sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

||| Onde está o Wally?

Rui Bebiano valoriza uma reunião interna do PS, independentemente de ser convocada como o pomposo nome de Novas Fronteiras (não confundir Estados Gerais) como se de um acontecimento político nacional transcendente se tratasse. Militantes socialistas reuniram-se para transmitirem o seu apoio às políticas do Governo. Ponto. Apareceram meia dúzia de não-filiados. Ponto. Circuito fechado? Claramente que sim. Onde está o Wally?

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

||| Blogues e Liberdade de expressão.

Vai para aí uma ladainha a propósito de um texto de Eduardo Pitta sobre blogues, liberdade de expressão e trabalhadores por conta de outrem. À controvérsia, João Gonçalves e Luís Naves já acrescentaram opinião. É uma interessante discussão. No entanto, o tema tem antecedentes, apesar de, na altura, não ter suscitado polémica. Foi quando alguém, na bloga, censurou o facto de «assessores do governo» (trabalhadores por conta de outrem) escreverem num blogue. A questão que se coloca é, em rigor, a mesma, já que não consta em nenhum dos manuais que consultei que a liberdade de expressão é um estatuto apenas conferido à irreverência ou à oposição (exercícios simpáticos em democracia). Se um professor universitário não deve ser censurado por escrever num blogue o que lhe vai na alma, porque razão um «assessor do governo» é censurado pelo facto de exercer o mesmo direito? Só porque a sua irreverência não é, no contexto actual, irreverente ou oposicionista? Os aprendizes de feiticeiro não se podem esquecer que o mundo é a cores. Não é a preto e branco.

||| Orfandade.

Há coisas para as quais ainda não estou preparado. Provavelmente, o mal está na falta de leitura. Ando a ler pouco ultimamente, o que deve diminuir a minha capacidade de entendimento. Passo a explicar as minhas perplexidades. Tenho alguns amigos de direita ou de centro direita, para o caso tanto faz. O que é natural. E o que é para mim um «amigo de direita»? Primeiro é um amigo, o que é mais importante que ser de direita ou de esquerda. Depois, é um amigo que, nos últimos vinte anos, sem hesitações, votou sempre no PSD (nas legislativas, nas autárquicas ou nas presidenciais) ou que, sem desfalecimento, nem mal estar difuso, defendeu com unhas e dentes, a maioria absoluta de Cavaco Silva durante 8 anos (mesmo quando Cavaco dizia que não lia jornais ou pedia que o deixassem trabalhar). Ora, acontece que estes meus amigos, pelo menos os que contactei nos últimos dias, dizem-me que vão estar presentes nas manifestações de Março. Perguntei, incrédulo: - mesmo à do PCP? A essa não, é muito partidária. – Responderam-me. – Só vamos às outras, à dos professores e à da Função Pública. Eles – os meus amigos – que, ainda há pouco tempo, me diziam que os sindicatos eram apenas uma «correia de transmissão» do PCP. Só posso tirar uma conclusão: estes meus amigos estão órfãos. E o transtorno «psicológico» é tão grave que uns se viram para Salazar, outros para a «revolução». A direita já não é o que era. Perdeu a identidade.

||| Sábado à tarde em Lisboa: marcha para defender a liberdade.

Os militantes do PCP que, sábado à tarde, integrarão a Marcha pela Liberdade, em Lisboa, deviam lembrar-se de Ingrid Betancourt. Há 6 anos presa. Sequestrada. Sem acusação, nem julgamento. Muito doente, segundo os últimos testemunhos. Ninguém defende a liberdade quando é cúmplice de sequestros e prisões desta natureza.

||| Agenda cultural [11].

Helena Justino, O prazer da Arte, GalleryCenter, no Shopping Comercial Amoreiras. A exposição, está aberta ao público das 10 às 23 horas, até ao próximo dia 17 de Março.

||| Sopros.

Com o devido respeito pelas investigações do Ministério Público, penso que um apito, mesmo dourado, soprado por uma Carolina Salgado, é coisa que não vai apitar.

||| A revolução está na ordem do dia.

Constança Cunha e Sá, depois de nos ameaçar com uma «revolução como deve ser, a breve prazo» termina o seu texto de opinião de hoje, no Público, com a frase: «… o país se encontra, de facto, numa situação sem saída.» Aliás, esta conclusão fatídica está em sintonia com a conclusão de Vasco Pulido Valente, expressa a semana passada, segundo a qual: «O destino de Portugal é, como sempre foi, apodrecer ao sol.» Ora, mesmo dando de barato «o optimismo balofo do primeiro-ministro» ou a «mediocridade reinante» a que alude Constança Cunha e Sá, há no discurso de ambos uma frustração política a «apodrecer ao sol»: não vislumbram, no imediato, alternativa credível ao actual governo. Nem à direita, em Filipe Menezes/Santana Lopes e Paulo Portas; nem à «esquerda», em Jerónimo de Sousa e Francisco Louça. E isso é uma ideia insuportável para a direita. Assim sendo, sem tubo de escape, o «mal estar difuso» vai explodir, como explicou o general Garcia Leandro e a SEDES, avisa Constança Cunha e Sá, como nos tem avisado o PCP. A «democracia burguesa» está por um fio. A revolução entrou, pois, na ordem do dia. E se Constança Cunha e Sá nos avisa é porque sabe do que fala. Se ao menos «isto» durasse até às próximas eleições legislativas para vermos os resultados já não era mau.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

||| Pacto de Varsóvia.

O Francisco está atento a todas os movimentos militares dos países do ex-Pacto de Varsóvia.

||| Citação [7].

A pequena história de uma grande ministra, Manuel Carvalho, editorial do Público, 27.02.08. (Transcrição parcial. Sublinhados meus)
«A ministra da Educação caminha a passos largos para a conquista do estatuto da mulher certa na plateia errada. No último Prós e Contras, da RTP 1, era impossível não concordar com a justeza da maioria dos seus argumentos e de não lhe reconhecer coragem pelo empenho com que defendia reformas que, em alguns casos, vegetam há décadas no limbo do conservadorismo e da indecisão. Mas era também impossível não reparar que o seu discurso esbarra num muro intransponível, feito de rejeição, hostilidade e ressentimento que impedem qualquer esboço de diálogo. (...)
O que o programa de anteontem da RTP revelou com contornos negros é o drama de algúem que, no essencial, tem razão, mas que é incapaz de a fazer valer aos que a rodeiam. As escolas necessitam de novas regras de gestão, com a participação das autarquias e dos pais, os professores precisam ser avaliados. É isso que a ministra defende. Mas a política nem sempre é terreno fértil para a razão

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

||| Os sonhos de outras paragens.

Há poucos meses - em Outubro do ano passado - o ministro da Educação de Cuba, Luis Ignácio Gomez, falou sobre a fuga de professores na audiência de uma comissão da Assembleia Nacional. Disse, então, o ministro cubano, que entre as causas do êxodo estão o salário insuficiente (10 euros/mês, em 2007). O ministro citou ainda a «falta de casa, transporte e roupas» entre os problemas enfrentados pelos professores cubanos. Também disse que os professores estão insatisfeitos com o "pequeno reconhecimento" que recebem pelo seu trabalho. Muitos professores abandonaram a actividade para trabalhar em empregos mais bem remunerados no sector turístico.

||| Ler os outros.

Pedro Rolo Duarte: «O que restava de certa esquerda a correr-me no sangue foi varrido em escassos dez dias, nos idos de 1993, quando umas inesperadas férias me levaram a Cuba. (…) Mas, em vez dessa felicidade que a propaganda vendia a rodos, em vez desse povo em festa permanente nas ruas, imagem de cartaz e de postal, encontrei miséria em todos os cantos e recantos da Ilha. Miséria disfarçada e escondida numa paz podre feita de policias que controlavam policias e outros policias para controlar os restantes. Miséria descarada nos racionamentos, nos professores universitários que acumulavam empregos para poder comprar um frango

||| Avaliações.

«O que não se aprende na escola» - um testemunho de experiência.

||| Matar dois coelhos de uma cajadada só...

A Cristina, usando o seu refinado sentido de humor, associou o que aqui se escreveu aos mais recentes conhecimentos científicos. O resultado dá para pensar!

||| Mais resumos.

O Público também nos brinda com resumos de obras literárias.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

||| Memória e esquecimento.

«Precisa-se: povo no poder. Cozinheiras: abstenham-se» - diria Glucksmann.

||| Resumos.

Adriana Freire Nogueira (A senhora Sócrates) - uma classicista - brinda-nos com «resumos» de obras literárias. De antologia. Seguem dois exemplos:
Gustave Flaubert, Madame Bovary, (378 páginas). Resumo: Uma dona de casa engana o marido com o padeiro, o leiteiro, o carteiro, o homem do talho, o merceeiro, e um vizinho cheio de massa. Envenena-se e morre.
Luís de Camões, Os Lusíadas (várias edições), versão de João de Barros. Resumo: Um poeta com insónias decide chatear o rei e contar-lhe uma história de marinheiros que, depois de alguns problemas (logo resolvidos por uma deusa porreiraça), têm o justo prémio numa ilha cheia de gajas boas.

||| Choque tecnológico.

O que está a dar, de momento, são as manifestações espontâneas, convocadas por sms. Pelos vistos, o descontentamento saiu do colete-de-forças dos velhos sindicatos. O PCP está a perder o controlo da situação. Aguardam-se novos desenvolvimentos.

||| Frases soltas.

«Peço que esta Assembleia, como órgão supremo do Estado, sobre as decisões de maior importância para o futuro da nação, sobretudo as ligadas à defesa, política estrangeira e desenvolvimento económico do país me permita consultar Fidel Castro».
Raul Castro, ontem, na «tomada de posse».

domingo, 24 de fevereiro de 2008

||| Por cá, a «lucidez» está ao rubro.

Numa destas madrugadas, choveu desalmadamente. Dizem que numa hora a precipitação foi superior à do mês de Fevereiro em Paris. As chuvas provocaram algumas inundações e, infelizmente, 3 pessoas perderam a vida, para além de dezenas de desalojados. Sabem de quem é a culpa? Do engenheiro Sócrates! A CIA, há 5 ou 6 anos, transportou prisioneiros para a base cubana de Guantánamo. Dizem que alguns voos fizeram escala em Portugal. Sabem de quem é a culpa? Do engenheiro Sócrates! Portugal é um dos oito países europeus com maior nível de pobreza infantil. Sabem de quem é a culpa? Do engenheiro Sócrates! Há em Portugal «um mal estar difuso», dizem alguns. Sabem de quem é a culpa? Do engenheiro Sócrates! Esta «lucidez» na observação da realidade - que, pela irracionalidade, só beneficia o engenheiro Sócrates - faz lembrar aqueles tempos dos processos de Moscovo: todos os fuzilados eram «agentes dos imperialismo». Ou, hoje, todos os males do povo cubanos são devidos ao «embargo». Normalmente, quando os desejos não correspondem à realidade, esta prega partidas…
(Adenda: dispenso-me, por razões de decoro, fazer links para cada uma desta «lúcidas» análises).

||| Frases soltas.

«Não há dupla liderança porque Luís Filipe Menezes é um líder forte».

Santana Lopes, em entrevista à TSF.

||| Treinador de sofá.

O Sporting sofre de insuficiência renal crónica. Dificilmente vai escapar ao transplante.

||| Cuba – por agora nada de novo.

A comunicação social europeia anda muita ocupada com as «mudanças» políticas em Cuba. Ainda não dei por nada. Fidel Castro continua a desempenhar o mesmo papel de sempre, mesmo debilitado pela doença, coadjuvado pelo seu irmão, Raul Castro. Nada mudou, nem hoje, nem no começo de Agosto 2006, quando o velho ditador das Caraíbas «deu» ao irmão, como dote, a «gestão» do regime. E nada se vai passar até à morte do comandante em chefe. Daí para a frente, sim. Com a morte de Fidel vão acontecer, gradualmente, duas coisas: os opositores da ditadura vão ensaiar uma resistência maior, por um lado; dentro do regime, vai começar a luta para a sucessão de Raul Castro, a quem poucos reconhecem capacidades de liderança, por outro. Apertado por todos os lados, o «jovem» Castro vai aumentar a repressão sobre a oposição e iniciar o processo de «liquidação dos traidores» internos. Quando este processo se iniciar, a queda da ditadura castrista estará por meses, um ano ou dois no máximo. Por agora, nada de novo.
(Imagem de Pedro Vieira)

||| Ilustração.

José Bandeira, Cravo & Ferradura, DN, 17.1.2008

||| Manifestações.

Há uma diferença substancial entre as manifestações de professores realizadas ontem, no Porto e em Leiria, convocadas por meios informais - sms, e-mail ou blogues - e a manifestação de há uma semana à porta da sede nacional do PS. Ontem, protestaram contra a proposta de avaliação que o governo lhes quer fazer. Há uma semana procuraram perturbar o direito de reunião de um partido político. Ontem exerceram um direito. Há uma semana procuraram impedir o exercício de um direito. As manifestações de ontem procuraram corrigir a anterior. Nestas manifestações, o caricato é que são ilegais à luz de um decreto-lei assinado por Vasco Gonçalves, ou seja, num tempo em que se queria ilegalizar as manifestações contra o governo e em que não haviam sms, email e blogues. Tanta conversa que por aí vai, mas ninguém no Parlamento, em tantos anos, atirou o dito decreto-lei para o lixo. Devem estar à espera de condenações de manifestantes em pena de prisão (os Tribunais aplicam as leis em vigor) para poderem gritar que a democracia se está a esvair.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

||| Ler os outros.

Eduardo Pitta, sobre um suposto «surto neo-socialista» na bloga, pergunta: «Ou queremos uma democracia representativa (e os blogues são hoje um dos seus reflexos mais sensíveis), ou queremos outra coisa. Talvez fosse bom explicar o quê.».
Alexandre Guerra, sobre o Kosovo, cita Miguel Ángel Bastenier: «É provavelmente justo que os albano-kosovares tenham ganho a independência. Mas, isso não significa que seja uma grande ideia.» para acrescentar: «A questão é que as relações internacionais não devem ser conduzidas por impulsos altruístas ou acções de pendor justicialista, mas, antes, por "grandes ideias", que permitam alcançar um equilíbrio sistémico.»
Pedro Correia, também sobre o Kosovo, escreve: «Portugal recusa para já qualquer reconhecimento por uma questão de princípio. O que só nos honra.
Eduardo Graça, sempre empenhado nas «causas justas», faz uma convocatória: «No dia 29 de Fevereiro de 2008 das 19:55 às 20:00 horas propõe-se apagar todas as luzes e se possível todos os aparelhos eléctricos, para o nosso planeta poder 'respirar'. Se a resposta for massiva, a poupança energética pode ser brutal. Só 5 minutos, para ver o que acontece. Sim, estaremos 5 minutos às escuras, podemos acender uma vela e simplesmente ficar a olhar para ela, estaremos a respirar nós e o planeta. Lembrem-se que a união faz a força e a Internet pode ter muito poder e podemos mesmo fazer algo em grande
João Tunes, a propósito do recente congresso da CGTP, escreve acertadamente: «Porque, na colagem da CGTP ao PCP, os trabalhadores são pretexto e o Partido é a meta para que trabalha a "alavanca", mandando quem manda e obedecendo quem foi ensinado a obedecer
Ana de Amesterdão, sobre a senilidade de certa «esquerda», escreve: «Esta esquerda, bacoca e senil, sente hoje uma mágoa, um aperto no peito, um não-sei-quê de sincera ternura, perante a anunciada retirada de Fidel Castro da chefia do Estado e das Forças Armadas de Cuba. E continua a gritar “Socialismo ou morte! Hasta siempre comandante!" É estranho. E profundamente triste

O ponto G

||| Mal estar difuso.

||| Agenda Cultural [10].

Concerto do Coro Feminino da Televisão da Estónia, Reitoria da Universidade de Lisboa, 29 de Fevereiro, às 19 Horas.

||| Reflexões ou trivialidades? [2]

A «reflexão» da SEDES serve de tema à crónica de hoje de Vasco Pulido Valente, onde remata à laia de conclusão: «O destino de Portugal é, como sempre foi, apodrecer ao sol.» Só com uma frase vazia se podia tirar uma conclusão adequada ao documento. Vasco Pulido Valente apanhou bem a letra e o espírito da «reflexão» da SEDES.

||| A entrevista [2]

«Propaganda, dizem as críticas. Mas esperar-se-ia que um chefe de Governo fosse à televisão fazer o trabalho das oposições? E aqueles génios do comentário político que, por sinal, vêm dos partidos mas se arrogam mais independência e autoridade do que todos os outros, quererão que os jornalistas tenham o condão de obrigar Sócrates a dizer o que não pensa e o contrário do que lhe convém?
Houve quem se tivesse voltado para os aspectos pessoais e anímicos, dizendo de Sócrates que é um homem seco e sem alma, de índole tecnocrática e incapaz de estabelecer empatia com as pessoas. Mais ou menos o mesmo que certa “inteligência” dizia de Cavaco nos anos 90. Pois a desgraça da direita e a frustração da velha esquerda em relação a Sócrates resultam precisamente desse equívoco antigo e irresolúvel: esperavam uma espécie de Guterres e saiu-lhes, com as suas diferenças e sem ofensa para qualquer deles, uma espécie de Cavaco. Por isso lhes custa, como lhes custava com Cavaco, compreender porque é que, apesar de tantos defeitos, de tanta contestação e de tantas dificuldades, o primeiro-ministro manter ainda os índices de popularidade que mantém
Uma espécie de Cavaco, Fernando Madrinha, Expresso, 23.02.09. (Sublinhados meus)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

||| O vício do jogo.

Esta história do Casino ainda vai dar jackpot.

||| Reflexões ou trivialidades?

Li na íntegra a «tomada de posição da SEDES». Pelas regras do bom senso, as principais «teses» que, parágrafos a parágrafo se despejam, são imaculadas: não têm fronteiras, nem épocas. Tanto podem ser uma «reflexão» sobre o Alto Volta, como sobre Tanganica. Tanto se podem referir ao império romano, como à Venezuela dos nossos dias. É só fazer as devidas adaptações.

||| Igreja católica faz teste em Havana.

O secretário de Estado do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone, deu missa, ontem, na Catedral de Havana, com dezenas de freiras e outos crentes a assistirem no exterior da Catedral. Um teste ao castrismo.

||| Demagogia à Louçã.

Por quantas vezes se deve multiplicar o vencimento da «colaboradora doméstica» de Francisco Louçã para igualar os vencimentos do seu patrão? Estará ele disposto a contribuir para a diminuição das desigualdades entregando metade dos seus vencimentos à sua «colaboradora doméstica». Parole, parole, parole...

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

||| Ai Lisboa, Lisboa!

28, Crónica de um percurso. Texto de José Augusto França. Fotografia de Pedro Soares.

||| Sinais da rua [2]

Voz amiga e atenta relembra-me que, a propósito deste post, a semana de luta ali referida começa efectivamente no dia 1 de Março, com a Marcha Liberdade e Democracia, convocada pelo PCP. Para que não restem dúvidas sobre os direitos de autor das lutas de Março.

||| Treinador de sofá.

Há muito tempo que não se via o Sporting jogar com tanta garra e empenhamento. De salientar o comportamento dos adeptos do Basileia que, até ao último minuto, a perder por 3-0, mantiveram o apoio à equipa. Por cá, após o primeiro golo, o que aconteceu ao primeiro minuto, começavam os assobios. Aos 2-0 começavam a aparecer os lenços brancos. Ao 3-0 já não havia quase ninguém nas bancadas.
(Adenda: não esquecer os 13 jogos do Basileia sem perder em St. Jakob-Park para as competições europeias).

||| Timor, aquela terra distante.

Pedro Correia escreve - bem e com acerto, como é hábito - sobre as Tantas histórias mal contadas. (O Corta-fitas mudou de casa).

||| Sinais da rua.

Atenção aos sinais da rua, no mês de Março:

Dia 07 de Março - Desfile para o Ministério da Educação de dirigentes e delegados sindicais do pessoal não docente dos ensinos básico e secundário;
Dia 08 de Março - marcha de indignação dos professores;
Dia 12 de Março - Trabalhadores da Administração Local concentram-se frente ao Ministério da Administração Interna, desfilando até à residência oficial do primeiro-ministro;
Dia 14 de Março - greve e concentração dos trabalhadores da Administração Central.
A luta não podia ser mais concertada e concentrada. Ou o governo abana ou a CGTP se esgota.

||| Eclipses.

Esta madrugada foi possível assistir a um eclipse lunar. O último da presente década, segundo os especialistas. Mas outros eclipses vão acontecer ainda esta década. Em 2009. Nas eleições autárquicas e nas legislativas.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

||| Mea Cuba.

Cabrera Infante morreu há 3 anos, a 22 de Fevereiro de 2005. Releio Mea Cuba. O que ele, por estes dias, teria escrito sobre a «retirada» de Fidel Castro.

||| USA, 2008 [6]

Os norte-americanos serão mais machistas do que racistas? Ou não será esta a questão?

||| Ainda o «caso Abrantes».

||| Noitadas.

Ontem à noite, antes de adormecer, comecei a imaginar como estaria, hoje, Portugal e a vida dos portugueses, se

1. Fizesse por estes dias três anos de uma maioria absoluta do Bloco de Esquerda, com Francisco Louçã como primeiro-ministro;

2. Fizesse por estes dias três anos de uma maioria absoluta do PCP, com Jerónimo de Sousa como primeiro-ministro;

3. Fizesse por estes dias três anos de uma maioria absoluta do CDS-PP, com Paulo Portas como primeiro-ministro;

4. Fizesse por estes dias três anos de uma maioria absoluta do PSD, com Luís Filipe Menezes (ou Santana Lopes) como primeiro-ministro;

O exercício permitiu-me concluir que a sabedoria popular é imensa.

||| Treinador de sofá.

Foi pena o F C do Porto não ter conseguido ganhar o jogo de hoje, como o Sporting e o Benfica conseguiram na semana passada. Nas taças europeias todas as vitórias contam para o «ranking». Foi pena!

||| Palha de Abrantes

Há contendas que valem a pena; outras não valem um chavo. Nas que valem a pena, um insulto, mesmo soez, desfaz-se na nobreza da argumentação. Nas outras, nas que não valem um chavo, o insulto é ampliado ao ponto de amesquinhar o remetente. Vem isto a propósito do que se tem escrito, na bloga, sobre o «caso Abrantes» – o qual, quem quer seja, personagem individual ou colectivo, deve estar deliciado com o que se está a passar. Mas, para além dos insultos, parece-me que o dito «Abrantes», (que, dizem alguns, não é «Abrantes», mas «um conjunto de assessores do governo» - o que, à primeira vista não é motivo de perseguição) deve ter metido o dedo numa qualquer ferida que desconheço. Não pode haver outra explicação para tanto «empenhamento» e tanta «azedura».

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

||| Ler os outros.

Pedro Correia (Corta-fitas):
«A não-resposta de Sócrates nesta entrevista sem riscos, que lhe correu globalmente bem, tem um significado evidente: o actual primeiro-ministro só admite voltar a governar num cenário de maioria absoluta. É esse o único que se coaduna com a sua personalidade. Não é, de resto, inédito na democracia portuguesa: Francisco Sá Carneiro fez o mesmo em 1980

||| Mau tempo.

Chove a cântaros. Neste momento, para sacudir a água do capote, o ministro do Ambiente já deve estar a redigir um novo comunicado.

||| A entrevista.

Não vi a entrevista com o primeiro-ministro, ontem, na SIC. Mas, de tudo o que li, concluí duas coisas: primeira, os entrevistadores foram péssimos; segunda, estavam muitos «incrédulos» à espera que José Sócrates falasse mal do seu governo.

||| Matemática, lógica ou aritmética?

Manuel Alegre criticou a política de Saúde do governo e o ministro caiu. Medeiros Ferreira falou sobre a arte de ceder e a ministra da Educação começou a ceder nas propostas de gestão e administração escolar. Parece que não há fome que não dê em fartura.

||| Vou-me embora, mas não esqueçam que estou aqui.

Fidel Castro anunciou hoje que se retira da chefia do Estado e das Forças Armadas de Cuba.

||| Treinador de sofá.

Se o Sporting não perder nenhum jogo até ao fim do campeonato nacional e se chegar à final da Taça UEFA prometo que durante um ano não peço que Paulo Bento vá treinar o Carcavelinhos.

||| Ironias da história.

Porque raio de capricho do destino a base/prisão de Guantánamo é na República Socialista de Cuba e não nos Estados Unidos da América?

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

||| Supersticioso.

Ninguém me convence que não foi aquela gente, na RTP 1, ontem à noite, a falar sobre as cheias de 1967, que invocou as chuvas que se abateram, após o programa, sobre Lisboa.

||| Esclarecimento.

Hoje, ao almoço, um senhor na mesa do lado, com ar de boa pessoa, entre duas garfadas de bacalhau cozido com batatas e grão, intrometeu-se na «minha» conversa, e esclareceu-me, num tom adequado a quem percebe do assunto, que «eram mesmo professores». Sem esperar pela resposta, rematou: «se aquilo não foi uma manifestação espontânea vou ali já volto». Fiquei mais descansado, e disse-lhe: «Estou esclarecido». O senhor continuou na mesa do lado. Ainda lá estava quando eu saí, e me despedi: «Com que então vou ali já volto».

||| Os políticos no seu melhor.

«António Oliveira Salazar era um aprendiz de ditador ao pé de José Sócrates», afirmou Paulo Tito Morgado, presidente da Câmara de Alvaiázere,durante um jantar de sociais-democratas.

||| Citações [6]

«Um estrangeiro que chegue a Portugal e se depare com tudo isto, julgará ter aterrado na Venezuela. E andamos nisto desde que me recordo de prestar alguma atenção à política: a imparcialidade da comunicação social (pública ou privada) e as alegadas manipulações e conspirações contra este ou aquele partido ou interesse são um tema quase permanente na agenda política portuguesa.
(…) estamos todos convencidos de que existe uma "verdade dos factos" e um mundo que pode ser facilmente pintado a preto e branco. Mas, como a cor que vemos nessa "verdade" depende das nossas preferências e inclinações, tudo o que tenha tons de cinzento é visto como sendo favorável aos nossos adversários e, logo, uma "mentira" ou uma "manipulação". Que os mais informados ainda sejam mais atreitos a esta enviesamento cognitivo mostra como a informação é usada para confirmar preconceitos em vez de os afastar.
(…) Uma das coisas mais curiosas que me ficaram das minhas raras interacções com responsáveis político-partidários é a sua tendência para a obsessão com a comunicação social, com a perseguição que sentem ser-lhes movida pelos jornais ou pela televisão, com as alegadas distorções e manipulações das sondagens ou com o que está por detrás das opiniões de malévolos comentadores. Mas compreendamos que este é, afinal, o "mundo real" dos políticos (e, em grande medida, de muitos jornalistas), só ocasionalmente entremeado por alguns indicadores estatísticos e umas visitas "ao terreno" organizadas pelas estruturais locais dos partidos.
(…) Só se espera que esta obsessão não os faça esquecer que há outro mundo, bem menos irreal, no qual vivem todos os restantes portugueses
Um mundo irreal, Pedro Magalhães, Público, 18.02.2008. (Transcrição parcial. Sublinhados meus)

domingo, 17 de fevereiro de 2008

||| A propósito de assobios e apupos.

Todos os primeiros-ministros, desde 74 (antes não era possível) foram, num momento ou noutro, por isto ou por aquilo, alvo de assobios e apupos públicos aquando de deslocações aqui ou ali. Os assobios e apupos são naturais e saudáveis em democracia. (Só não há assobios e apupos a primeiros-ministros onde não há democracia, como em Cuba ou na Coreia do Norte, por exemplo). Todos nos lembramos dos assobios, apupos e agressões a Mário Soares, na Marinha Grande, em 1986. E todos conhecemos os resultados. A questão dos assobios e apupos de ontem, à porta da sede nacional do partido socialista, não tem nada a ver com o saudável exercício de direitos democráticos. Antes pelo contrário: tem a ver com a uma limitação do direito de associação e de reunião. O secretário-geral do partido socialista foi reunir com militantes do seu partido. Com professores ou não é irrelevante. Há quem não entenda esta situação e, apenas, releve o facto de José Sócrates ter sido apupado. Eu sei que certas pessoas não conseguem entender certas coisas. Mas os «manifestantes» presentes entenderam bem que estavam a limitar o exercício de direitos democráticos. Por isso, envergonhados, esconderem quem os tinha para ali enviado. Quem deixa passar, hoje, estas «ninharias», provavelmente esteve de acordo com os manifestantes que assaltaram as sedes do PCP em 1975, quando era deste partido o primeiro-ministro. Os socialistas, na altura, condenaram essa limitação dos direitos democráticos.

||| Ilustração.

Fernando Campos, o sítio dos desenhos. Também aqui.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

||| Agenda Cultural [9]

A Bíblia: Toda a Palavra de Deus (Sintetizada). Teatro-Estúdio Mário Viegas, até 28 de Março, Quintas, Sextas e Sábados, às 21 horas. Interpretação: João Craveiro, Paulo Duarte Ribeiro, Tobias Monteiro. Encenação: Juvenal Garcês.

||| São estes os professores que temos? Não acredito!

3. Um professor está em casa com a família. É sábado. Provavelmente, está combinado um almoço familiar ou um passeio para apanhar sol. De repente, o telemóvel vibra. É uma mensagem. Ele não sabe sequer quem é o remetente, mas tal facto não é importante. Ele não pensa, nem tem que saber quem lhe enviou a mensagem. Apenas se quer manifestar. Despede-se da família e corre para o Largo do Rato. Amanhã pode receber outra mensagem, sem remetente, que lhe diga outra coisa qualquer. E, ele, o professor dos nossos filhos, irá por aí fora, para onde o SMS lhe indicar. Ou não se trata de um professor ou mente. O que nos vale é que estes «professores» são uma minoria.

||| De onde vem o espírito anti-democratico?

Em 1974/75, o PCP procurava por todos os meios calar os seus opositores, como sempre o faz quando tem poder. Assisti a várias situações, a mais violenta das quais foi a interrupção e perseguição à assistência de uma reunião/comício da UDP, na Academia Almadense. Hoje, a lembrar esses tempos, uns «professores» foram para a porta da sede nacional de um partido político – o Partido Socialistaprocurar perturbar uma reunião partidária. Actuam na semi-clandestinidade, são convocados por SMS «anónimos» e não conhecem «pai, nem mãe». Serão de extrema-direita? Serão estes os sinais de que alguns nos falam?

||| USA, 2008 [5]

Barack Obama, desde que ultrapassou em número de delegados eleitos pelo Partido Democrata Hillary Clinton, começou a ser alvo de outra atenção por parte da média. O tom desta atenção pode resumir-se na frase de Charles Krauthammer: «Vende esperança como quem vende água da torneira engarrafada». No Ohio e no Texas, a 4 de Março, se verá o resultado desta nova pressão.

||| Sinal dos tempos [2].

João: a verdade é essa e não é «Nada que não soubéssemos já». Há quem queira ter sol na eira e chuva no nabal. Acaba por não ter uma coisa, nem outta.

||| Sinal dos tempos.

Houve tempos em que atirar à cara de outro a palavra «bufo» era uma ofensa gravíssima, não só política, mas sobretudo de carácter – de mau carácter para ser mais preciso. Em épocas difíceis do século passado, para não ir mais longe, por todo o mundo, foi através dos «bufos» que milhares de famílias foram destruídas, milhares de pessoas foram parar à prisão ou foram mortos. Hoje, a palavra «bufo» aparece quase como um elogio. Uma espécie de sinónimo de «empenhado», «dedicado», «defensor dos bons costumes». Como dizia o poeta, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Mas, para mim, um «bufo» será sempre um «bufo»: uma pessoa de mau carácter.

||| Afinal, é este o país que temos. Os «tripés» são manobras de diversão.

«Na última edição publicámos a história de uma mulher francesa que, por um incrível azar, sofreu uma perda irreparável e um acidente brutal numa praia algarvia. Nesse dia do Verão de 1988, há quase 20 anos, Véronique perdeu o seu namorado, com quem tencionava casar, e ficou em coma. Recuperou, e ainda paraplégica, iniciou uma luta pela vida. Hoje anda com dificuldade, refez, tanto quanto se pode numa situação destas, a sua autonomia, mas nunca conseguiu ser indemnizada pelo Estado português.
E, no entanto, o Estado português foi condenado em todas as instâncias. A última vez foi no Supremo Tribunal Administrativo, a 19 de Dezembro de 2006, correndo agora um processo contra Portugal no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.
Segundo a nossa República fez saber ao advogado desta francesa, hoje com 51 anos, o Governo português não tem dinheiro para lhe pagar.
Trata-se de 370 mil euros. Um valor ridículo muito abaixo de algumas indemnizações ou reformas dadas a gestores públicos, ou do que verbas gastas em publicações, brochuras, propaganda que ninguém vê ou lê.
Não obstante, é um valor que não repara o imenso sofrimento de alguém que foi vítima da incúria de uma Câmara (como se deu por provado no processo).
Este Estado é desumano. Fala em grandes números, em grandes iniciativas, em grandes obras, mas não consegue honrar um dever a que um tribunal o condenou. Apregoa a modernização e o apego aos valores democráticos e humanistas, mas é incapaz de reconhecer um erro.
É este o Estado que temos. E o silêncio que reinou depois de conhecidos os factos é também bastante eloquente. Significa que tudo vai continuar na mesma
O Estado é desumano, Editorial do Expresso, 16.02.08.

||| Fundamentalismo luso.

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Fiscais da Câmara de Lisboa exigem licença de ocupação de via pública para o uso de tripés de máquinas fotográficas e de filmar. No regulamento de ocupação de via pública, nem na letra, nem no espírito, se prevê tal situação. Trata-se de uma interpretação fundamentalista, como fundamentalistas são algumas interpretações da lei feitas pela ASAE ou pela DGS em ralação à lei do tabaco, por exemplo. Esta onda fundamentalista ainda está no começo. Hoje, muitos estão ao lado deste afã «civilizacional», uns batendo palmas, outros fazendo o papel de bufos. Amanhã, quando o colete-de-forças legislativo e repressivo os atingir nos seus direitos mais elementares, quererão protestar. Mas será tarde: o fundamentalismo estará, então, instalado como cultura dominante neste país pobre e inculto.

||| As não-notícias.

A RTP notícia que «Procuradores podem processar Bexiga». Lá poder, podem. Mas, esse «podem», tão natural como respirar, é notícia ou encomenda?

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

||| Agenda Cultural [8].

Gervásio, Galeria de S. Mamede, R. D. Manuel II, Porto.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

||| Histórias da República [5]

«As minhas relações com Bolo Pachá (1) tiveram o seu eco em Portugal, onde os apaches que ali estão mandando pretendem agora insinuar que eu teria sido o amigo do Pachá e, porventura, o seu cúmplice. Homem Christo Filho, que hoje se intitula representante do Governo Português, andou pelas redacções dos jornais de Paris a oferecer um papel encontrado em Lisboa num cofre de Affonso Costa e no qual se fala em Bolo Pachá. Tive de fazer declarações, de dirigir cartas aos jornais…»
Diário de João Chagas, 14 de Fevereiro de 1918.
(1) Bolo Pachá, egipcio, que vivia em França. Em 1918 foi preso no Grand Hotel em Paris, acusado de traição a favor da Alemanha, julgado, condenado e fuzilado. No seu processo, a principal acusação terá sido a de receber dinheiro da Alemanha para pagar artigos pacifistas em jornais franceses.

||| A democracia, essa eterna amante. [4]

Há muitas décadas que o PCP não tinha tantos COMPAGNONS DE ROUTE como tem hoje. Com uma diferença: noutros temos bordejavam o «partido»; hoje militam noutros partidos.

||| A democracia, essa eterna amante. [3]

Quando, hoje, se fala nos «ataques à democracia» vem-me à memória as múltiplas «brigadas comunistas» que tentaram impedir-me de chegar, no Verão de 1975, à Fonte Luminosa. Sem sucesso, como sem sucesso foi a vida política de Álvaro Cunhal – um mito dos comunistas portugueses que teve o azar de não acertar uma única vez. A sua primeira falta de visão histórica foi a posição que tomou na ruptura do movimento comunista internacional, nos anos 60. Optou pelo PC da URSS em detrimento do PC Chinês. Hoje, o resultado dessa «visão» está à vista: a URSS desmoronou-se e o PC da URSS desapareceu, enquanto os herdeiros de Cunhal vão acarinhando o PC Chinês. Deve ser duro de engolir depois do que disseram dos comunistas chineses nos anos da cisão. Essa falta de visão repetiu-se em 74/75. Cunhal imaginou-se um novo Lenine capaz de transformar a «revolução burguesa» em «revolução proletária». Até viu em Mário Soares o Kerensky cá do sítio. Não entendeu os tempos e, por isso, ganhou o passaporte para o anonimato histórico. A sua falta de visão levou-o à derrota. Nos anos a seguir ainda teve a «visão» que era possível manter as nacionalizações, o conselho da revolução e outras «conquistas da revolução», mas o que lhe saiu na rifa foi a queda do muro de Berlim. Hoje, os seus herdeiros, arcando esta pesada herança de falta de visão e de insucessos, persistem no erro, espalhando aos sete ventos que estamos à beira de uma ditadura. Confundem desejos com realidade. Uma coisa é o aperfeiçoamento da democracia e a melhoria das condições de vida de todos os portugueses. Outra, bem diferente, são as soluções alternativas à democracia – as ditaduras. E as soluções do PCP são, comprovadamente, soluções ditatoriais.

||| A democracia, essa eterna amante. [2]

Há quem acredite nas aparições de Fátima. Eu não acredito, como não acredito nas «democracias» em Cuba ou na Coreia do Norte. Há quem acredite na bondade dos generais que, por cá, se assumem como «reservas morais» da nação Eu não acredito, como não acredito nos «sinais de explosão» colhidos num supermercado por quem, com unhas e dentes, defendeu a maioria absoluta que nos governou durante 10 anos. Também não acredito no desbragado alarido que por aí circula sobre o «poderoso ataque às liberdades», usando as palavras dos «jornalistas» do Avante, como não acredito nos cantos de sereias de quem não está vocacionado para fazer, mas apenas para dizer como se faz. Sou, no fundo, um incrédulo. Mas acredito na democracia, apesar das suas imperfeições.

||| A democracia, essa eterna amante. [1]

A avaliar pelo tom da polémica que por aí circula, vulgarmente designada por «Caso Abrantes», começo a recear que se esteja a instalar uma cultura política salazarista de pernas para o ar: antes a perseguição política era à oposição ao governo; agora, é a quem apoia o governo. Eu, pela minha parte, apenas quero ter a liberdade de apoiar ou criticar quem estiver no governo ou na oposição sem que seja perseguido pela minha opinião.

||| Sarkozy, um modelo com pés de barro?

Parece que, entre os franceses (a França profunda?), Sarkozy está em queda livre. Uns dizem que é por causa do lento crescimento económico; outros dizem que é por causa do seu estilo pessoal. Por isto ou por aquilo, o salvador da «pátria» está a esfumar-se em pouco tempo. Terá um segundo fôlego ou já não sairá da agonia? Ao menos que se salve o casamento.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

||| Treinador de Sofá.

Duas vitórias seguidas não é usual no Sporting. Mas é animador, como animadora é a declaração de José Antonio Camacho, treinador do Benfica: «Se o Benfica não está a ganhar, é porque não é o melhor».

||| Parlamento.

Hoje houve debate no Parlamento. Na blogosfera não encontro comentários ou apreciações. Fico na dúvida se o debate foi irrelevante, se o Parlamento é irrelevante ou se José Sócrates se safou bem.

||| O bom humor deve ser estimulado.

||| USA, 2008 [4]

Após as vitórias de ontem, no Maryland, na Virgínia e na capital Washington, o que dá 7 vitórias consecutivas, Barak Obama está à frente de Hillary Clinton nas eleições primárias do Partido Democrata norte-americano. Hillary está, claramente, em perda de velocidade.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

||| Frases soltas.

«Há um buraco negro na esquerda»

Manuel Alegre.

||| Dúvidas.

Li na última Visão uma afirmação de José Medeiros Ferreira, segundo a qual, e interpretando a meu modo, Manuel Alegre está a correr para manter a imagem de representante da «esquerda» do PS (para alargar o espaço eleitoral) e, ao mesmo tempo, obter o apoio do seu partido para as Presidenciais de 2010. Concordei e disse para os meus botões: faz sentido. Hoje, na RTP 1, Marcelo Rebelo de Sousa disse, também, que Manuel Alegre apenas corre para as próximas presidenciais. Ora, se me permitem o desabafo, ou Marcelo Rebelo de Sousa «plagiou» o raciocínio de José Medeiros Ferreira ou este corre o risco de não ter razão.

||| Pena de morte.

Segundo o DN, o Nebraska aboliu a cadeira eléctrica como modo de execução primário, depois de o Supremo Tribunal estatal ter considerado que violava a dignidade humana e era, por isso, inconstitucional. Discute-se qual o método constitucional e que não viole a dignidade humana: a electrocussão ou a injecção letal. Venha o diabo e escolha - dirá o condenado. Mas, o Supremo Tribunal, já deu pistas no sentido de futuras decisões: «As provas demonstram que a electrocussão inflige uma dor intensa e um sofrimento agonizante. Por isso, como método de execução é um castigo cruel». Atenção: a pena de morte é constitucional e não constitui um castigo cruel; os métodos de execução, esses, sim. Por isso, a discussão é em torno dos métodos de execução e não da pena de morte. (Sobre esta notícia escreveu ontem a Cristina).

||| A Oeste nada de novo.

Em comunicado, os Ministros da Finanças do G 7 (Japão, Estados Unidos, Canadá, Grã-Bretanha, Alemanha, França e Itália), reunidos em Tóquio, constataram o óbvio: «Em todas as nossas economias, em diferentes graus, o crescimento deverá desacelerar, mais ou menos, no curto prazo» e que «o crescimento da produção e do emprego diminui consideravelmente».

sábado, 9 de fevereiro de 2008

||| USA, 2008 [3]

Por estes dias, sobretudo depois da passada terça-feira, o mais repetido argumento dos partidários de Obama para os próximos testes eleitorais, entre democratas, é o seguinte: todos os eleitores que votam em Hillary votam em Obama. Mas nem todos os eleitores que votam Obama votarão em Hillary. O argumento faz sentido junto do potencial eleitorado de Obama. Não sei se faz sentido no potencial eleitorado de Hillary.
(Adenda: Barak Obama venceu, ontem, as eleições primárias do Partido Democrata norte-americano em três Estados: Nebraska, Washington e Louisiana.)

||| Treinador de sofá.

Este Sporting está cada vez mais parecido com um pisca-pisca: acende, apaga, acende, apaga.

||| Adivinhem quem tem razão? [2]

O pessoal do costume, que passeava pacata e acidentalmente na Baixa lisboeta, onde tinha ido ver as montras, deu conta da presença de agentes da PSP na sede do Grémio Lisbonense, e de repente, tiveram uma ideia luminosa: vamos ceifar milho transgénico mesmo aqui, no Rossio. Mas desta vez tiveram mais sorte. No verão, no Algarve, a GNR deixou-os ceifar à vontade. Ontem, a PSP não deixou.

||| Histórias da República [4]

«Notícias de Lisboa, nos jornais de Paris, mais precisas e favoráveis. 0 governo estaria seguro de dominar o Porto e esperaria fazê-lo em breves dias, contando para esse efeito com cinquenta mil homens. Cinquenta mil homens! Era o que se nos tornava preciso na Flandres, dispostos a baterem-se! Os monárquicos disporiam de quinze mil. Não sei onde Portugal foi buscar um tão grande exército. Num número do Século que me chega hoje às mãos leio: «Acerca do brilhante revés (sic) infligido em Águeda, pelas tropas da República, aos revoltosos do Porto, são conhecidos mais pormenores.» Este brilhante revés trouxe-me um momento de regozijo, à Eça de Queirós.»
Diário de João Chagas, 9 de Fevereiro de 1919.

||| Adivinhem quem tem razão?

O Grémio Lisbonense é uma associação de cultura e recreio, fundada em 1842, sita no Rossio (por cima do Arco do Bandeira). Ocupa uma casa pombalina cujo proprietário lhe moveu uma acção de despejo. O Tribunal deu acolhimento às razões do proprietário. A PSP foi requisitada para cumprir a sentença judicial. Uns «populares» deslocam-se ao local com o propósito de impedir a execução da sentença judicial. A PSP impediu o assalto à sede, onde cumpre o mandato judicial. Os «populares», entrevistados pelas televisões, protestam contra as bastonadas da PSP: «carga selvagem», «brutalidade» e outros mimos. Em suma: num Estado de Direito, a PSP foi chamada a cumprir ordens de um Tribunal; os «populares», de livre vontade, procuraram impedir a execução de uma sentença judicial. Três questões se colocam: primeira, na contenda entre os «populares» e a PSP, adivinhem quem tem razão? Segunda, durante os anos em que decorreu o processo judicial, a Direcção do Grémio Lisbonense, em conjunto com entidades públicas, nomeadamente a Câmara Municipal, não conseguiram chegar a um acordo com o proprietário do edifício? Terceira, é razoável uma renda de 300 euros por mês num andar com aquela dimensão e localização? Haja bom senso!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

||| Citações [5.08]

Transcrição parcial de A liberdade não é grátis, Luís Campos e Cunha, Público, 08.02.2008 (sublinhados meus).
«Mas, no actual estado de coisas, aqui como lá fora, retira-se a responsabilidade moral de não fumar para não incomodar o próximo, para se passar à proibição da existência do ser imperfeito, ou seja, do fumador. Daí chega-se à raça superior, que hoje não vem dos genes, mas da proibição e do politicamente correcto consagrado em lei. A possibilidade de errar está proibida e, dentro em pouco, não frequentar um ginásio da moda será tão grave como fugir ao fisco. (…) O único limite à liberdade de cada um é, obviamente, o espaço de liberdade dos outros, que deve ser igual ao meu.
Para já, são pequenas liberdades que estão em causa. Os ataques às liberdades foram fruto da demagogia e do politicamente correcto, mas uma outra linha de ataque à liberdade é bem mais grave e, supostamente, em defesa da liberdade.
As escutas telefónicas (hipotéticas ou reais), as negociatas, os dossiers sobre pessoas, as câmaras de vigilância (legais ou não), minam a confiança e turvam o ambiente de liberdade. Paira permanentemente a suspeição sobre todo e qualquer cidadão. Ele sente isso e, como tal, não é livre.
Para se ter, hoje, a privacidade de há 15 anos só seria possível com um comportamento de psicopata, fugindo das auto-estradas, não usando multibancos, cartões de crédito ou contas bancárias; não entrando em supermercados ou centros comerciais... Tal comportamento seria de tal modo custoso para o próprio e seria socialmente de tal modo estranho que certamente chamaria a atenção de algum bufo, o que justificaria algum inquérito, naturalmente. A privacidade acabou, dentro em pouco será o ataque à intimidade.
E tudo isto em defesa da liberdade. Se tal não for atalhado e a corrida para o abismo não parar, os terroristas podem reformar-se, pois os democratas entretanto fizeram o trabalho por eles

||| Cenas do quotidiano.

Um meu querido amigo, chamo-lhe agora, aqui, Zé da Esquina, por comodidade e para o manter no anonimato, tem – sempre teve – todas as condições económicas e sociais para ter «bom gosto». Desde logo, por razões de cabedais e família, que me dispenso de pormenorizar. Até tirou um curso superior e é, sem desprestígio, funcionário público. Mas, talvez um código genético ancestral ou, quem sabe, qualquer outra deformação longe do meu entendimento, não lhe deram essa sorte. Não me refiro ao facto de ser um assíduo frequentador da Zara; nem sequer ao facto de não ter um único livro em casa (presumo que nunca terá lido uma obra de ficção em toda a sua vida); e, muito menos, me refiro à «decoração» do seu apartamento, onde jantei duas vezes: um misto de «vitoriano» à Moviflor com requintes de Braz e Braz. Refiro-me, isso sim, ao facto de, quando casou, há vinte anos, ter trocado um apartamento num bairro histórico de Lisboa, com vista sobre o Tejo, construído em 1858, por uma «vivenda» num duvidoso emaranhado urbanístico em Tires, zona cada vez mais degradada. No último jantar, interroguei-o sobre os fundamentos de tal decisão, ao que me disse: terceiro andar sem elevador, sem garagem para estacionar os carros, torneiras a pingar, o soalho carcomido (estamos a falar de casquinha com 150 anos) e por aí fora. Tudo bem, cada um escolhe o que lhe dá na real gana. Mas, ontem, quando visitei o seu blogue e vi a reprodução das imagem dos badalados «projectos de José Sócrates», ainda por cima, com comentários jocosos, não resisti: mandei-o à merda (foi muito mais, mas fico por aqui), por e-mail. Perdi um amigo, mas fiquei tranquilo com a minha consciência.
(Adenda: recebi um e-mail de um anónimo que, pelo bom humor, transcrevo na íntegra: «tu apoias o Sócrates e não sabias como mostrar um daqueles mamarrachos e até te deste ao trabalho de escrever essa treta toda só para mostrar a fotografia. Vai lá vai, até a barraca abana».)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

||| Agenda Cultural [7].

A revista Artes & Leilões de Fevereiro publica um pequeno dossier sobre a Arte Chinesa. Merece referência, também, a divulgação da pintura de Paulo Teixeira Pinto, facto pouco conhecido, que acompanha um entrevista com o ex-presidente do BCP, onde este acrescenta outra novidade: «Vou publicar um livro de poemas».
(imagem: Paulo Teixeira Pinto, Palavras achadas, acrílico sobre tela, 100x100).

||| Telegrama.

||| António José Seguro.

Ouvi na TSF que António José Seguro deu conhecimento ao líder parlamentar do PS que irá votar, na Assembleia da República, onde o assunto ainda mexe, a favor do referendo ao «Tratado de Lisboa». Não sou a favor do referendo, mas sou a favor da frontalidade de António José Seguro. Na política, como de resto em tudo na vida, a hipocrisia mina a credibilidade e a unanimidade mina a democracia.

||| O «caso Maddie» e as declarações do Director da PJ.

Eu, tal como todos os portugueses (incluindo, também, penso,os investigadores da PJ), desconheço o que, na realidade, se passou no «caso Maddie». Como, em regra, gostamos de «tomar partido», face ao desenrolar das notícias, uns inclinaram-se para o «envolvimento» dos pais no desaparecimento da criança; outros rejeitaram liminarmente tal hipótese. No entanto, foi notória a inclinação das investigações, pelo menos a partir de certo momento, para o envolvimento dos pais de Maddie. Agora, veio o director da PJ disser que tinha havido precipitação, da polícia que dirige, ao constituir os pais como arguidos. Todos entenderam estas declarações como um atestado de inocência do casal McCann. Mas, se me permitem, as ditas declarações podem ter outra leitura: a polícia judiciária poderia ter conseguido provas da culpabilidade do casal McCann se não os tivesse constituído arguidos. O Director da PJ, depois de ter proferido tal declaração, deve esclarecer o sentido das suas palavras.

||| Diferenças que são todo um programa. Tanto lá, como cá.

«Mas, como escrevia o enviado da Spiegel, [Obama] tem um "inimigo" que ainda não conseguiu "vencer": a classe média. "Obama ganhou sobretudo nos votantes com rendimentos superiores a 150 mil dólares. Clinton ganhou entre a gente com menos de 50 mil. Os académicos votaram nele. Os trabalhadores nela. Ele inspira os jovens, ela os mais velhos."» (Teresa de Sousa, 07.02.2008, Público.)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

||| Agenda Cultural [6].

Madrid, de 13 a 18 de Fevereiro: 27ª Feira Internacional de Arte Contemporânea, ARCO08. 57 galerias de 34 países. O Brasil é o país convidado.

||| Citação [4.08]

«Há qualquer coisa que me deixa muito inquieto quando leio mais este folhetim sobre o passado de José Sócrates. (…) O Engenheiro José Sócrates (desta vez não há dúvidas sobre o título académico) era funcionário de uma câmara e o seu pecado era, como o de quase todos os outros portugueses na altura, ter mais de um emprego no esgravatar geral por um Escudo a mais nas sempre magras tabelas do funcionalismo público. Pelo que li, José Sócrates trabalhava na Câmara e fazia projectos para fora numa área onde não havia qualquer incompatibilidade funcional. Estes múltiplos empregos eram norma em Portugal quando cá cheguei. (…) Ser jornalista naqueles tempos, para muitos camaradas, era trabalhar de manhã na rádio, a meio do dia na Anop, à tarde na televisão e à noite num dos jornais estatizados onde um cartão de partido garantisse uma qualquer sinecura para colmatar a inflação de dois dígitos. Conheci muita gente com este regime de trabalho. (…) Conto tudo isto para recordar que nos anos oitenta este era um país muito diferente. O que era legítimo e aceitável fazer-se na altura seria impensável hoje. Por isto acho imoral estar-se a fazer juízos em 2008 e a procurar consequências políticas de comportamentos absolutamente generalizados há um quarto de século. Tanto mais que, pelo que li até agora, esses comportamentos não configuraram qualquer espécie de ilícito criminal. Eram tempos diferentes com leis diferentes e práticas diferentes. (…) Na altura era prática corrente a obra ser feita de raiz por apenas um técnico academicamente credenciado. José Sócrates tinha essas credenciais. Também não deixa de ser irónico que tenham sido levantadas questões de "carácter" sobre José Sócrates por um desastrado upgrade académico numa universidade que caiu em descrédito e que agora as questões de "carácter" sejam levantadas pelo exercício da profissão para a qual ele está, afinal de contas, academicamente credenciado, o que já ninguém disputa. (…). Claro que é engraçado este jornalismo de ASAE numa eterna busca de um Watergate com migas à moda da Guarda. É engraçado mas não tem piada. Por tudo isto começam a repugnar-me estes autos de fé ruidosos, deslocados no tempo, cruéis e sobretudo inconsequentes. A inconsequência advém de não haver ilegalidades. A ser uma questão de "carácter" perdida no tempo, só servirá para as eleições. Não é um bocadinho cedo para isso?»
Mário Crespo, jornalista, JN, 04.0208.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

||| USA, 2008 [2]

Para quem estiver disponível para uma noitada, há dois lugares em português a fazer a cobertura em tempo real das primárias norte-americanas: Pedro Dória e O biscoito fino e a massa.
(via Cristina Vieira)

||| Segundo nos diz o PCP, é preferível Berlusconi a Prodi.

Para o PCP, Prodi governou a Itália mais à direita do que Berlusconi. Assente essa premissa «ideológica», dá «pistas» para os comunistas italianos apoiarem Berlusconi nas próximas eleições:
«Posicionando-se desde o início ao lado do grande capital e do imperialismo norte-americano, Prodi foi mais longe nas políticas anti-sociais e militaristas do que puderam ir os governos do seu predecessor Sílvio Berlusconi, refreados por uma forte oposição popular. (…) Berlusconi, que já se lançou na campanha eleitoral, prometendo reduções de impostos, a reforma da justiça e combate à criminalidade, não desdenha eventuais apoios à esquerda para governar mais calmamente.»
Avante, 31 de Janeiro de2008.

||| Histórias da República [3]

«(...) em Lisboa, os monárquicos, com excepção dos que foram apanhados em Monsanto gozavam de ampla liberdade, faziam os seus conciliábulos, entregavam-se como sempre à campanha dos boatos. Foram eles que espalharam a notícia, de que se fez eco a imprensa estrangeira, de que navios de guerra ingleses se opunham a que o Porto fosse bombardeado. Em Lisboa esteve um único navio de guerra inglês, o Liverpool, que entrou e saiu, e no Norte apenas constava ter entrado o cruzador Diadème, mas o governo de Lisboa fazia desmentir formalmente que qualquer deles tivesse intervido - escrevia 0 Mundo – «a favor de cidades, ou de indivíduos portugueses.» (...) 0 equívoco – mais um equívoco! – em que o governo Relvas caiu solidarizando a República com o sidonismo, ou aceitando a solidariedade dos sidonistas, está produzindo os seus frutos e sabe Deus quantos produzirá ainda! A opinião republicana, mais esclarecida do que a dos homens que a dirigem, não aceita visivelmente essa solidariedade, procura ainda surdamente, mas de um modo manifesto já, combater o equívoco, purificar a atmosfera política, restaurar definitivamente a República. Deste antagonismo vão sair – ai de nós! – novas lutas. A manifestação mais característica deste equívoco foi a sessão do Senado, no dia 30 de Janeiro. Como se não houvesse em Portugal uma guerra civil, como se os monárquicos não tivessem restaurado a monarquia no Norte e não houvessem hasteado a bandeira azul e branca nos muros do Porto, como se ali mesmo em Lisboa, poucos dias antes, não se tivesse travado uma luta sangrenta para defender a República, isto é, como se nada disto se tivesse passado, como se tudo isto fosse um sonho e tudo continuasse como dantes, sob Sidónio Pais ou sob Tamagnini Barbosa, o Senado reuniu com a sua maioria sidonista e a sua minoria monárquica e discursou, deliberou como nos dias mais correntes da ditadura: 0 senador monárquico Domingos Pinto Coelho prestou homenagem à memória do presidente da República Brasileira Rodrigues Alves, o presidente Zeferino Falcão manifestou o seu pesar por só então, poder o Senado associar-se ás manifestações de pesar da Câmara, pela morte do presidente Roosevelt. A estes votos associaram-se outros senadores monárquicos – o visconde de Carriche, o Castro Lopes ... Introduziu-se na sala um novo senador, deliberou-se agregar um outro à comissão de infracções. Estavam presentes 30 senadores e não diríamos que Portugal se encontrava em guerra civil, se Machado Santos, que continua à solta, sem que a República ponha definitivamente um termo às suas loucuras, não tem apresentado um projecto de lei que o faria baixar imediatamente a um manicómio, se tantos outros documentos do mesmo género não o classificassem de há muito entre os mais desenfreados vesânicos que a Revolução de 5 de Outubro desencadeou na sociedade portuguesa
Diário de João Chagas, 5 de Fevereiro de 1919.