natureza humana. Nas entrelinhas, outros recados, como: o amor é a fonte do melhor que o homem pode mostrar; a paz da vida rural, da natureza, do ambiente como antídoto contra a violência e a decadência das cidades.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Lauro Corado.

Ler os outros:

MEMÓRIAS DE EDMUNDO PEDRO, José Leitão (Inclusão e Cidadania) .

Há quem ande com os cabelos em pé...
... ou quando o bom humor foge para debaixo do tapete.

domingo, 21 de janeiro de 2007

Liberalizar ou despenalizar?

Não há maneira de escapar ao debate sobre a despenalização do aborto. Pelo menos até dia 11 de Fevereiro. Contudo, nestas últimas duas semanas, observo algumas alterações: a onda da liberalização do aborto, protagonizada pela ala radical pequena burguesa de fachada socialista (esta frase assenta que nem luva de pelica a certas pessoas) dos apoiantes do SIM, que parecia dominar ideologicamente, está a perder espaço para os defensores da despenalização. Pelo que vou lendo e ouvindo já começa a fazer escola a tese de que ninguém quer a liberalização do aborto, mas sim a sua despenalização. Outra tese que se começa a ouvir e a ganhar espaço é a seguinte: no quadro da actual lei (ou caso o Não vença) nenhuma mulher de classe média (e daqui para cima) será minimamente prejudicada. Em caso de necessidade mete-se no carro e vai até Badajoz (é mais perto de Lisboa do que do Porto ou de Faro, como o Porto é mais perto de Vigo do que de Lisboa e Sevilha mais perto de Faro do que de Lisboa). A despenalização do aborto é indispensável para as mulheres que nem sequer a Badajoz podem ir e que não têm alternativa senão correrem o risco de perderem a vida num “vão de escada” ou, se sobreviverem, irem malhar no calaboiço. E por estas eu voto SIM. A dúvida que se adensa, caso o SIM vença, como espero, é se tudo isto não fica de pernas para o ar. Ou seja, proliferem as clínicas para evitarem a ida a Badajoz para resolver os problemas de quem hoje não precisa, mas o SNS não responda satisfatoriamente a quem precisa, empurrando como hoje para o “vão de escada” e para a prisão sempre as mesmas. Se o SIM vencer, a partir de 11 de Fevereiro, inicia-se a verdadeira luta: o cumprimento da lei no SNS. A ver vamos!

sábado, 20 de janeiro de 2007

Aí está ela outra vez.

Com óculos (estudante de jornalismo sem óculos não cai bem), o "pai" e a falar com mortos - o crime quase perfeito.

Citações (5).

O referendo, Vasco Pulido Valente, Público 20.01.07.

«Não gosto do referendo e sempre o achei perigoso e nocivo. Primeiro, porque diminuiu e desvaloriza a representação política. Segundo, porque inevitavelmente tende a deturpar o debate e a vontade do eleitorado. Nenhum problema complicado tem uma resposta de "sim" ou "não". E, como não tem, os dois lados de qualquer campanha, como, no caso, a campanha sobre o aborto, acabam por cair na "simplificação terrível" da demagogia. Basta abrir os jornais. José Pinto Ribeiro, por exemplo, disse isto: "Um ovo não tem os mesmos direitos de um frango." Fora o mau gosto, quem falou em frangos? Mas Pinto Ribeiro não foi o único. César das Neves, no seu estilo hiperbólico, avisou que "a vitória do "sim"" torna o aborto tão "normal" como comprar um "telemóvel". Uma ideia que não se distingue pela sua especial humanidade. Gentil Martins quer punir as mulheres que reincidirem em abortar. E até houve um bispo que resolveu comparar o aborto com o enforcamento de Saddam Hussein. Deus lhe perdoe. Significativamente, os grandes militantes do "sim" e do "não" vêm quase todos da classe média. Sucede que, para a classe média, o aborto não é um problema. Conhecendo bem os meios de contracepção e a "pílula do dia seguinte", quase nenhuma mulher (ou casal) da classe média é apanhada (ou apanhado) na necessidade de escolher entre um filho e um aborto. E, se as coisas por negligência ou acidente chegarem ao pior, não recorrem com certeza ao "vão de escada". Não admira, por isso, que vejam no aborto primariamente uma questão moral, de justiça social ou dos direitos da mulher e não hesitem em entrar numa polémica de "intelectuais", abstracta e violenta e, ainda por cima, incompreensível para quem, de facto, aborta.Mas, pior do que o resto, é que, a pretexto de permitir uma decisão directa do "povo", o referendo criou pouco a pouco um confronto azedo entre a Igreja e a esquerda. Ou, se quiserem, entre a esquerda (com o PS à frente) e os católicos. Não se percebe como, apesar da prudência do patriarca, a Igreja se deixou envolver numa causa puramente política, que não contribui para a reafirmação da sua doutrina (e pode, pelo contrário, mostrar o desinteresse do país por ela) e que, ganhe o "sim" ou ganhe o "não", nada, ou quase nada, mudará na prática. Como não se percebe que o PS, excepto por exorcismo, se meta numa querela que só serve para promover o Bloco. A Igreja julga que pode fechar a porta ao aborto e os políticos que se livraram de um grande sarilho. Erro deles. Com o "sim" ou o "não", o referendo é o princípio de uma longa guerra, não é o fim. »

Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)

Se alguém descrevesse
o meu rosto, pálpebra
a pálpebra, aleta a aleta
do nariz, a curva
de lábio a lábio,
a fronte agora, a face depois
eu poderia desdenhar
da solitária alheada
imagem num espelho.

Guerra e Paz (2)
Aumenta a preocupação pelo má sorte da jornalista portuguesa Rute Monteiro: O Tugir elenca as preocupações já reveladas: Ante et Post; A Arte da Fuga; Cocanha; Crítico; Diário de um Quiosque; Divas e Contrabaixos; Food-i-do; Freelance; Indústrias Culturais; Jornada; La Tadhab; Da Literatura; Mar Salgado; Mas certamente que sim; Memória Virtual; Miniscente; Portugal dos Pequeninos; Substrato; Tugir em português. A ideia (a preocupação, a solidariedade...) é linda e ninguém pode deixar de alinhar.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Guerra e Paz.
Parece que Rute Monteiro, uma jornalista portuguesa, foi raptada no Líbano por um grupo terrorista pouco conhecido. Por esta altura já está no Afeganistão. A notícia percorre a blogosfera. Podem comprovar aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui, por exemplo. E o Governo o que faz? Nada. Mantêm um silêncio profundo. O Ministro dos Negócios Estrangeiros só pensa na viagem à China e nos voos da CIA. Pelo andar da carruagem só vamos ter notícias sobre o paradeiro da Rute lá para Fevereiro. Não se deve admitir tão sepulcral silêncio!

Gostei de ler:
«AINDA O CONCURSO E MÁRIO SOARES», Tiago Barbosa Ribeiro (Kontratempos).

Culto da personalidade.

Os selos de correio, as estampilhas, e o culto da personalidade sempre estiveram muito ligados.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Clima.
Mau tempo assola Largo do Caldas.

Zangam-se as comadres...
"Nunca como hoje sinto a fraqueza de George W. Bush", afirmou o primeiro-ministro iraquiano, Nuri al-Maliki.

Se Marques Mendes alinhasse...
O PSD está a braços com a eleição do seu líder parlamentar. Até agora o cargo foi desempenhado por Luís Marques Guedes, um nome que não diz nada a ninguém fora de S. Bento. A impressão que tenho da mera leitura dos jornais é que o senhor deputado costuma fazer entradas de leão e saídas de sendeiro. São muitos os exemplos, mas ocorre-me de imediato a “telenovela” da sala para receber os deputados do Parlamento europeu que “investigam” os voos da CIA. Nesse dia declarou exaltado e politiqueiramente convicto, aos microfones da TSF, que ia arrasar o presidente do Parlamento. Dois dias depois, mais calmo, quase com o rabo entre as pernas, declarou que estava satisfeito com a explicação de Jaime Gama. É neste contexto, que Pedro Santana Lopes, num primeiro momento, declara que ocupar esse cargo está “fora de questão” e, dois dias depois, se mostra disponível. A hipótese Santana Lopes para líder parlamentar do PSD nesta legislatura, significava, a meu ver, sobretudo, duas coisas boas para o PS: primeira: consolidava definitivamente a “cooperação estratégica” entre o Presidente da República e o Primeiro-Ministro (o ressabiamento de Santana Lopes contra ambos é público e notório – um, recusou a fotografia em cartazes da última campanha eleitoral e designou-o como moeda má e ocupou-lhe o cargo mais desejado; o outro humilhou-o no terreno em que Santana se considerava um Deus – as eleições, o que provocaria naturalmente o cerrar fileiras entre os atingindos); segunda, o PSD entraria em ebulição (para ser preciso: entraria num grau de ebulição incomensuravelmente superior ao que já se encontra) com Marques Mendes a aliar-se a José Sócrates para combater o seu adversário principal: Santana Lopes. É evidente que para a comunicação social, incluindo a blogosfera, a eleição de Pedro Santana Lopes para líder parlamentar do PSD seria uma boa notícia: saímos do marasmo actual. É pena que Marques Mendes não alinhe nesta solução.
PS: Entre os defensores da solução Pedro Santana Lopes tenho amigos que muito estimo e considero.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

Até amanhã.

(Catherine Abel, Moulin Rouge, Oil on canvas).

Ponta final.

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

A coisa promete...e já dá rezas.
«...o padre Macedo, da Igreja do Chiado, que levou os fiéis a rezar junto da estátua de D. José, no Terreiro do Paço, pela alma das vítimas do aborto. Não percebi se das supostas vítimas dos abortos clandestinos ou das do aborto legalizado, mas o padre Macedo enganou-se no local, no Terreiro do Paço há almas penadas mas não são de vítimas dos abortos, as almas que por ali pairam são das vítimas do Santo Ofício que no passado foram ali queimadas por padres de que o Macedo é um herdeiro

A coisa promete...e já dá choro.

«No ano em que se comemora o 90º Aniversário das aparições de Fátima, Nossa Senhora chora... e Ela chora por milhares de inocentes que podem perder a vida antes mesmo de dar o primeiro gemido».

Citações (4)

Extracto de Evitar o aborto, de José Vítor Malheiros, Público 16.01.07. (Sublinhados meus)

«Nos últimos anos, verificou-se uma pequena mas significativa evolução na abordagem do aborto: enquanto as pessoas que são contra continuam a ser contra, hoje já não há ninguém que se declare "a favor" do aborto. Tendo sempre sido um defensor da despenalização, devo dizer que sempre me senti chocado quando alguém simplificava a sua posição ao ponto de se declarar "a favor" da interrupção voluntária da gravidez. O que existem são pessoas que consideram o aborto moralmente inadmissível em todas as circunstâncias e outras que admitem que se recorra ao aborto em circunstâncias especiais - ainda que reconhecendo a prática como indesejável. E, entre estas últimas, existem como se sabe discussão sobre quais devem ser essas circunstâncias especiais que tornariam o aborto admissível. Penso que existe por isso uma grande maioria na sociedade portuguesa (para não dizer que existe uma opinião unânime) que defende medidas enérgicas que permitam evitar o aborto.»

Privilégios.
Estou entre os portugueses que tiveram o privilégio de não ver a entrevista dada pelo senhor Presidente da República e pela Primeira Dama num quarto de hotel na Índia. Para sofrer já me chega ver a Académica de Coimbra perder com o Benfica.

Portugueses.
Pego no tema e na óptica do Carlos Manuel Castro (Tugir) para dizer o óbvio: entre os dez primeiros portugueses de todos os tempos estão em maioria, e sem empurrão de “disciplina partidária”, portugueses do “fazer”: D. Afonso Henriques, D. João II, Vasco da Gama, Infante D. Henrique e Marquês de Pombal. Isto só pode significar uma coisa: os portugueses que contribuíram com o seu voto para esta escolha acreditam que é preciso uma visão do futuro e determinação para mudar, para “fazer” Portugal. Depois vêm, naturalmente, os nossos dois maiores vultos da cultura: Luís Camões e Fernando Pessoa, e o diplomata Aristides de Sousa Mendes – também homens com visão do futuro e determinação para mudar – o mundo é feito de mudança, escreveu um dos poetas escolhidos. Finalmente, a contra corrente: as “nossas” duas almas gémeas do século XX: Salazar e Cunhal (é bonito vê-los de mão dada nesta escolha): duas múmias agarradas ao passado e avessos à menor mudança. Ambos agonizavam só de ouvir falar em democracia. Só a “disciplina partidária” os inseriu nesta “história”. Eu não alinho nesta brincadeira, mas penso que Camões faz a síntese do melhor que nós temos e do melhor que nós somos.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

Há atitudes que fazem a diferença.
Ao ouvir (o link é audio) Zapatero reconhecer o erro que cometeu em relação à ETA lembro-me da atitude de muita boa gente. Nem sequer me refiro à possibilidade de Bush pronunciar publicamente o reconhecimento do erro que cometeu ao invadir o Iraque. Refiro-me àqueles que, por cá, na nossa terra, tanto zurziram em Zapatero, mas que, tendo aplaudido de pé e na primeira fila a invasão do Iraque, até hoje, foram incapazes de dizer: "Quero reconhecer o claro erro que cometi". Há atitudes que fazem a diferença!

domingo, 14 de janeiro de 2007

Até amanhã.

(Catherine Abel, Sun Worshipper II, December 2003, Oil on canvas).

Passeio da Avenida.
Miguel Abrantes (Câmara Corporativa), com ironia algébrica, envia - e bem - o procurador João Guerra para o Iraque.
João Paulo Sousa (Da literatura) escreve sobre o dialéctico pensamento de Slavoj Žižek a partir de Bem­‑Vindo ao Deserto do Real.
Adriana Freire Nogueira (A senhora Sócrates) fala-nos, com carinho, de um caso de amor gramatical - Uma bela relação de amor entre o gerúndio e o seu complemento directo.
Miss Pearls (Miss Pearls) indigna-se - com razão - das vidas no cabeleireiro.

Evidências.
mestres pensadores, verdadeiros guardas vermelhos extemporâneos, que acham que conquistam votos para o lado do SIM aterrorizando os eleitores. O mais acabado exemplo é a posta de pescada do Louçã sobre os sinistros “milionários anónimos” que estão por detrás das campanhas do NÃO. Os bloquistas, pela boca do seu cardeal, insinuam que os ricos são partidários do NÃO e os pobres partidários do SIM. Como a realidade não tem nada a ver com estas patacoadas, o resultado prático é empurrarem pessoas para a abstenção. Neste referendo, tal como no de 1998, dada a delicadez do assunto que está em causa, qualquer pessoa de bom senso, na dúvida engrossa a abstenção. Se o SIM ganhar, como espero, ganha contra esta gente. PS: não me venham com a treta que gasto mais tempo a criticar os guardas vermelhos do SIM do que com os camisas pretas do Não. Nesse peditório já dei.

ARCO 07.

A Arco 07 realiza-se entre 15 e19 de Fevereiro. É a 26ª Edição. Longe vãos os tempos da Casa del Campo, sinal de que vamos envelhecendo. A minha estreia foi na 3ª edição, em 1983. Fiz-me à estrada com a Margarida Almeida Santos e a Romy Castro. Desde aí tornou-se uma rotina que sempre valeu a pena: pela Arco, por todas as outras exposições, desde o MUSEO THYSSEN-BORNEMISZA ao CENTRO DE ARTE REINA SOFÍA, passando pelo CÍRCULO DE BELLAS ARTES, pela tertúlia, os amigos, a gastronomia e o final da noite no CAFÉ JAZZ PULARART. O ano passado a Arco teve duzentos mil visitantes nos 5 dias. Muitos portugueses, como sempre. Este ano o país convidado é a Coreia. A Arco não é só uma feira de arte contemporânea. É uma festa da arte.
(Imagem: Jung Woong Lee, Óleo sobre papel, Gana Art Gallery, uma das galerias coreanas presentes).

AMADEU SOUSA CARDOSO.

Nós, portugueses, em regra, guardamos para amanhã o que não nos apetece fazer hoje, contrariando o provérbio. Mas, apesar disso, é significativo – é bonito, diria mesmo – o movimento à volta de exposição de Amadeu Sousa Cardoso, na Fundação Gulbenkian, sobretudo pelos horários das visitas neste último dia, pelas horas de espera para comprar bilhete, para deixar objectos no bengaleiro e para entrar na Exposição. Estamos habituados a ver estes movimentos, estas longas filas e longos tempos de espera em museus ou centros de arte contemporânea em Nova Iorque, Londres ou Madrid. Mas, estas são cidades com uma população flutuante superior ao número de habitantes de Lisboa. Aqui, em Lisboa, o consumo, é caseiro, o que realça ainda mais esta procura. É bonito, pá!
(A este propósito ler: Há quem não acredite, mas ele existe, José Manuel Fernandes, Público, 14.01.07)

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

Até amanhã.

(Vários pintores:100 Girls and 100 Octopuses, 2005. Acrylic and metallic ink on paper).

Gostei de ler: «Investigação: ViBs [Very important Bloggers] », André Carvalho (Geração Rasca).

Sinceramente.
Espero que os guardas vermelhos e as sondagens altamente favoráveis não empurem muitos eleitores para abstenção.

A ler:
«Erros grosseiros da acusação na prisão de Paulo Pedroso», Joaquim Brito Camacho, DN, 12.01.07. Comentário: O que terão a dizer os senhores procuradores do Ministério Público?

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

Ler os outros e estar de acordo.

«Quanto aos partidários do "Sim", suponho que ganharão tudo em insistir em dois - e apenas dois - argumentos:1. A experiência demonstra que nenhuma das muitas iniciativas bem intencionadas até agora tentadas aqui e noutros países se revelou capaz de pôr cobro ao aborto clandestino, com as terríveis consequências que se conhecem para a saúde das mulheres que o praticam.2. Nestas condições, a única forma responsável de lidar com esse problema de saúde pública é a despenalização do aborto
«Porque sim», João Pinto e Castro (Blogo Existo).

Até amanhã.

(Édouard Manet, 1863, "The Picnic".)

Socialismo ou morte. O slogan “socialismo ou morte” representou, nos seus primórdios, para os castristas, uma ideia mortífera para os partidários do “socialismo”: ou triunfavam ou morriam. Não havia terceira via. Nos dias que correm, o dito slogan, ontem repetido em Caracas por Hugo Chàvez, só pode ser entendido no sentido inverso: é um aviso mortífero para os opositores do Chavismo: ou se calam ou morrem.

(Re) leituras.
Diz-me quem leu toda (ou quase toda) a sua obra que João Ubaldo Ribeiro é um dos mais importantes escritores brasileiros contemporâneos. Eu acredito solenemente. Dizem os críticos que ele sintetiza o melhor de Graciliano Ramos e o melhor de Guimarães Rosa, o que é um elogio do tamanho do oceano. A sua obra literária estende-se pelo romance, conto, ensaio, crónica e a literatura infanto-juvenil. Li apenas os romances Sargento Getúlio, Miséria e grandeza do amor de Benedita e A casa dos Budas Ditosos. É pouco, eu sei. Mas é suficiente para gostar de ler João Ubaldo Ribeiro. E há momentos em que é necessário relê-lo. Sobretudo, pela desconstrução do tacanho puritanismo pequeno burguês, como em A casa dos Budas Ditosos, onde é frontal, luxuriante, provocador, irónico e belo. Para quem não o conhece, transcrevo um minúsculo naco:
«Nenhuma mulher gosta do pau mole; exceptuadas dimensões aberrantes e as outras variáveis sendo equivalentes, o pau maior e vistoso é preferido. Evidente que o principal, principalíssimo, é quem é o proprietário do pau. Mas aí, se é pequeno, a mulher apenas deixa para lá, embora preferisse que fosse maiorzinho; é mais satisfatório, por alguma, ou várias, razões. Esta é que é a realidade, o resto, repito é onda e pensamento voluntarista. E nenhuma mulher sadia tem nojo do esperma, outra coisa que precisa bem esclarecida. Eu li não sei onde que alguns muçulmanos consideram ofensa suprema a mulher cuspir fora o esperma derramado em sua boca por seu homem. Eu concordo, é uma selvajaria, um sinal de baixa extracção, falta de formação, de classe, de cultura, de sofisticação. Cuspir o esperma só é admissível ou quando se quiser insultar um homem ou quando se quiser pô-lo em seu lugar: você pode ser bom para eu me distrair chupando seu pau, mas não é bom suficiente para eu engolir sua seiva., me recuso a devorá-lo, não dou às suas células essa intimidade com as minhas. Eu sou maluca

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Citações (3)

«Portugal herdou do salazarismo não apenas uma mentalidade, mas uma estrutura corporativa que ainda por aí anda, umas vezes mais tácita outras mais explicitamente. » Alberto Castro, JN, 09.01.07.

Diálogos absurdos.
Ali para os lados da Graça, num prédio antigo, um pombalino tardio, num 4º andar sem elevador, de onde se vê o Tejo à medida de uma janela, habita um velho negro, pintor, moçambicano e meu amigo. Há muitos anos. Não quer ser outra coisa na vida senão pintor. E pinta de memória: perfeitos corpos femininos, negros, envoltos em paisagens tropicais paradisíacas. Só a memória pode reproduzir a óleo aqueles corpos e aquelas paisagens. E palmilha diariamente a cidade à procura de compradores para as suas obras. Mas, o meu amigo, para além de um provocador empedernido, é um matreiro: descobriu que, numa sociedade envergonhadamente racista, pode retirar proveitos da cor da pele que a natureza lhe deu. Nas ruas da cidade, sempre que um transeunte abordado recusa a compra de uma das suas telas, ele com ar cândido e os olhos pequeninos a brilharem de gozo, coçando a barba branca, exclama: - você não me compra o meu trabalho porque eu sou preto. Se o interlocutor cai na armadilha, ele alivia a pressão até trocar o quadro por cento e cinquenta ou duzentos euros, consoante as dimensões. Na maioria dos casos a armadilha não pega, e então eleva a voz grossa, lembrando velhos cantores de jazz, e diz: - Você é um racista de merda! A melhor de todas as situações que conheço foi quando lhe cortaram o fornecimento de electricidade em casa por falta de pagamento. E isso já aconteceu dezenas de vezes. Desce empertigado até às imediações do Marquês de Pombal, e aí, nas instalações da EDP, grita a plenos pulmões ao funcionário que o atende: - vocês cortaram-me a luz porque eu sou preto! Quando um dia lhe perguntei: - Rogério, porque fazes essa fita se sabes que não é por seres preto que eles te cortaram a luz, mas porque não pagaste? Ele fixou-me com o olhar entre a incredulidade e a ironia, e respondeu-me: - aprendi com as mulheres que a vida me deu: elas, quando eu lhes apontava qualquer coisa que estavam a fazer mal, respondiam da mesma forma: dizes isso porque sou mulher. E nunca resultou explicar-lhes que era porque estavam a fazer qualquer coisa errado, e não por serem mulheres. Acabava por me calar. Se este argumento funcionava comigo, porque não há-de resultar com os funcionários da EDP? - concluiu. Eu também me calei, enquanto meditava: isto será racismo e misoginia de pernas para o ar?

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

Ler os outros. «Ao que isto chegou!», André Moura e Cunha (In Absentia).

Conversa sobre blogues.
Excelente conversa sobre blogues entre Pedro Rolo Duarte, como entrevistador, e João Gonçalves (Portugal dos Pequeninos), como entrevistado, na Antena 1, no Domingo às 11 horas, que só hoje tive oportunidade de ouvir através de In Absentia. “Todos somos livres de ter um blogue é uma ideia de esquerda?” – Interroga Pedro Rolo Duarte a fechar a conversa. “É uma ideia liberal e se há coisa a que a esquerda é alérgica é a liberais”. Remata acutilante, como é seu timbre, João Gonçalves. Pedro Rolo Duarte ainda esboçou qualquer coisa do género: não estou de acordo, mas não estou aqui para responder. Eu também não, mas isso é outra conversa.

Interrogações. O Metropolitano de Lisboa perde 440 mil euros por dia (88 mil contos em nota antiga). O que se passa? Má gestão? Serviço social? Legislação do trabalho inflexível? E que tal privatizar?

domingo, 7 de janeiro de 2007

Citações (2).

«Cavaco Silva tomou posse há nove meses (que é o tempo de que a poderosa natureza precisa para levar um mero espermatozóide até à personalidade jurídica). Depois, muito para além das obrigações do cargo, quis caucionar a actual governação, numa entrevista dada há apenas um mês (que é o tempo que medeia entre duas rendas da mesma casa). Agora, na mensagem de Ano Novo que lhe cumpria fazer, disse partilhar da insatisfação dos que querem ver resultados para os seus sacrifícios. Logo a direita, infantilizada por uma orfandade recente, quis ver, neste castíssimo afago, uma saturnal. Mandou engomar os andrajos e fez-se à praça, para celebrar o grande evento. Receio que não seja caso para tanto
(Nuno Brederode Santos, DN, 7.01.07).

O cantinho do hooligan©. Eu sabia que um dia o estádio vinha abaixo.

Desculpem lá o mau jeito...

Mas não alinho em glórias fáceis: um presidente de Câmara – no caso Rui Rio – decide a entrega de um teatro da cidade do Porto à gestão de uma companhia privada. Esta é uma decisão política (ainda por cima a decisão é precedida de concurso público): tem a ver como a ideia que se tem da gestão dos equipamentos culturais da cidade, dos públicos que se deseja servir e da sua rentabilização. As decisões políticas só podem ser questionadas em sede de debate político e de eleições. Os portuenses que não concordam levarão isso em linha de conta no próximo acto eleitoral. São opções inquestionáveis em termos judiciais. Mas, infelizmente, a actividade política (direi melhor: a mediatização da política) começa a passar cada vez mais pelo recurso ao tribunal e pelas providências cautelares, como agora vai fazer o PS Porto. Não vai acontecer nada, como é evidente, a não ser a infeliz transferência da luta política e de ideias para os tribunais e o sobrecarregar os tribunais com questões que não são da sua competência. Questiona-se judicialmente a metodologia e os critérios da referida atribuição – pasme-se! O PS avança com uma providência cautelar, enquanto um vereador do PCP diz que tal decisão é um “caso de polícia”. A irresponsabilidade desta “forma” de “fazer política” passa pelo facto de, quando o tribunal decidir de modo desfavorável às pretensões dos “judicialistas”, eles assobiam para o ar e dizem: tivemos dúvidas e achámos que o tribunal é que devia decidir. Discutam, no plano político, a única coisa que há que discutir: esta decisão é boa ou má para a cidade do Porto? Eu não sei, mas essa valorização está sempre dependente do juízo da maioria dos portuenses. A democracia é isso. Mas sei que, o recurso aos tribunais e às providências cautelares, a questionar decisões políticas é caminho da irresponsabilidade política, da demissão da luta política e da transferência do debate de ideias para a esfera judicial. É, manifestamente, mau.

Martinho da Arcada.

O café Martinho da Arcada abriu as suas portas há duzentos e vinte e cinco anos - a 7 de Janeiro de 1782. É um dos únicos cafés, dos que foram antros da história política, literária e social do século XIX, que resistiu até aos nossos dias. A bem da memória. Na foto, «à esquerda Fernando Pessoa num grupo de amigos (entre os quais Raul Leal, António Botto e Augusto Ferreira Gomes), à mesa, bebendo cerveja, em 1928», (Os cafés de Lisboa, Marina Tavares Dias) num tempo em que, ainda, como escreveu Almeida Garrett: «Um visitante experimentado e fino chega a qualquer parte, entra no café, observa-o examina-o e tem conhecido o país em que está, o seu governo, as suas leis, os seus costumes, a sua religião».

sábado, 6 de janeiro de 2007

Até amanhã.

(Toulouse-Lautrec, Reclining Nude 1897; Oil on wood panel. Barnes Foundation ).

Há quem pense que é só por cá que acontece: «Exército dos EUA convocou por carta 75 soldados mortos».

Bebedeira.

Basta-me o teu olhar, essa maneira
de me fitares assim:
a grande bebedeira
de gostares de mim.
(Torquato da Luz, poema e fotografia -Rua da Mãe-d'água(ao Príncipe Real).

Tertúlia literária ©
- Já leste os “Casos estranhos”? - Aquela história da Ana Gomes? - Não. Do Perry Mason.

Nos bastidores da comunicação social: «A garrafa de Veuve Clicquot e Maria do Céu».

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

A propósito: Só agora li um texto interessante de Ana Sá Lopes no DN de hoje: «O pior vem aí».

Rectificações. O título de três postes anteriores aqui inseridos é infeliz (abortemos, então!) na medida em que pode ser entendido como uma crítica à proposta de lei do IGV a sancionar dia 11 de Fevereiro, o que manifestamente não foi a intenção. Reconhecer a infelicidade de uma frase não é nada difícil.
Hoje citei de cor um provérbio popular: quanto mais se fala, mais se erra. Uma leitora atenta corrigiu-me: quem muita fala, pouco acerta.

Ler os outros:
«Como filho de pescador não posso ficar indiferente à morte dos pescadores junto às praias da Nazaré, é necessário perguntar se foi feito tudo o que era possível, se este país está a dar a devida atenção aos homens do mar. É evidente que os recursos são escassos e que um modelo de salvamento assente em meios aéreos concentrados nas respectivas bases pode ser insuficiente. (...) Não há sistema de segurança que possa acorrer a este tipo de situações. Pescador é uma profissão de alto risco e quando se transige em regras de segurança esse risco cresce exponencialmente. Pescar na zona da rebentação é como circular numa auto-estrada no sentido inverso, o acidente ocorrerá mais tarde ou mais cedo
(no Jumento, sublinhado meu).

Abortemos, então. (3)

Hoje, Fernanda Câncio que, tal como eu, gosta de conquilhas, tirou o dia para mim, o que me deixa muito honrado e sensibilizado. A Fernanda é uma força da natureza e tem uma genica que lhe faz saltar o coração pela boca. E essa característica é, na maior parte das situações, uma grande virtude. Talvez, por isso, nem perde tempo a carregar em duas teclas ao mesmo tempo para provocar a maiúscula, transformando qualquer texto num arrazoado. É tudo a eito que se faz tarde. E escreve muito, o que lhe poupa muito tempo. (Como dizia o escritor: desculpe pela carta longa, mas não tive tempo de escrever uma curta.) A prosa da Fernanda é rápida e fulminante, como uma bala: deixa-me cansado só de a ler, apesar de, longe de mim, a considerar insensata, irreflectida ou coisa que o valha. Antes pelo contrário, sublinho. Mas vamos ao que interessa: não vou atender a diferenças semânticas, suposições infundadas, nem a interpretações que não correspondem a intenções que me são atribuídas e que em textos anteriores já linkados estão claras. (Só que parece terem sido lidos na diagonal e, ao ritmo fernandino, linha sim, linha não). Se não eliminasse o acessório teria de escrever um post igual aos quinze tomos da correspondência de Cícero, para citar de novo o escritor. A questão de fundo, da qual decorrem todas as outras, é a seguinte: eu não estou preocupado com as mulheres formadas, informadas e com dinheiro que reclamam o direito à disposição do seu corpo, incluindo a IVG. Este é um outro nível de direitos, um outro nível de discussão que muito boa gente, normalmente oriunda do Bloco de Esquerda, pretender confundir com a descriminalização do aborto, colocando-o ao mesmo nível da descriminalização das drogas leves. Por isso, insisto: este é um outro tema. Voto Sim no próximo referendo porque estou, sempre estive, preocupado com as mulheres que não têm formação, não têm informação, nem têm dinheiro. Não são engenheiras, advogadas, jornalistas, gestoras, empresárias, nem adolescentes filhas de “boas famílias”. São empregadas domésticas, empregadas rurais, empregadas de mesa, domésticas, desempregadas, operárias fabris e suas filhas adolescentes. Essas, sim, não tendo pretensões à disposição do seu corpo (muitas vezes são violadas no quadro do próprio matrimónio), nem reclamando esse direito, estão sujeitas à ignomínia de as criminalizarem, de as julgarem e de as prenderem por terem procurado resolver um problema grave que lhe surgiu do nada: uma gravidez que resulta das suas precárias condições de vida e que lhe vão agravar terrivelmente essas mesmas condições, para ela e para a família. Isto significa que a difícil decisão de uma mulher em abortar, em determinadas condições fixadas na lei, é uma decisão responsável e não se pode atrair a cultura da irresponsabilidade, tipo: esta noite vou dar o corpo ao manifesto e se alguma coisa correr mal tenho dez semanas para resolver o problema.A lei actual é ineficaz para resolver estas situações que devem ser resolvidas (já escrevi várias vezes) não porque os médicos fazem “interpretação de lei”, porque não é essa a sua função (ou então os meus muitos anos de Direito vão pela borda fora) mas porque diversas inércias ganharam espaço e a que o poder político e legislativo não é alheio.
Esta carta, na volta do correio, como me foi pedida, e que pretendi evitar (essa intenção foi interpretada como ignorância sobre o assunto, quando no fundo apenas se trata de ópticas diferentes (como diria Einstein: segundo a relatividade o tempo de colisão de uma pedra com o solo não será o mesmo para todos os observadores) já vai longa. Como muita coisa ainda ficou por dizer, chamemos-lhe então o primeiro capítulo. Até breve.
PS: travei batalhas políticas, em ditadura e em democracia, que a Fernanda não vai ter oportunidade de travar até ao fim da vida, a não ser que a invasão do Iraque, como marco do retrocesso do Ocidente, arraste a curto/médio prazo grandes convulsões. Neste caso, estou de consciência tranquila: andei de Lisboa a Madrid (aqui ouvi um dos mais empolgantes e emotivos discursos políticos que jamais os meus ouvidos tinham experimentado, feito por Almodovar nas Portas do Sol) em todas as manifestações contra a guerra no Iraque. E não me enganei.

Aparições. Carlos César, presidente do Governo Regional dos Açores, declarou que não estava entre os pastorinhos que tinham presenciado as aparições na base das Lages.

Abortemos, então. (2)
Fernanda Câncio está imparável. Escreve que se desunha. Talvez por não perder tempo com maiúsculas, detendo-se apenas nas minúsculas. Não sei se, neste caso, o provérbio popular quanto mais se fala, mais se erra bate certo ou não, mas passemos adiante. Minha cara Fernanda: pode estar sequiosa de uma boa liça – olhe que eu também –, mas não me apanha na ligeireza de, a um mês do referendo sobre o aborto, discutir consigo esta questão (dois partidários do SIM que votam da mesma forma com perspectivas diferentes) já que seria uma delícia para os partidários do Não. Tenho opinião amadurecida sobre as questões que me colocou mas dou-lhas após o 11 de Fevereiro. Talvez seja interessante prolongar esta discussão no rescaldo dos resultados do referendo. Se, por acaso, estiver com muita pressa, dou-lhe resposta por e-mail.
PS. 1. Fernanda só se deixa vilipendiar quem quer. 2. Neste referendo, dado o tema e os argumentos de cada uma das partes, pode ganhar quem tratar o assunto com maior seriedade. 3. Para lhe afagar o ego transcrevo um dos e-mail recebidos (espero que o autor esteja de acordo porque não lhe pedi autorização):
Caro Tomás Vasques,
Entenda que seria fácil dizer-lhe que a Fernanda Câncio tem feito maiscampanha pública do que o senhor, o que nos remeteria para um concursode participação cívica. Não tenciono argumentar por aí, embora meconfunda que, partidário do sim, vá encontrando "sins" remissos e tãodispostos à dúvida que acabam por conceder o espaço todo ao "não". Sempretender fazer juízos preconceituosos sobre a sua posição, faloapenas do que leio. Hoje, criticando a jornalista, não quis explicar oporquê da ausência de sensatez. E quanto à sensatez, vale a penareforçar que pouco tem sido o levantamento do "sim" quanto àsescabrosas faltas do lado do "não".Quanto à moderação.Apesar de vaga, a da posição do PS tem boa sustentação e poucos sevalem dela: a lei é iníqua, a sociedade demonstra-o, vamos resolver. Éo argumento pragmático e legal, considerando que podíamos estar mesesa discutir o valor da vida e o seu controlo nas sociedadespós-modernas, mas isso podia levar-nos a um sem-fim de contradiçõesque não estamos dispostos a sanar, portanto fiquemo-nos por esta.Concorda com a posição do "não" segundo a qual a IVG não iria para afrente, mas em compensação seria aprovada (por quem?) uma lei queacabasse com a penalização? Essa nova lei, a existir, não seria"manca"? Gostaria que esclarecesse as suas posições.
Do leitor, João Machado.

Comunicação directa.

Vi a mensagem de Natal de Ségolène Royal através de um vídeo reproduzido e comentado em vários blogues (aqui e aqui, por exemplo). O que me parece relevante nesta mensagem é o facto de, hoje em dia, ser possível aos políticos comunicarem com os eleitores sem intermediação da comunicação social. Esta comunicação directa é um dado novo no relacionamento dos políticos com os eleitores.

Intrigas. Que tal o fim de semana em Madrid?

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

Abortemos, então.

Recebi alguns e-mail, uns de forma educada, outros de forma “terrorista”, uns identificados, outros anónimos, a questionarem a minha posição no referendo de 11 de Fevereiro, a propósito de aqui ter classificado como insensata uma determinada frase de Fernanda Câncio num texto de opinião publicado no DN. Prometi a cada um responder, e cumpro agora. Sobre o assunto recordo que Maria José Morgado disse, há pouco mais de um mês, numa “sessão de esclarecimento” promovida pelo Bloco de Esquerda, no Bairro Alto, uma coisa elementar: que a actual lei sobre interrupção da gravidez é mais permissiva do que a proposta a referendar. O João Gonçalves recentemente deu-se ao trabalho de transcrever integralmente o artigo 142º do Código Penal que, para quem não conheça, se recomenda a leitura. Aí se pode constatar outra coisa elementar: na lei penal vigente há situações em que o aborto é permitido até às 16 semanas nuns casos ou, mesmo até às 24 semanas, noutros. Mas essencialmente é permitido até às 12 semanas para “evitar grave e duradoura lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida”. Isto significa que, no quadro da actual lei, bastava que se fixasse ao nível legal, clínico e jurisprudencial o conceito de “grave e duradoura lesão psíquica da mulher grávida” e, ao mesmo tempo, que se exigisse ao “estabelecimento de saúde oficial ou oficialmente reconhecido” que a lei fosse cumprida para que, no quadro da lei penal existente, se resolvessem os problemas que se pretendem resolver através do próximo referendo. Mas assim não aconteceu. Por isso, voto SIM no próximo referendo, como já escrevi anteriormente, apesar de considerar que: a) se pode vir a aprovar uma lei que tenha a mesma ineficácia que a actual; b) esta questão não é uma “batalha política”, muito menos de esquerda/direita; c) face à informação e aos meios disponíveis (contraceptivos e outros) a questão do aborto é hoje socialmente menos relevante que há 10, 15 ou 20 anos; d) respeito as convicções (éticas, morais, religiosas) de uma parte dos partidários do Não; e) abomino todos o que fazem desta questão uma “batalha política”, quer dos partidários do SIM, quer do Não.