quarta-feira, 19 de setembro de 2007

||| Cataventos.

Os gémeos polacos bloquearam a ideia de um dia europeu contra a pena de morte, como tudo fazem para que o tal «tratado» ou «constituição» europeia não seja aprovado. O curioso é que há muito boa gente que não quer ver a relação entre as duas posições. E, simulando ingenuidade, se ofende com os gémeos quanto à pena de morte e se coloca ao lado dos gémeos quanto à não aprovação do dito tratado. Decidam-se!

||| A cada um a sua causa.

«E onde é que estavam os verdeufémicos ein?», de Cristina Vieira (Contra-Capa).

||| Treinador de sofá.

Foi bonito ver o estádio de Alvalade – quarenta e tal mil espectadores – a aplaudir Cristiano Ronaldo, o marcador do golo da equipa adversária - o Manchester United. O Sporting esforçou-se, não se intimidou, mas está com um problema grave: o guarda-redes raramente defende a bola com as mão, o que é invulgar para um guarda-redes.

||| Aquilino Ribeiro.

Aquilino Ribeiro já está no Panteão. Algumas vozes – poucas – discordaram. É normal. Sucedeu o mesmo com Amália Rodrigues e Humberto Delgado, como deve ter sucedido com todos os outros inquilinos. Se ninguém discordasse era um forte sinal de que não mereceria estar lá. A unanimidade não engrandece, diminui.
(Imagem daqui).

O debate.

Os dois candidatos à liderança do PSD, Luís Filipe Meneses e Marques Mendes, encontraram-se ontem num debate na SIC-Notícias. Entalados entre falar para os militantes do partido ou falar para país (o que pressupõe temáticas e linguagem diferentes) e arruinarem (ainda mais) ou não a imagem do partido (o que evitou, de parte a parte, a frontalidade que seria entendida com «lavar de roupa suja»), não conseguiram ir além de uma conversa frouxa, sem chama. Aliás, aquele «esquema» do agora falo eu, agora falas tu, transforma qualquer debate em dois monólogos. António José Teixeira, comentando o debate, disse que o vencedor tinha sido José Sócrates. Talvez seja exagerado, mas não está longe da verdade.
[Adenda: De mal a pior, do Pedro Correia (Corta-fitas)]

terça-feira, 18 de setembro de 2007

||| Alma portuguesa.

A propósito do caso da ambulância estorvada na sua marcha de urgência, pela Brigada de Trânsito, quando seguia a caminho do Hospital de Ponte Lima, aprendi o que qualquer mortal sujeito a necessitar, de um momento para o outro, de um desses veículos, deve saber. Aprendi que as ambulâncias não são todas iguais. Numa primeira classificação, existem as ambulâncias públicas e as ambulâncias privadas. Numa segunda classificação, existem as ambulâncias que podem circular com as luzes de emergência ligadas e as que não podem circular com as luzes de emergência ligadas. As que podem são as públicas; as que não podem são as privadas. Ora, esta distinção é muito importante, sobretudo para os médicos em serviço nos Centros de Saúde. Quando enviam um doente para um Hospital têm de diagnosticar também (e escrever na respectiva ficha) se o doente está capacitado para seguir numa ambulância que não pode circular com as luzes de emergência ligadas ou se, pelo contrário, deve seguir obrigatoriamente numa ambulância pública. E não se pode enganar, a bem do doente. Porque as ambulâncias privadas, aquelas que não podem circular com as luzes de emergência ligadas, transgridem o código da estrada quando acendem as ditas luzes. Mas nesta teia em que se espraia a alma portuguesa fica por resolver as situações em que o doente, transportado numa ambulância privada, já a caminho, de improviso, e sem se esperar, dá notórios sintomas de urgência. Acende a luz ou não acende a luz? Acho que deve ser nomeada uma comissão para estudar estas situações, a cujas conclusões se dê forma regulamentar. Pela minha parte, esteja em que situação estiver, desde que fale, antes de entrar numa ambulância, perguntou: é pública ou privada? Já não me enganam. Nas privadas, nunca.

Boas novas.

The Royal Art Lodge, um grupo de jovens artistas plástico canadianos que tem a particularidade de só realizar obras colectivas, expõe pela primeira vez em Madrid, na Galeria Mínimo. Até 20 de Outubro.
A revista Artes e Leilões volta às bancas a partir de 28 de Setembro.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Os malefícios da entrada em vigor do novo código de processo penal.

Presunção de inocência? Direitos, liberdades e garantias dos cidadãos? Tudo bem, não tenho nada contra, desde que não me obriguem a trabalhar mais. Por favor, deixem-nos em prisão preventiva mais uns anitos que eu tenho mais que fazer. Não pode ser? Ao menos atrasem a entrada em vigor do código para ter tempo de me ajustar. Não dá? Então esperem pela pancada: vou já telefonar para a Sky News a denunciar os presos perigosos que tenho que libertar. Evocar a especial complexidade? Não estou para isso, hoje tenho um jantar de amigos. Eu já sabia que o código ia entrar em vigor agora? E depois? Eu não estou em prisão preventiva.

Manual de instruções para crimes banais.

Pedro Vieira ilustrou, no seu estilo inconfundivel, a acção da Brigada de Trânsito da GNR no caso da ambulância que cometeu o «crime» de circular com as luzes de emergência ligadas. A propósito, aguardam-se os resultados do «inquérito» instaurado para o apuramento de «responsabilidades». Ao menos, que a perda de uma vida ajude a salvar outras.

sábado, 15 de setembro de 2007

Quando não há bom senso, não há planos tecnológicos que nos salvem.

Uma ambulância, a caminho de um hospital, é mandada parar pela Brigada de Trânsito, durante 20 minutos, numa auto-estrada, por «circular com as luzes de emergência ligadas», como se tal facto não fosse normal. Teste de alcoolémia para aqui, documentos para ali, mais isto e aquilo a que estamos habituados. O doente que a ambulância transportava, enviado para o Hospital de Ponte de Lima, por um Centro de Saúde, devido a «uma forte dor no peito» morreu minutos depois de entrar no Hospital. Esta situação, como milhares de outras que moldam a «qualidade» do nosso quotidiano, tem a ver com o nosso nível cultural, é indiossincrático, e daqui nunca mais saímos.

Citações.

Excertos de O fim do mundo?, Vasco Pulido Valente, Público de 15.09.2007.
«As civilizações percebem ou pressentem as grandes catástrofes? Não há uma resposta clara: às vezes sim, às vezes não.
(...) neste ano de 2007, vale a pena fazer um intervalo para pensar. Bush criou no Iraque um problema insolúvel. A estratégia do general Petraeus, que ele explicou serenamente no Senado, reforça o tribalismo sunita e, por assim dizer, "institucionaliza" a guerra civil. Pior ainda: para além "abandonar" os curdos, Petraeus tornou de facto inevitável a soberania do Irão sobre o Iraque xiita. O que ameaça a dinastia Saud e o Egipto e, através do Hezbollah e do Hamas, põe em perigo a própria existência de Israel. A América não pode sair e não pode ficar e já hoje, a qualquer momento e como em Junho de 1914 por um incidente sem sentido, uma explosão geral pode acontecer. Sobre isto, como dizia o outro, "paira o espectro" da bomba do Irão. Do partido republicano ou do partido democrático, nem um único candidato à sucessão de Bush deixou de prometer (e com a maior solenidade) que não permitirá um Irão "nuclear": Hillary, Obama, Giuliani, Romney e por aí fora. E, se a América, por absurdo, permitir, Israel com certeza não permite. Só falta descobrir a maneira de meter o Irão na ordem, sem provocar uma guerra suicida, que tarde ou cedo envolveria a Arábia, a Síria e o Egipto. Existem planos de uma enorme sofisticação; e de uma enorme falibilidade. O risco de intervir é igual ao risco de não intervir. É deste género de situações que se resvala, de repente, para o fim do mundo. De quando em quando, como hoje, com o mundo inteiro distraído.»

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Gostei de ler.

«Povo que lavas no rio», do Pedro Correia (Corta-fitas).

Europa a«duas velocidades»?

A chanceler alemã Angela Merkel recebe, no seu gabinete, o Dalai Lama, no próximo dia 23 de Setembro.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

O problema é linguístico*.

Os portugueses não conseguem traduzir fair play.

Comunicação social.

Luiz Felipe Scolari esmurra Kate McCann, afastando-a momentaneamente do palco.

Dalai Lama? Quem é?

A República Popular da China está a duas ou três décadas de se transformar na maior potência do mundo, ofuscando por completo a influência dos Estados Unidos e da União Europeia. O nosso umbigo está a Ocidente e, por isso, perdemos de vista o que se passa para além da nossa rua. Parece que é preciso visitar Pequim ou Xangai, por exemplo, para perceber a dinâmica da «coisa». A «revolução proletária” saída da barriga do «modo de produção asiático», em 1949, associada à experiência negativa do modelo soviético, está na origem de novos conceitos «marxistas» produzidos pelos dirigentes do partido comunista chinês, algo que ninguém quer encarar na sua real dimensão teórica e prática: adicionar o «melhor» da prática marxista (o partido único, a ausência de liberdades e de democracia, de sindicatos, partidos, comunicação social e outras «minudências) ao «melhor» do capitalismo na versão dos primórdios desavergonhados da revolução industrial (trabalho infantil, 16 horas de trabalho diário, e por aí fora). Esta é uma combinação explosiva, acreditem. O Presidente da República e o Primeiro-Ministro, em Portugal, ignorarem o Dalai Lama é apenas um sinal insignificante. O PCP, sempre atento, também sabe da poda. Enquanto isto se passa, a «blogosfera» participa, em regra, no jogo: concentra-se no acessório - em Cuba e na Coreia do Norte - , e despreza o essêncial - a República Popular da China. Todo o mundo vai, cada um a seu modo, metendo a cabeça debaixo da areia. Não esqueçam: «o Oriente é vermelho, o ocidente o será».

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Treinador de sofá.

Portugal jogou, sobretudo após o golo de bola parada, para o empate, «táctica» utilizada em todos os jogos desta fase de qualificação do Europeu. Desta vez, esteve quase a deixar escapar o objectivo. Mas a sorte esteve do «nosso» lado, e o empate que se desejava acabou por chegar. Os «empatas» estão de parabéns. Scolari, no final, deu largas ao seu contentamento «comemorando» o resultado com um jogador da Sérvia. Como este e o anterior, o próximo jogo será decisivo...

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Coligações de esquerda [2]

A primeira e única experiência de coligação de esquerda em Portugal com significado político concretizou-se a nível autárquico, e ganhou a Câmara de Lisboa, em Dezembro de 1989. Esta coligação assentou no entendimento entre o PS e o PCP, apesar de «arrastar» outros pequenos partidos (sobretudo aqueles que vieram a constituir o BE). Na altura, também se escreveu, e muito, o mesmo que André Freire agora repete a propósito do entendimento PS-BE na Câmara de Lisboa: «Mas podemos também olhar para esta coligação como um ensaio que, se correr bem, poderá eventualmente ser replicado ao nível do país.» A experiência da primeira coligação de esquerda, em Lisboa, não vai neste sentido. Aliás, a meu ver, o entendimento entre o PS e o PCP só foi possível, em primeiro lugar, por ser a nível autárquico; em segundo lugar, por ter apanhado o PCP num momento de completa desorientação estratégica e ideológica: Gorbachev tinha lançado, desde 1985, a «Glasnost» e a «Perestroika» minando os alicerces do modelo soviético e dos países de Leste, a que se juntavam as críticas e dissidências internas. O PCP, em silêncio, pagava a fidelidade canina ao PC da União Soviética e viu cair o muro de Berlim ainda antes das eleições autárquicas de 1989. Retomada a orientação estratégica nos finais dos anos 90, o que podemos constatar hoje é que o PCP não esteve politicamente disponível para se coligar, em Lisboa, com o PS e o BE. O que é significativo. E não é pelo alegado facto do PS estar no governo a executar uma política de «direita». Em 1997, a coligação de esquerda concorreu à câmara de Lisboa, numa altura em que o PS também executava uma política de «direita». O «grau de inovação nas fórmulas governativas» em Portugal, a que alude André Freire, provavelmente, não passa pelo PS, mas sim pelos partidos à sua «esquerda». Será o BE diferente do PCP?

Há dias assim.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Coligações de esquerda [1]

Hoje, no Público, André Freire disserta sobre «Coligações e democracia: os dilemas da esquerda», onde perpassa a «simpatia» pelo acordo PS-BE na Câmara de Lisboa e, também, onde se estranha as incompreensíveis «declarações de certos dirigentes do BE parecendo rejeitar liminarmente uma coligação em 2009» (com o PS e a nível nacional). Os fundamentos que sustentam a «tese» de André Freire passam ao lado do essencial, mas mereceram de imediato o elogio de «certos» apoiantes do BE, o que não é de admirar. O assunto começa a estar na ordem do dia, não só no interior do BE, mas também no PS. Darei conta da minha modesta opinião sobre o tema.

«sound-bytes», dizem eles.

«Défice comercial português baixou 7,5 por cento no primeiro semestre

Onde se misturam corvinas e chineses.

O Expresso do último sábado noticiava que Maria José Nogueira Pinto, de novo à frente do projecto de reabilitação da Baixa-Chiado, agora pela mão do PS, quer acabar com as lojas chinesas na Baixa de Lisboa. Esta «ideia» pouco fica a dever à «ideia» das amêijoas e das corvinas de Sá Fernandes. Para além de poder ser interpretada como xenófoba (os partidários de Sá Fernandes já escreveram: «a Câmara ter uma “comissária” para a Baixa-Chiado, que já pela segunda vez dá provas da mais bafienta xenófobia é, no mínimo, desprestigiante para uma cidade que se quer moderna, cosmopolita e desenvolvida»), a «ideia» só é concretizável, a curto prazo, violando as mais elementares regras de mercado e violando a Constituição. Ou seja, impedindo (ilegalizando) a compra, o arrendamento ou o trespasse na Baixa a um determinado tipo de comerciantes, em função da nacionalidade (chineses) ou do objecto do comércio (produtos chineses). É óbvio que se trata de uma tonteria. A Baixa lisboeta está degradada, a todos os níveis, e é apenas um ponto de passagem. A restauração definha em qualidade e até a Loja das Meias sucumbiu por falta de clientes, por exemplo. As boas marcas e o comércio de qualidade não querem a Baixa e, por isso, a compra, o arrendamento e os trespasses são baixos em relação a outras zonas da cidade. Só a requalificação daquele território, em função dos desejos, dos hábitos e das necessidades das pessoas (e não em função de «projectos» saídos da cabeça de «iluminados»), que dê nova vida à Baixa, irá permitir a valorização dos espaços físicos, da procura e do comércio, e então, haverá uma selecção da oferta e da qualidade. Um dos males do nosso «planeamento» passa, em primeiro lugar, pela noção de que nunca se executará; em segundo lugar, pela (ir)responsabilidade dos «responsáveis» em função dos resultados. Assim, podemos brincar à vontade às cidades, ao planeamento, etc. O último a sair que apague a luz.

Ilustração.

Amanhã, 11 de Setembro, às 19 horas, inauguração (se não for cancelada até 3 horas antes) da exposição de ilustração de Pedro Vieira. Na Trem Azul Jazz Store, Rua do Alecrim, 21 A, em Lisboa.

domingo, 9 de setembro de 2007

Peúgas brancas.

No comício de encerramento da Festa do Avante, Jerónimo de Sousa centrou o seu discurso nas «medidas contra o desemprego e o endividamento das famílias». Percebeu que o anunciado discurso dos «traços da deriva antidemocrática e fascizante» do Governo PS não se coadunava com a comemoração da revolução soviética de Outubro de 1917 e a presença dos «camaradas» da Coreia do Norte ou da Bielorússia. Isto de usar peúgas brancas com fato preto não só é de mau gosto, como dá muito nas vistas.

Um Domingo televisivo.

Durante a manhã podemos assistir a «uma operação de salvamento» do casal que, ampliando uma desgraça, se lançou, por vontade própria, nas bocas do mundo – os McCann. Neste momento, com a contribuição de uns cães ingleses, estão na corda bamba: ou vão presos ou substituirão o já gasto culto de Diana.
Ao começo da tarde a selecção nacional de basquetebol venceu (com uma intranquilidade desnecessária no período final) a selecção de Israel, na segunda fase do Eurobasket-2007 que decorre em Espanha. Abriu, com esta vitória, espaço de sonho para o confronto com a Grécia.
Mas, quase sem tempo para digerir, já decorre o primeiro jogo da selecção nacional de râguebi, em Saint-Étienne, um jogo para o Mundial da modalidade, onde Portugal, uma equipa amadora, participa pela primeira vez a este nível por direito próprio. Não ganham milhões, mas dão o corpo ao manifesto.
PS. A nadadora portuguesa Sara Oliveira venceu os 200 metros mariposa do 36.º Campeonato Brasileiro Absoluto de Natação, que hoje terminou em Florianápolis.

sábado, 8 de setembro de 2007

Treinador de sofá.

Fim de ciclo do «empata». Nem o eventual apuramento o salva.

A síndrome de Ulisses, Santiago Gamboa.

O último romance de Santiago Gamboa (Bogotá, Colômbia, 1965), A Síndrome de Ulisses, editado pela ASA, conduz-nos aos meandros da imigração em Paris. Revela-nos uma outra cidade, diferente de Paris nunca se acaba, de Enrique Vila-Matas ou Paris é uma Festa, de Ernest Hemingway. É um outro retrato literário: uma Paris vivida por imigrantes colombianos, onde se cruzam ex-guerrilheiros do M-19, gente simples à procura de uma vida digna e jovens candidatos a escritores, mas também africanos, outros sul-americanos e orientais. «Nós, chegamos pela porta das traseiras, tirados à sorte do lixo, vivíamos muito pior do que os insectos e os ratos». Histórias de vidas que se desenvolvem, ao nosso lado, quer em Paris, quer em Madrid, em Londres ou em Lisboa, muitas vezes abaixo da «linha de visibilidade».

A geografia ideológica do substantivo abstracto democracia.

1. «Tenho dúvidas que [a Coreia do Norte] não seja uma democracia» - Bernardino Soares, deputado do PCP.

2. «…não tenho conhecimento da existência de presos políticos [em Cuba]». - Bernardino Soares, deputado do PCP.
3. «Os traços da deriva antidemocrática e fascizante” [em Portugal]» - Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP.

O arguido.

Muitas vezes escrevi aqui sobre «o arguido», esse conceito «perverso» que judicialmente serve para conferir a uma pessoa mais garantias de defesa no processo judicial, mas que socialmente se transformou (com a ajuda da comunicação social) em sinónimo de «acusado» antes de qualquer acusação ou, mesmo, «condenado» antes de qualquer julgamento. O caso McCann está a colocar, pela primeira vez, o conceito de arguido em crise. Ferreira Fernandes no DN de hoje, com humor, dá uma ajuda(sublinhados meus):
«Vai haver festa em Coimbra, pátria da adolescência dos penalistas nacionais. Conseguiram! A sua especialidade, lendo os jornais estrangeiros de ontem, exportou-se. Tal como já acontecera com o queijo da serra e o pastel de Belém, a palavra "arguido" conquistou o mundo. "What is an 'arguido'?", titulava o inglês Guardian. Ao que respondia, também em título, o espanhol El Mundo: "'Arguido', figura para el sospechoso oficial em Portugal." E o francês Le Monde pediu a um jurista luso para explicar a típica palavrinha. Ele compara com "suspeito" mas alertou: "Não implica acusação exacta." E, assim, se demonstrou a paternidade portuguesíssima de "arguido". Este é uma coisa em forma de mais ou menos. Está para os touros de morte como a tourada portuguesa. Arguido é todo curvas, é uma pega de cernelha. É acusar e dizer em seguida: "Mas não leve a mal, homem." Mais português é impossível. A palavra "arguido" conquistou o mundo. Só falta convencer os juízes.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Livros.

A conversa sobre livros está a marcar a rentrée blogosférica: a resposta a uma pergunta «inócua» (os livros que não mudaram a minha vida) está a transformar-se num «tratado» sobre literatura, com inestimáveis contributos aqui, aqui e aqui, por exemplo.

Reacções à flor da pele.

O caso McCann é paradigmático do comportamento dos «populares» – essa figura imprecisa de povo anónimo, mas opinativo. Julgam sempre as situações à flor da pele e reagem em conformidade. Tanto lhes dá para, compungidos e solidários, acompanhar o casal MaCann em múltiplas vigílias na Igreja da Praia da Luz, a última das quais anteontem, como os vaiar e apupar, hoje, à porta da PJ de Portimão. Muitas vezes - quase sempre - os jornais acompanham os «sentimentos populares».

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Alguém se sente incomodado?

Os que não mudaram, 2

A propósito de livros cuja leitura não muda a vida do seu leitor, ocorre-me o seguinte: um dia, há muitos anos, ao fim de uma manhã de primavera, um amigo meu estava dividido entre ler um pequeno livro (quando conta a história refere sempre o livro: Boneca de Luxo, de Capote) ou ir passear junto ao Tejo. Optou pela segunda hipótese. Nesse passeio foi atropelado ao fim da Rua do Alecrim, sob o olhar complacente e liberal do Duque da Terceira. Passou umas semanas num hospital e ainda hoje coxeia. Ele costuma dizer: «há leituras que mudam a nossa vida sem sabermos».

Os que não mudaram.

O Francisco José Viegas lançou-me o desafio de enumerar 10 livros que não mudaram a minha vida. Trata-se, para mim, de uma tarefa difícil. Quando estou a ler um livro, independentemente das «consequências» da leitura, não estou a fazer outra coisa. Este facto, só por si, pode ter mudado muitas vezes a minha vida. Por isso, a minha primeira tentação foi enumerar 10 livros que nunca li. Parecia-me, racionalmente, a melhor solução. A mais verdadeira. No entanto, a leitura é um pressuposto do repto. Assim optei por:
Livros que poderiam ter mudado a minha vida, mas não mudaram:
A Bíblia, Vários autores.
O que é a Maçonaria, Jorge Ramos (Minerva de Bolso, 1975).
O Erro de Descartes, António Damásio (Pan Macmillan, 1995).
Receitas Eróticas, Leslie C. Carlton, (Editorial Perseu, 2002).
Curso Completo de Tarô, Nei Naiff (Nova Era, 2002).
Como havemos de viver? Peter Singer (Dinalivro, 2005).
Outros exemplos de livros que, em princípio, não mudaram a minha vida.
Desta água beberei, Urbano Tavares Rodrigues (Livraria Bertrand, 1979).
Ensaio sobre a lucidez, José Saramago, (Caminho, 2004).
Foi Assim, Zita Seabra (Alêtheia Editores, 2007).
António de Oliveira Salazar, Jaime Nogueira Pinto (A Esfera dos Livros, 2007).
Deixo o repto nas mãos do Eduardo Graça, do Torquato da Luz, do Tiago Barbosa Ribeiro, da Ana e do Raimundo Narciso.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Surpresas!

George W. Bush fez escala, hoje, em Bagdad a caminho de Sydney. Foi constatar com os próprios olhos os estragos provocados pela invasão de modo a poder apresentar no Congresso o relatório sobre os «progressos alcançados no Iraque».

Festas e convidados.

Vai para aí, na blogosfera, uma chinfrineira de arromba por causa dos convidados do PCP para a Festa do Avante. Até parece que estavam à espera de mudanças no PCP. Há 31 anos que a Festa tem os convidados do costume: os partidos irmãos que, quer no poder (cada vez menos), quer na oposição se julgam donos do destino das «massas populares». Eles vendem a ditadura e o totalitarismo como uma coisa boa. Espreitam, em cada esquina, a ver se vislumbram a oportunidade de nos meter a canga em cima. Para além de razões de irmandade, os amigos já são tão poucos que não se pode dar ao luxo de se esquecer do Partido Comunista da Colômbia. Mas já fizerem uma concessão notável: não convidaram as FARC - segundo afirmam- , mas o PC da Colômbia. O normal seria convidarem também as FARC.
(A propósito: uma das vedetas convidadas para a Festa do BE do passado fim de semana foi o senhor Gregor Gysi, personagem que transformou o antigo partido comunista da ex- Alemanha Oriental (SED) no PDS, actual Partido de Esquerda. Pertenceu aos pioneiros do partido, às juventudes comunistas e, depois, ao partido, onde estava no momento da queda do muro de Berlim. Isto não tem nada de importante, naturalmente, até porque era filho de um ministro do Governo da RDA. O pior, é que sobre ele recaí a suspeita de ter sido um informador da STASI – a Pide da Ex- RDA. Mas, provavelmente, é uma notícia de origem duvidosa. Talvez da CIA.)

Treinador de sofá.

Para o MAV:
Ontem em Leiria houve mais fogo
Com arbitragem às três pancadas
Lá veio um golo fora de jogo
E outro rematado das bancadas.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Bom fim de semana.

O BE antecipa a sua Festa uma semana em relação à Festa dos seus mais directos rivais – o PCP. A «análise concreta da situação concreta» é simples: as alternativas à direita são frágeis; o governo vai entrar em desgaste, para além da governação «à direita» deixar órfão uma parte do eleitorado de esquerda; nas próximas legislativas a possibilidade de crescimento eleitoral à esquerda do PS é considerável. No próximo ano e meio vamos, pois, assistir a uma cerrada disputa entre o PCP e o BE: cada um a subir o tom mais alto do que o outro contra o Governo e os «socialistas de direita». Com uma diferença: o PCP vê o eventual crescimento eleitoral apenas como um instrumento da sua luta mais ampla pela «revolução». Sabem, porque está escrito nos livros, que mais cedo ou mais tarde surgirão as «condições objectivas» que conduzirão à insurreição e ao poder. As «eleições burguesas» valem o que valem. O BE, mais pragmático, faz outra leitura - mais «moderna» - do que está escrito nos mesmo livros. Segue o «modelo» do eixo da esperança (Venezuela, Bolívia e Equador): podemos chegar ao poder através de «eleições burguesas» e provocar a «revolução» a partir daí. O decrépito e trôpego quadro partidário dá-lhes alento. Por um ou outro caminho, o PCP e o BE alimentam a esperança de que a «revolução» estará na ordem do dia mais cedo do que os Sócrates e os Mendes deste país pensam.

Direitos.

Parece que a Câmara Municipal de Viana do Castelo não se dá bem com a propaganda política da oposição.

Citações.

Excertos de O outro aeroporto, Vasco Pulido Valente, 31.08.2007, Público.

«Em de Fevereiro de 1858, a Virgem apareceu a uma adolescente de 14 anos, Bernardette Soubirous numa aldeia dos Pirenéus, chamada Lourdes. De Fevereiro a Abril, Bernardette voltou a ver a Virgem mais 17 vezes. Na penúltima vez, quando já muita gente se tinha metido no caso, a Virgem disse em dialecto local: "Sou a Imaculada Conceição."(...) Ao princípio as peregrinações não tiveram nem muita importância, nem muita gente. Mas foram aumentando com a abertura (em 1866) de uma linha de caminho-de-ferro e ... Lourdes passou a ser um centro de "turismo religioso" como nunca até ali existira, pela simples razão de que até ali não existiam comboios.
Fátima começou com a mesma espécie de ingredientes. Em primeiro lugar, com uma intensa perseguição à Igreja. Em 1917, por exemplo, o Governo expulsou seis bispos das respectivas dioceses (...) Em 1915 e 1916, três pastorinhos (Lúcia, Jacinta e Francisco) viram um anjo em vários sítios da freguesia de Fátima, coisa que não agitou excessivamente ninguém. Só que a história não ficou por aqui: entre Maio e Outubro de 1917, os pastorinhos viram a Virgem (quatro vezes), com quem Lúcia directamente falou e de quem, na versão oficial, recebeu, um "segredo".
Fátima fica ao pé do Entroncamento, na altura o nó de toda a rede ferroviária portuguesa. Como a linha de 1866 "fez" Lourdes, o Entroncamento "fez" Fátima. Se os pastorinhos vivessem em Bragança, nunca se teria ouvido falar deles. Com o tempo, claro, o carro e o autocarro substituíram o comboio e o Entroncamento deixou de contar. Infelizmente, o problema é agora a "internacionalização" de Fátima e essa "internacionalização" requer um aeroporto. O Vaticano fundou uma companhia low cost para o "turismo religioso", inaugurada esta semana com um voo Roma-Lourdes. Se o Estado português não intervier (pagando um aeroporto, evidentemente), Fátima está em risco de se tornar um "destino" secundário e de perder 150.000 peregrinos por ano. Resta saber se o Estado vai ou não subsidiar a Igreja. Com o nosso dinheiro.»

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Quem conta um conto acrescenta um ponto?

O blogue Movimento Verde Eufémia reproduz um texto, supostamente publicado no Brasil, sobre o «milho de Silves», em que, preto no branco, se escreve:
«A ação foi liderada por pequenos agricultores, ecologistas e cidadãos “preocupados em restabelecer a ordem democrática, moral e ecológica e defender os direitos e bem-estar das comunidades de trabalhadores”
Gostei, sobretudo, dos pequenos agricultores. Há fotos históricas em que fizeram desaparecer personagens. Neste caso, adicionam personagens às fotos.

Júdice dixit.

Nas entrevistas de Agosto do DE, pela mão de António José Teixeira (como diz João Gonçalves «foi a coisa mais estimulante que apareceu nos jornais durante este verão»), calhou a vez, hoje, a José Miguel Júdice. De toda a entrevista retenho o seguinte:
«O país virou muito para a direita. Eu deixei-me ficar. Fiquei mais ou menos no mesmo sítio onde estava há vinte e tal anos… O PSD tem de se reinventar ideologicamente. O espaço que ocupou, por causa da esquerdização enorme do PS a seguir ao 25 de Abril, foi tomado pelos socialistas.»
E, assim, Júdice justifica o seu apoio ao Partido Socialista.
Não vejo onde está a dúvida.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Nacionalidade.

É isto a alma portuguesa, senhores, diz - e bem - Francisco José Viegas.
«Ontem, num restaurante pequeno e familiar ao lado de casa, gerido por brasileiros, havia um «jantar de grupo»: trinta brasileiros comiam churrasquinho, bebiam cerveja e comentavam o campeonato português. (...) Hão-de cantar o hino, hão-de saber quem eram os reis da primeira dinastia, hão-de cozinhar bacalhau e, quem sabe, emigrar para França. Alguns hão-de ter nomes comuns, como Nelson Évora (nasceu na Costa do Marfim, tem pais cabo-verdianos, vive em Portugal desde os seis anos e adquire a nacionalidade portuguesa aos dezoito), outros chamar-se-ão Bosingwa (nasceu em Kinshasa) ou Obikwelo (nasceu na Nigéria). É isto a alma portuguesa, senhores

Novo veto presidencial.

Cavaco Silva vai pautando uma adequada distância em relação ao Governo através do veto de leis jurídica e/ou politicamente sensíveis. Hoje, vetou a Lei Orgânica da GNR, como recentemente se recusou a promulgar os Estatuto dos Jornalistas e a inibição dos contribuintes que queiram contestar as decisões do Fisco. O Governo e o Grupo Parlamentar do PS têm o dever de entender estes sinais de Belém. Ou melhor, têm o dever de entender os sinais da sociedade e dos demais partidos políticos antes da aprovação das Leis. Há matérias em que o consenso não desvirtua o rumo do essencial das políticas governamentais, nem a legitimidade de quem governa. E ajuda muito. Pelo menos não agrava a imagem de «autoritarismo». Aliás, a não promulgação é sempre explorada como um recuo e uma «derrota» política. Mais vale o consenso a anteriori, diria la Palisse.

Notas soltas.

1 – Vamos ouvir falar até ao fim do ano em «democracia participativa» a propósito de uma proposta recentemente aprovada pelo executivo municipal de Lisboa sobre o «orçamento participativo». A participação dos cidadãos no dia a dia na vida política, em princípio, enriquece a democracia. O problema é quando se utiliza esta bandeira com o objectivo de transferir para uma minoria de activistas as decisões que competem aos representantes legitimamente eleitos. Na nossa história recente temos memória de um exemplo de antologia sobre democracia representativa versus democracia participativa: o período entre o 25 de Abril de 1974 e o 25 de Abril de 1975. A «democracia participativa» que avassalava empresas, cooperativas, sindicatos, forças armadas, aparelho judicial, comissões de trabalhadores e de moradores e vida política em geral não correspondia ao sentir dos portugueses que, nas primeiras eleições, a 25 de Abril de 75, rejeitaram a «democracia participativa» que Cunhal designara, então, como «processo revolucionário em curso». Porque temos memória, estamos atentos.
2 - Manuel Villaverde Cabral, em entrevista ao Semanário Económico, sugere que “É importante fazer um partido a partir de Belém». A «ideia» da criação de um novo partido à direita sob a tutela de Cavaco Silva é, apenas, mais uma acha para a fogueira em que o PSD arde lentamente. É um oportuno lembrete para a incapacidade de Marques Mendes.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Porto - Sporting - Futebol e outras ocorrências.

Há quem não goste de futebol, como há quem não goste de caracóis. É tão só uma questão de gosto, apesar de quem não gosta de futebol se insinuar com mais substância (esse «ópio do povo» que enfurece multidões e desvia a sua atenção das «questões importantes» - argumentam para nos assustar). Mas o futebol é uma escola – uma universidade, direi mesmo – da luta política e da luta de classes. Quando, no último Porto-Sporting, um jogador do Porto, no caso concreto Quaresma, desinteressa-se da bola e, intencionalmente, só quer esmagar o pé de um jogador do Sporting, o que vemos nas bancadas? Os sportinguistas pedem cartão vermelho para o infractor. Os portistas gritam: «isto não é um jogo para meninas». Esta é a visão da luta de classes. Não há «factos» que se interpretem acima (ou para além) de uma determinada perspectiva, seja clubista, de classe ou qualquer outra. No caso em apreço, o árbitro, esse, salomónico, talvez por ouvir falar em meninas, mostrou o cartão amarelo, o que equivale a dizer que apreciou o «facto», o referido e muitos outros ocorridos no mesmo jogo, incluindo aquele ressalto para o guarda-redes, de uma determinada perspectiva. Na perspectiva do F C Porto. O árbitro comportou-se, na visão marxista, como a pequena burguesia urbana – a classe média – entalada entre a classe operária e o grande burguesia: acabou por servir quem lhe dá as migalhas. Se assim não fosse o resultado, provavelmente, teria sido outro. Moral da história: quem tiver os árbitros e as classes médias na mão ganha sempre o campeonato.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Encerrado para balanço.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Causas criativas - 5º Dia.

Aguardo, antes da discussão do Orçamento Municipal para 2008, a publicação dos estudos mandados efectuar pelo senhor vereador Sá Fernandes sobre a qualidade das ameijoas e das corvinas do Tejo, bem com o parecer jurídico que fundamente que tais espécies são património municipal, de modo a punir qualquer iniciativa privada que pretenda apanhar os bivaldes ou os pescadores de corvina, gente atrevida que pulula nos cais de Lisboa.

Treinador de sofá

O resultado ainda não comprometeu a qualificação. A exibição, essa, sim, comprometeu.

Diálogos absurdos.

- Chefe: destruíram uma plantação de milho transgénico no Algarve.
- Milho transgénico? Mas quem foi?
- Estavam de cara tapada, mas diz-se que são ambientalistas do BE. A GNR esteve lá, mas não prendeu ninguém.
- Do BE?
- Sim. O Miguel Portas já defendeu publicamente a destruição.
- O BE não interessa. O Governo, homem. O Governo. Temos é que culpar o Governo.
- O Governo?
- Sim, o Governo. A GNR não prendeu ninguém? Vamos atacar já o Ministro da Administração Interna. E o Ministro da Agricultura já foi ao local? Ataquem já o Ministro da Agricultura. Vejam no site do Instituto da Juventude porque eles apoiam todos os ambientalistas. Qual BE. O Governo, homem. Nunca mais aprendes a fazer política.
- Mas, chefe…
- Qual chefe, nem chefe. O Governo. Atacar o Governo. O BE não é do nosso campeonato.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Big Brother.

Já não bastava o controlo da vida de uma pessoa através dos cartões de crédito, das portagens, dos «multibancos» e por aí fora. Agora até já há quem controle quem apaga o quê em qualquer lado. Uns vasculham os IP do governo na esperança da relevância «política» de um qualquer apagão. Normalmente, ninharias. Outros, contra-atacam e «investigam» os IP do jornal Público. Começa a andar meio mundo a vigiar o outro meio. O que a PIDE se teria divertido com estes instrumentos. E a Inquisição? Era um ver se te avias. Não havia hoje uma única floresta. E ninguém se escandaliza com esta bufaria?

Bloco de Esquerda – Um partido transgénico.

O Bloco de Esquerda é um partido comunista, radical, de extrema-esquerda, «geneticamente modificado» pelos seus dirigentes, a fim de enganar os incautos e crescer num meio adverso, pejado de «insectos» e «vírus»: a «democracia burguesa» - a ordem, sobretudo económica e jurídica, imposta pelo capitalismo à classe operária e a todos os trabalhadores. O PCP tem o mérito de ser geneticamente puro. Assume às claras para onde quer ir. Segue o pensamento de Marx, Engels, Lenine, Staline e Cunhal e tem um modelo de «sociedade socialista» – já praticado nas Repúblicas Soviéticas – para onde nos quer levar: o partido único, o Estado detentor de todos os meios de produção, a lei e a ordem da «classe operária». O PCP não esconde esse propósito. A próxima Festa do Avante é uma homenagem à Revolução Soviética de 1917. Ao invés, o Bloco de Esquerda, ala radical do Partido Comunista, é um transgénico. Depois de anos e anos a lutarem em vão por um lugar no Parlamento, assumindo-se como comunistas radicais (quer de tendência trotskista – o PSR, quer maoista – o PC(R)/UDP)) ou a escola dos velhos comunistas – a Política XXI, decidiram modificar o seu código genético para aparecerem todos juntos como «socialistas de esquerda». Mas, grosso modo, na antecâmara, mantêm viva a sua natureza ideológica. Uma parte – o PSR – ainda edita a revista O Combate, é membro da IV Internacional Comunista e organiza-se na associação política socialista revolucionária. Outra parte, mantem-se fiel às suas origens através da associação UDP que edita a revista A Comuna. A terceira parte – os ex-militantes do velho PCP – organizam-se no Fórum Manifesto e editam a revista Manifesto. (A Secção Portuguesa da Liga Internacional dos Trabalhadors - Quarta Internacional , Ruptura/FER, também mexe). Com esta «modificação genética», escondendo que tipo de sociedade quer instaurar (no fundo, mais do mesmo: o partido único, o Estado detentor de todos os meios de produção, a lei e a ordem da «classe operária»), o Bloco, ainda sonha com os amanhãs que cantam: «A estratégia do BE é destruir o actual mapa político português para polarizar um campo novo que lute pelo socialismo (…) Podemos e queremos ter a maioria. As grandes ideias da política socialista que defendemos concretizam-se em programas de governo. Quando tivermos a responsabilidade de uma maioria de mudança estaremos prontos a assumi-la por inteiro.» (Francisco Louçã em entrevista ao DN). Mas o actual estado transgénico do Bloco não vai durar eternamente. Mais cedo ou mais tarde (mais 4 ou 5 desastres eleitorais) a modificação genética solidifica-se e, então, abraçam as «migalhas do poder» com o entusiasmo de quem tem um brinquedo novo ou voltam ao seu estado natural, assumindo o verdadeiro código genético. Neste momento, há sinais para ambos os lados: o «acordo» de Lisboa e a acção «ambientalista», em Silves, são os dois exemplos mais evidentes, mas a discussão interna «fugir do poder ou fugir das responsabilidades» não é de desprezar.
Estamos cá para ver.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

A luta dentro do Bloco está a agudizar-se.

«Sabendo que está a insinuar uma falsidade, o ministro da Agricultura tenta associar o Bloco de Esquerda ao ataque à plantação de milho transgénico no Algarve.» (Daniel Oliveira).
Uns dão a cara; outros tapam-na «por causa da estética do movimento».

O caminho mais rápido para descredibilizar uma causa

É concentrar, por estreitas razões partidárias, o odioso da acção de destruição da plantação de milho, em Silves, no Instituto da Juventude, como assinala Eduardo Graça. Nesta calmaria de Agosto, sem incêndios dignos de grandes notícias, era necessário apontar a mãozinha do Governo à acção de vandalismo da extrema-esquerda «ambientalista». A fraude argumentativa é demasiado notória. Não colhe e tem o efeito perverso de desculpabilizar os autores materiais e morais da dita accão de «restabelecimento da ordem ecológica, moral e democrática».

Treinador de sofá

Como sportinguista gostava muito de Fernando Santos, mas Camacho também é capaz de servir.

A acção foi da IV Internacional ou da Política XXI?

Parece que esta merda dos meninos e meninas do verde eufémia, com o apoio de Miguel Portas, está a dar mesmo para o torto: «O ecoterrorismo chegou a Portugal e é melhor que o mundo saiba que cá não irá longe.» Daniel Oliveira já disse de sua justiça, mas Francisco Louçã, tão pronto a botar faladura noutras situações, demora mais tempo a dizer o que lhe vai na alma do que o Ministério da Administração Interna. Ficou entupido?

Ainda o milho marado.

Nuno Ramos de Almeida procura recentrar a discussão sobre a acção de destruição de uma plantação de milho transgénico, na sexta-feira, em Silves, nos malefícios do dito. Não é difícil estar de acordo quanto aos eventuais efeitos do milho marado, como de todos os transgénicos, apesar de se dever ponderar os aspectos negativos e positivos. Mas, no caso concreto que despoletou estas conversas, a questão central está no modo de alertar as pessoas para as situações. Ora, se um agricultor – um pequeno agricultor, ao que parece – que cumpriu as leis em vigor deve ser tratado como um «negociante dos transgénicos» e, cirurgicamente, arrumado na prateleira da «ganância de uns poucos», então, depreende-se, que está «justificada» a acção de destruição da plantação. Não há meio-termo. Áté Miguel Portas já percebeu que o tiro lhe saiu pela culatra.

domingo, 19 de agosto de 2007

Ambientalistas e «ambientalistas»

Cerca de 600 pessoas posaram nus num glaciar na Suiça para o fotógrafo Spencer Tunick, numa campanha de alerta da Greenpeace contra os efeitos do aquecimento global. A Greenpeace pretende alertar para as consequências do aquecimento global. Spencer Tunick associou-se a esta iniciativa e as fotografias vão fazer parte de uma campanha publicitária que será lançada nas próximas semanas. Os ambientalistas avisam que, se nada for feito, a maioria dos glaciares suíços vai desaparecer até 2080.
Por cá os «ambientalistas» (as aspas significam a instrumentalização e a subserviência destes às estratégias de partidos políticos) em vez de fazerem sacrifícios pelas causas em que se empenham (por exemplo, entrarem em greve de fome pela ilegalização das plantações de milho transgénico) preferem o uso da «via armada» para o «socialismo». A IV Internacional não dorme.

sábado, 18 de agosto de 2007

Diz-me com quem andas dir-te-ei que és.

Miguel Portas acha bem a acção da Verde Eufémia ontem numa propriedade em Silves. Pelos factos descritos sobre o assunto não está só: a GNR, pelo seu comportamento, também deve ter acho bem.

O tiro pela culatra.

Há duas horas entrei num pequeno café no centro de uma vila alentejana. Uma dúzia de clientes, uns sentados nas duas ou três mesas, outros, em pé, ao balcão falavam sobre a acção dos «ecologistas» Verde Eufémia, ontem em Silves. A condenação dos «meninos família» era unânime. O agricultor prejudicado merecia a simpatia dos presentes. Das conversas cruzadas, o que sobressaía era a dicotomia legalidade-ilegalidade («o homem tinha tudo legal e aquela cambada destruiu tudo» ou «meninos família que não têm respeito pelo trabalho dos outros» ou ainda «a guarda estava lá mas nunca está ao lado de quem trabalha»). Se os «ecologistas» pretendiam chamar a atenção para os malefícios do milho transgénico saiu-lhe o tiro pela culatra. Naquele café, como provavelmente no resto do país, ninguém evocou tais malefícios, mas sim a brutalidade da acção de «restabelecimento da ordem ecológica, moral e democrática». É um bom tema para discutir!

No Bloco a demagogia e a insensatez não tem limites.

A «criatividade» do Bloco, pela voz do Zé, a ler no semanário O Sol de hoje, para fazer face às despesas da Câmara de Lisboa: comercializar as amêijoas e as corvinas que se pescam no Tejo e pôr as vinhas e as oliveiras da Tapada da Ajuda a produzir vinho de mesa e azeite. Pela originalidade e, sobretudo, pela «profundidade económica» que resulta destas sugestões, há certamente aqui a mãozinha de Francisco Louça. O Bloco vai reivindicar a chefia do Departamento Municipal de Ameijoas e Corvinas e o Departamento de Vinho Tinto e Azeites, estruturas a integrar no Pelouro do Ambiente.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Verde Eufémia.

A extrema-direita já tem movimentos «ecologistas» ou a extrema-esquerda voltou ao ataque? «O objectivo é restabelecer a ordem ecológica, moral e democrática» - escrevem em comunicado. De cara tapada? Não tenho opinião formada sobre o milho transgénico, mas tenho opinião sobre legalidade democrática. Se esconderam a cara por causa do pólen podem agora aparecer de cara destapada? Ku Klux Klan há muitos, como os chapéus.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

A vida continua...

Hoje, pela manhãzinha, morreram mais 200 (Adenda: este número foi actualizado para 250, e posteriormente, para 500) iraquianos num daqueles diários atentados no Iraque. Um pouco mais do que ontem ou do que anteontem, talvez um pouco menos do que amanhã. A mortandade e o sofrimento daqueles povos não têm conta, nem fim à vista. Mas, estão longe. Não afectam a consciência dos partidários da invasão. Para estes, o «essencial» está resolvido: invadiram um país soberano e assassinaram o ditador em nome da «democracia». Agora, quem lá está que se amanhe. Os partidários da invasão têm mais que fazer do que se preocuparem com «guerras inter-religiosas» e outras ninharias de quem «não sabe ou não quer» viver em democracia. Uns têm que escrever editoriais todos os dias, outros têm que preparar as suas quadraturas na televisão. Sabem que a opinião não é um delito e os milhares e milhares de mortos inocentes não lhes pesam na consciência. A vida continua…

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Eles são assim.

Ainda não começou a chover e já Francisco Louçã está a sacudir a água do capote.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Isto promete...

Por obra e graça de António Costa, o BE vai perder a virgindade do poder. Governa com o PS a Câmara de Lisboa, com o apoio dos «governamentalistas» do Bloco. Para o PS, do ponto de vista táctico é mau (não aquece, nem arrefece uma vez que não permite maioria absoluta, mas obriga a uns quantos números folclóricos à Bloco); do ponto de vista estratégico é bom (vai começar a desnudar o «paleio» oposicionista da extrema-esquerda, ao mesmo tempo que lhes lima as unhas nas próximas legislativas). Dito isto, passemos ao concreto. Sá Fernandes está deslumbrado, baralhado e, como não podia deixar de ser, anda às voltas sem saber para que lado se há-de deitar. Isto é notório na sua entrevista ao DN de ontem. Tanto afirma «Sei exactamente os problemas que a câmara e a cidade têm nas mais diversas áreas.», como de imediato, quase sem respirar, avança: «Há dossiers sobre os quais não tenho ainda ideias concretas.». Mas, ainda está a iniciar o mandato, e já se defende na perspectiva do fiasco: vai concretizar o Corredor Verde do arquitecto Ribeiro Teles? – Pergunta o jornalista, ao que Sá Fernandes responde: «A maior parte dos desenhos estão feitos há 20 ou 30 anos e são cada vez mais difíceis de realizar.» Não está mal para quem fez do corredor verde de Monsanto, praticamente concluído desde 2001, uma bandeira eleitoral. Na mesma linha, quando lhe perguntam pela conclusão do Jardim de S. Pedro de Alcântara, responde: «Estou convencido que até ao Natal, o mais tardar até Janeiro do próximo ano, vamos poder reabrir o Jardim de S. Pedro de Alcântara. Mas a falta de verbas é um problema grande.» Ou seja, se não estiver concluído será por falta de verbas e não pela sua incapacidade. Desculpas de mau pagador, literalmente. Isto promete…

A cartilha.

Anabela Fino é uma refinada «jornalista» do Avante – órgão central do PCP. A senhora é uma daltónica política, como são todos os comunistas. A perturbação da percepção visual-mental incapacita-a de distinguir determinadas situações. A senhora olha para a antiga União Soviética e o que vê: «a democracia mais avançada do mundo». E quando olha para o encerramento de um canal de televisão na Venezuela de Chávez por criticar o poder, ela aplaude e exclama: «a reacção não passará!». Mas, por cá, quando a directora de um museu é substituída porque discorda publicamente da política da Ministra que a tutela, a senhora Fino já não consegue aplicar os critérios anteriores. E, então, revolta-se contra a censura e o fascismo. E lembra-se, então, de Marcelo Caetano: «explicando ao povo a essência da sua democracia: ninguém era impedido de pensar o que muito bem entendesse... desde que estivesse calado.» A senhora Fino, sem querer, o que lhe acontece muitas vezes, caracteriza bem o seu Partido e as «democracias» que defende com unhas e dentes, de Pyongyang a Havana. Desta vez caracterizou-os como salazarista-marcelista. O daltonismo da senhora Fino não lhe permite ver que, no seu Partido, os que «pensam o que bem entendem» só não são presos ou fuzilados porque, aqui, em democracia, não dá. São apenas «expulsos». Mas, onde têm o poder, ainda hoje em Cuba ou na Coreia do Norte, como antes em Moscovo ou em Varsóvia, quem «pense o que bem entende» é preso, torturado ou morto. A senhora Fino só leu uma cartilha e, por isso, está incapacitada (ética, moral e politicamente) de atirar pedras a quem quer que seja. Porque tem telhados e paredes de vidro. Há quem tenha moral para criticar. Manifestamente, a senhora Fino não tem.

domingo, 12 de agosto de 2007

Não se pode nascer em Agosto.

Miguel Torga nasceu a 12 de Agosto. Em São Martinho de Anta, Vila Real. Há 100 anos. Hoje, em Coimbra, terra onde se licenciou em Medicina, onde exerceu a profissão e viveu durante 50 anos, foi inaugurada a Casa-Museu Miguel Torga e uma exposição retrospectiva da vida e obra do escritor e poeta, bem como um monumento, no Largo da Portagem. Nestas comemorações do centenário do nascimento de Miguel Torga, o Governo fez-se notar pela ausência. É um mau sinal. Bem avisava o poeta: «E na face do muro uma palavra a giz. MERDA! – lembro-me bem

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Até amanhã.

Ricardo Paula. (Acrílico sobre tela.)

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Gostei de ler:

Dalila e os filisteus. De Diogo Belford Henriques (31 da Armada). DALILA RODRIGUES OUT. Do Eduardo Pitta (Da literatura).
Dalila Rodrigues. De Miss Woody (o regabofe)
Dos movimentos de cidadania e do exercício do poder. Do Luis Novaes Tito (Tugir).

Agosto em Lisboa.

Helena Roseta, ontem à noite, senhora do seu nariz, disse que Sá Fernandes, mais conhecido pelo empata túneis, teria dito durante a campanha uma coisa e, agora, com o cheiro a pólvora por perto, ou seja, ordenado, carro, motorista e dezenas de assessores, está a fazer outra, ao que o dito Sá Fernandes, no seu estilo pragmático, de quem luta há dezenas de anos por ser «alguém na vida», respondeu que, afinal, era ela, Helena Roseta, que não tinha percebido patavina do que ele, Sá Fernandes, homem de uma só palavra, disse durante a campanha eleitoral. Posto isto, a que não deve ser estranho estarmos no mês de Agosto, uma pergunta me assalta: alguém pensa que algum lisboeta se vai esquecer, quando chegar a altura, de que Sá Fernandes contou apenas com 6% dos votos em Lisboa?

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Apenas para relembrar aos mais distraídos e para que conste.

O mais importante do agora badalado corredor verde de Monsanto (da autoria do Arq. Ribeiro Telles) foi executado entre 1997/2001, no mandato de João Soares: todo o ajardinamento do Alto do Parque Eduardo VII (a maior mancha por ocupar do dito corredor que começa nos Restauradores), a que foi dado o nome de Jardim Amália Rodrigues, e as denominadas Hortas de Campolide, atrás da sede da polícia municipal. Falta completar apenas o espaço da Quinta José Pinto e uma passagem aérea de ligação a Monsanto. Não nos venham depois contar histórias da carochinha.

Promessas à cobrança, 1

Memórias de campanha eleitoral, 1

O Zé faz falta?

António Costa, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, à falta de melhor, e em estado de necessidade, estabeleceu um acordo com o Bloco de Esquerda, na sequência do qual a Sá Fernandes é atribuído o pelouro dos espaços verdes e jardins. Quando conhecer o acordo falarei sobre isso mas, para já, há a reter dois aspectos importantes: primeiro, o Bloco ensaia, aqui, na Câmara de Lisboa, pela primeira vez com significado (a excepção é Salvaterra de Magos), o exercício do poder. Talvez um primeiro teste para o vir exercer a nível nacional quando as circunstâncias o permitirem ou, em caso de desastre, para demonstrar que o Bloco é só «garganta»; segundo, dois anos é tempo suficiente para realizar muito trabalho, tal como Sá Fernandes sempre exigiu que outros fizessem, e a fasquia está tão baixa (o estado dos espaços verdes e dos jardins de Lisboa bateu no fundo) que o senhor vereador do Bloco tem condições para fazer um «brilharete». A minha opinião é que não vai fazer nada que se veja e vai embrulhar-se em politiquices para disfarçar a incapacidade. Mas, vamos dar-lhe o benefício da dúvida… e ter esperança na recuperação dos espaços verdes de Lisboa.

4 milhões fazem férias na praia!

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Uma boa primeira página.

É assim tão difícil entender?