terça-feira, 31 de outubro de 2006

Paninhos quentes?
Um anónimo escreveu num blogue provavelmente uns disparates sobre plágios, envolvendo Miguel Sousa Tavares. Este escreveu no Expresso uns disparates sobre os blogues e a blogosfera. Nada que me preocupe, à primeira vista, estão bem um para o outro.

Memórias. «Naquele Verão de 1958, e por hábito já arreigado, Oliveira Salazar encontra-se no Forte de Santo António do Estoril. (…) Portugal reconhece o novo governo do Iraque, saído de uma revolução sangrenta. (Tem importância este ponto. Lisboa desejava marcar vontade de boas relações com o Iraque, sem embargo da posição de ataque que este tomava contra Portugal na ONU. Razão fundamental: tinha origem nos petróleos do Iraque uma das principais fontes de rendimento da Fundação Caloustre Gulbenkian.) Franco Nogueira, "Salazar, 1958-1964". Sublinhado meu.)

O que é isto? «a censurável bovinidade que nos afronta» - resquícios da boçalidade praticada naquela casa da rua António Maria Cardoso ou masturbação com orgasmo simulado?

Novo livro de Encandescente - Palavras Mutantes.

Saiu o novo livro da "Coleção de Poesia Encandescente" Palavras Mutantes.De momento ainda não à venda nas livrarias, o livro pode ser adquirido através de encomenda à editora.

Há temas que se ilustram com uma mera citação:

A Era do Vazio e o Aborto.

Li a recomendação da leitura da Era do Vazio, do filósofo francês Gilles Lipovetsky, aos partidários do sim no próximo referendo, feita por Jorge Ferreira e, sinceramente, fiquei banzado. Pela parte que me cabe li-o atentamente há 15 anos (como se pode ver pela imagem o meu exemplar, acima reproduzido, já resistiu a uma inundação ou a uma cerveja entornada) e numa altura em que ainda sublinhava os livros a caneta de feltro, escrevia notas à margem, e concordava com o autor com pontos de exclamação ou discordava com pontos de interrogação – um hábito que ainda transportava da adolescência. Tinha relido, num folhear ocioso, os sublinhados e as notas à margem duas ou três vezes durante os últimos quinze anos, como o tinha feito a outras obras do autor, nomeadamente o Império do Efémero. Mas, quando li a recomendação do Jorge Ferreira, interroguei-me: o que me terá escapado na leitura da Era do Vazio (e de Gilles Lipovetsky, em geral) que permite a sua recomendação aos partidários do sim no próximo referendo? Longe de casa, num hotel em Londres, com um teclado sem acentos adequados, e sem uma releitura do livro, contive uma reacção à flor da pele.
Em primeiro lugar é necessário dizer que os textos reunidos no referido livro foram publicados em revistas entre os anos de 1979 e 1982, ou seja, há 25 anos. O próprio autor já disse, numa entrevista: “… tudo isto faz com que rejeite o conceito de pós-moderno. Esse conceito tinha um sentido cultural e não estrutural”. Mas passemos à frente. Em breves palavra, sintetizo: todo a obra (o pensamento) de Gilles Lipovetsky passa pela demonstração de que o tempo individual venceu o tempo colectivo, o que equivale a dizer que em termos político-ideógicos a democracia ocidental venceu a revolução marxista: “doravante o que se quer é viver já, aqui e agora, ser-se jovem em vez de forjar o homem novo” – escreve Gilles Lipovetsky na obra citada. A "luta de classes" cedeu o lugar "à busca da qualidade de vida, paixão da personalidade, sensibilidade extrema..." E o tempo individual, entre centenas de outras coisas e de outros comportamentos, desde a moda à arte, comporta o “dispor do corpo”. E Lipovetsky concretiza na obra citada, página 29: “No entanto, algo de mais fundamental se encontra em jogo: assim, através do combate pelo aborto livre e gratuito, é o direito à autonomia e à responsabilidade em matéria de procriação que se visa; trata-se de retirar a mulher do seu estatuto de passividade e de resignação relativamente ao carácter aleatório da procriação. Dispor de si, escolher, deixar para trás a máquina reprodutora e o destino biológico e social” (Sublinhado meu). Será que Jorge Ferreira não entendeu que a Era do Vazio corresponde à era do individuo por oposição à Era do Destino Marcado ocupada pelo pensamento marxista? Que a Era do Vazio é, para o autor, uma coisa boa e não uma coisa má. É caso para dizer: recomenda-se a leitura da Era do Vazio, de Gilles Lipovetsky, aos partidários do não no próximo referendo. Têm muito a apreender com a leitura deste livro e dos demais do autor.

domingo, 29 de outubro de 2006

Até amanhã. (VALERY KOSORUKOV , Oil on Canvas, 24" x 30")

Pequenos prazeres (2).
A posição de Daniel Ortega e de Rafael Correa, candidatos de esquerda às eleições presidenciais na Nicarágua e no Equador, contra qualquer permissão legal do aborto nos seus países, significa apenas que o mundo não pode ser retratado a preto e branco, como é norma entre os fundamentalistas.

Pequenos prazeres.
Há 3 dias, na Nicarágua, foi retirado do Código Penal o artigo que permitia o aborto terapêutico, como aqui escrevi ontem, com o apoio dos deputados Sandinistas e de Daniel Ortega, candidato às eleições presidenciais na Nicarágua. Também no Equador, onde em Novembro se disputa a segunda volta das presidenciais, Rafael Correa, o candidato da esquerda, apontado como grande amigo de Hugo Chaves, enquanto “católico de esquerda”, como o próprio se proclama, rejeita o aborto. Em Portugal, os partidários do não ao próximo referendo, na sua luta pelo “direito à vida” , finalmente, estão ao lado de Daniel Ortega e Rafael Correa. Parabéns!

Parafraseando.

Luis, não te excites!
«Em Portugal ninguém lia, era tudo uma corja de analfabrutos, até as grandes superfícies passarem a vender livros aos montes.O tal nicho de mercado abriu e foi ver frustradas sexuais, abandonadas pelos maridos aos quarenta, a darem em escritoras obstinadas, a fazerem catarse e a ganharem bem com isso.Jornalistas -papagaios que liam noticias no teleponto transformados em escritores de grande sucesso.A fome de ler deu em empantorranço de letras.Na verdade esta cultura colorida permite mais mercado, mais trabalho, mais emprego, mais dinheiro em circulação, todos ganham.Já tinhamos o telelixo passámos a ter o literalixo.» (Luiz Carvalho, Instante Fatal) .

Citações:
«... a "direita" que se proclama direita tem em Portugal a grande desvantagem de já haver uma direita, popularmente conhecida por PSD. »
(Vasco Pulido Valente, Público, 29.10.06)

Obrigado:
À Fatima pela fotografia de David Douglas Duncan.

sábado, 28 de outubro de 2006

Até amanhã.

A frase da semana ou melhor era impossível:
«Enquanto que o Brasil progride com Lula, Portugal retrocede décadas com Sócrates. A única coisa que continua em alta em Portugal é mesmo a corrupção.» (Comentário do autor de Rosas do Luxemburgo a um post de Puxa Palavra.)

Ler os outros:
«Seria um acto de coragem Carvalho da Silva vir a público assumir a estratégia concertada para vaiar Sócrates sempre que ele aparece em público.», no Jumento.

Daniel Ortega, o aborto e as eleições na Nicarágua.

No dia 5 de Novembro há eleições presidenciais na Nicarágua. Daniel Ortega, antigo presidente do segundo país mais pobre da América Latina, é o candidato da Frente Sandinista de Libertação Nacional e está à frente nas sondagens. Acontece que, nesta campanha eleitoral, o grande tema de debate está a ser a questão do aborto. A Igreja Católica exigiu que se eliminasse do Código Penal o artigo que protege o aborto terapêutico (violações e risco de vida para a mulher grávida), único permitido. A maioria dos deputados está de acordo com a Igreja Católica. Mas, a principal surpresa veio da Frente Sandinista e do candidato Daniel Ortega que se declarou o maior aliado do “direito à vida”. Em Portugal, os partidários do não têm agora um companheiro à altura das circunstâncias (a que grande parte deles chama ditador). Para que não restem dúvidas sobre os argumentos de Daniel Ortega, transcrevo as declarações da porta-voz e chefe da campanha eleitoral, Rosario Murillo, esposa do próprio candidato: “No al aborto, sí a la vida!" Nuestros candidatos, nuestros líderes, nuestros Alcaldes, nuestros Diputados... nuestra Bancada va a emitir un pronunciamiento el día de hoy. Somos enfáticos: "No al aborto, sí a la vida! Sí a las creencias religiosas; sí a la fe; sí a la búsqueda de Dios, que es lo que nos fortalece todos los días para reemprender el camino”. Há aliados que não lembram nem ao Diabo!
PS: Como reagirá a malta do PCP/BE a este contratempo? Assobia para o ar, como é hábito? E este pessoal todo: Blogue do Não, Pela Vida, Quero Viver, Razões do Não, Sou a Favor da Vida, Viver a Sua Vida, também assobia para o ar?

Mãos vazias.

Quero um poema puro, um poema duro,
Um poema grito.
Quero um poema estrondo, um poema urro,
Um poema bramido.
Quero um poema guerreiro, um poema aguerrido,
Um poema combate.
Quero um poema bomba , que tudo destrua,
Que tudo arrase…
….
E quero caminhar sobre as cinzas,
E descobrir os meus pedaços,
E reconstruir o presente,
E soltar o meu grito de combate:
Eis-me!
Dura, inteira, guerreira! ~
Eis-me!
Caneta-arma,
Caneta-amor!
Soltando o meu poema duro,
Cantando e chorando a dor.
Gritando o meu poema urro,
Entoando cantos de amor.
E dando-me em cada verso.
E entregando-me em cada poesia.
E ficar só…
Tão só no fim do poema,
Estendendo as mãos vazias.

(encandescente, Erotismo na Cidade)

Brincadeiras.
Marcelo Rebelo de Sousa continua a brincar aos políticos, como a minha prima brincava com bonecas quando era pequenina, mas poucas dúvidas restam de que é mais um sinal da corrida à sucessão de Marques Mendes.

O aborto.

Sobre esta “história” do aborto (ou da IVG), um assunto incontornável até à realização do referendo, Eduardo Pitta (Da Literatura) ao escrever: “Ponto um: não gosto de referendos. Ponto dois: o aborto não é matéria referendável. Existe uma lei que é para cumprir.”, exigiu-me uma reflexão, sobretudo porque estou completamente de acordo com ele, incluindo o não gostar de referendos. No entanto, tudo isto tem um percurso. Em primeiro lugar, repito: a lei actual é suficiente para que a esta questão não se colocasse mas, no entanto, é dispensável dizer que a lei actual é letra morta (devido à confluência de vários poderes) e, por mais voltas que se dê, não é possível ressuscitá-la. Em consequência é necessário encontrar uma solução – uma nova lei para ser cumprida que ultrapasse os “traumas” actuais. Há quase 10 anos, em finais de 1997, a Assembleia da República, aprovou essa necessária Lei de despenalização do aborto (com o meu voto favorável, enquanto deputado do PS). Depois da aprovação da Lei, António Guterres, então primeiro-ministro, e Marcelo Rebelo de Sousa, então líder do PSD, acordaram que esta só entraria em vigor após referendada. O referendo realizado teve os resultados que todos conhecemos. A partir desse momento, goste-se ou não de referendos, a aprovação de qualquer Lei de despenalização do aborto deixou de ser uma matéria da competência política do Parlamento. Só por referendo se pode resolver esta questão. Ora, não sendo possível aplicar a lei actual (e não vale a pena argumentar com o irrealista “devia ser cumprida”) que resolveria satisfatoriamente esta questão; nem sendo politicamente ajustado encontrar uma solução no quadro da Assembleia da República, não resta outra solução senão promulgar uma nova lei, sufragada em referendo e que, vou ser crédulo, possa ser aplicada. Por isso, vou votar sim no referendo.

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

Arder em lume brando.

A quase três anos de eleições legislativas a sondagem hoje publicada pelo DN, que tantos comentários suscitou, é favorável ao PS (e ao Governo) e impiedosa para a única oposição susceptível de substituir o PS no Governo – o PSD. Deixemo-nos de subterfúgios e de paninhos quentes: um governo (e um partido) fustigado durante quinze dias por calinadas sucessivas de vários dos seus ministros e secretários de Estado – desde que o ministro da Economia “acabou” com a crise, os seus parceiros tomaram o gosto pelo disparate – e por uma manifestação, a propósito da qual “todos os observadores bem colocados” consideraram tratar-se do maior protesto nacional dos últimos vinte e cinco anos, digamos que, no mínimo, é obra, neste quadro, recolher intenções de voto no limiar da maioria absoluta. Se lhe juntarmos o facto de, no mesmo período, ter sido apresentado um Orçamento de Estado recheado de “atentados às classes trabalhadoras” e de algumas gaffes técnicas, podemos mesmo dizer que Marques Mendes não convence ninguém. Na circunstância, e durante os próximos tempos, um a dois anos, ninguém está interessado em jogar pela borda fora o inócuo líder do PSD: nem o PS, nem o PCP/BE; nem o PSD – todos por razões óbvias. Marques Mendes está, pois, a arder em lume brando!

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

Citações.

Por não ter link disponível, transcrevo excerto de A degradação da privacidade e da intimidade, de José Pacheco Pereira, no Público de hoje. (Sublinhados meus).

«Tudo começou no Expresso de 14 de Outubro, há apenas dez dias. É verdade que já havia nas revistas do coração e nos tablóides uma exploração do mesmo tema, mas nunca tinha chegado à imprensa que se pretende séria e responsável. Para se perceber como é que a coisa funciona, basta seguir a sequência: no dia 14, o Expresso titula na primeira página "Casal Sócrates pelo sim", referindo-se à presença de José Sócrates enquanto secretário-geral do PS e uma jornalista descrita como sua "namorada" num debate sobre o aborto. O título era completamente abusivo: a presença dos dois na sala e o facto de fazerem intervenções sobre o mesmo tema era mais que justificado pela circunstância de ambos, cada um de per se, como indivíduos, terem revelado interesse pelo tema e pela causa e não por serem um "casal" que era o que o título queria dizer num mecanismo puramente tablóide. Acresce que, quer um, quer outro, independentemente das relações que tenham ou não tenham, são pessoas que mantêm sobre a sua vida privada uma sadia reserva que cada vez menos se observa em pessoas sujeitas a uma exposição pública. O título do "casal" não tinha qualquer relevância jornalística, destinava-se apenas a alimentar o voyeurismo de um público que respeita pouco ou nada da privacidade alheia. Não havia um átomo de interesse público em tal "revelação", ou sequer na sugestão ofensiva para a individualidade de cada um, e aqui obviamente mais ofensiva para a mulher do que para o homem, de que ela vale mais como parceiro de um "casal", do que pelo seu mérito próprio. Os jornalistas do Expresso não podiam deixar de saber o que estavam a fazer. Quem conhece os mecanismos da comunicação e a selvajaria deontológica em que está hoje mergulhada sabe muito bem que, quando um jornal de "referência" faz aquele título, abre as comportas a uma enxurrada que, a partir da intromissão de privacidade inicial, normaliza o delito. O Expresso deu legitimidade a que todos pudessem voltar a atenção do seu voyeurismo, do seu machismo, para o "casal", neste caso em particular para a "namorada". E nos últimos dez dias a enxurrada do lixo tablóide aberta pelo Expresso levou outra vez todas as revistas do coração a pegar no mesmo assunto, agora já livres do gueto inicial onde estavam acantonadas e mais à vontade para irem mais longe, e a imprensa séria a colocar-se ao mesmo nível. Hoje [ontem], no momento em que escrevo, a Focus tem como título da primeira página "Conheça a namorada do 1.º ministro", e a procissão ainda vai no adro

Pequenos prazeres.

«Luanda, 24 Out (Lusa) - O Presidente de Angola visita a Rússia entre 30 de Outubro e 01 de Novembro, a convite do homólogo russo, Vladimir Putin, para reforçar as relações de corrupção bilaterais, foi hoje anunciado em Luanda.
[1º parágrafo de um telex da Lusa emitido ontem (24 OUT 2006) pelas 20h35]»

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

Contributos.

Tenho lido atentamente os textos (1, 2, 3) que Maria do Rosário Fardilha tem escrito no Divas & Contrabaixos a favor da despenalização do aborto nas condições previstas na pergunta a referendar. Da mesma forma que leio-o todos os textos sérios e convictos contra a despenalização, como é o caso de Francisco Sarsfield Cabral (que é capaz de escrever: "Claro que nem toda a gente partilha esta minha convicção. E eu respeito quem pensa de outra maneira.") O que não tenho é pachorra para ler clichés, frases feitas, propaganda primária e o ruído próprio de quem nada tem para dizer (às vezes a raiar um fundamentalismo que se confunde com atraso mental ou vice-versa), seja produzida por um ou por outro lado, do tipo "betinhos" e “associações católicas de famílias numerosas” ou Odete Santos e os padrecos do Bloco de Esquerda.

PS: A propósito, onde é que isto se integra?

Até amanhã.

(Amedeo Modigliani - Livorno, 12 de Julho de 1884 - Paris, 24 de Janeiro de 1920)

Política e literatura.
«Cada vez que me han perguntado por qué estuve dispuesto a dejar mi vocación de escritor por la política, he respondido: "Por uma razão moral". Pero alguien que me conoce tanto como yo, o acaso mejor, Patricia, no lo cree así. "La obligación moral no fue lo decisivo - dice ella -. Fue la aventura, la ilusión de vivir una experiencia llena de excitación y de riesgo. De escribir, en la vida real, la gran novela.» (Mario Vargas Llosa, El pez en el agua)

terça-feira, 24 de outubro de 2006

Conselheiros Acácios.

Esta semana passou pela blogosfera uma pequena polémica bem interessante, quer pelo tema, quer pelo conteúdo dos argumentos: casamentos e protecção equivalente nas uniões de facto, quer entre pessoas de sexo diferente, quer entre pessoas do mesmo sexo. A partir de umas frases sobre costumes de Agustina Bessa-Luís, numa entrevista ao Sol, João Gonçalves dissertou sobre o tema. Eduardo Pitta complementou com A Sibila e os maricas, a que veio acrescentar novos textos, como resposta a Helena Matos ou como esclarecimentos. Alguns blogues – poucos – comentaram os textos citados. De qualquer modo, uma coisa é certa: parece que o tema não suscitou a habitual participação da maralha que opina sobre tudo. Não tenham dúvidas, o Eça tinha razão: a maioria dos portugueses são verdadeiros Conselheiros Acácios.

Para ler e pensar: «Ser professor na Suécia».

Rótulos.
Ontem, ao visitar pela primeira vez o blogue do não, deparei-me com a epígrafe do blogue: “PORTUGUESES LIVRES”, a qual me suscitou uma observação à volta da presunção e da água benta. O meu querido amigo João Gonçalves, um espírito livre, informado e acutilante, não enfiou a carapuça e, na volta do correio, deu-me a explicação sobre tal epígrafe. João: compreendi as tuas razões, mas não posso estar de acordo. Porque Portugueses livres há nos dois lados, no lado do sim e do lado do não, e hipócritas também há nos dois lados, como tu bem sabes. Por isso, a questão não passa por aí. Infelizmente, não há nada a fazer (por culpa de ambos os lados): este debate é sobretudo um debate político, um confronto alicerçado na velha dicotomia esquerda-direita, no qual as verdadeiras razões que fundamentam as opções em causa vão ser apenas vagamente afloradas. A propósito: o blogue do não já tem hino! É lindo!

Ainda agora a procissão vai no adro...

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

Memórias. (Budapeste, 1956, Erich Lessing.)

A ler:
«Estranha forma de escrita», onde um anónimo fala em plágios. (via Revista Atlântico)

Dentro de 100 mil anos seremos todos pretos?

Silêncio.

O Franscisco disse ( e escreveu), após o o Portugal-Inglaterra, no mundial de futebol, que durante uns tempos não diria nada sobre Ricardo, nem que ele deixasse a baliza esburacada. Eu sigo o mesmo caminho: depois de ler esta notícia nos próximos meses não escrevo nada sobre o Iraque, nem que Bush venha dizer que atolou os EUA noutro Vietname.

Sinais?
No Sábado, às dez e meia da manhã, em Mesão-Frio, o Expresso já estava esgotado, enquanto o Sol transbordava na tabacaria.

Presunção e água benta cada um toma a que quer… Alguns cidadãos, quase todos nomes conhecidos desta coisa a que vulgarmente se designa por blogosfera, juntaram-se no blogue do não. Está bem de ver que este Não tem a ver com o próximo referendo à despenalização do aborto até às dez semanas. Até aqui tudo bem. Mas, curioso, é o rótulo desta garrafa: Portugueses livres – assim se auto-intitulam. A ideia é, certamente, por contraposição, rotularem os partidários do Sim como Portugueses não livres (presos, amarrados e por aí fora). É caso para dizer: presunção e água benta cada um toma a que quer. Sinceramente, neste caso, fico sem saber se há mais presunção, se água benta...

domingo, 22 de outubro de 2006

Loiras e morenas.

Como dice The Egotist, ver a Dita von Teese desnuda no es una revelación pero ver a Scarlett blandiendo un latigo con una Dita desnuda merece al menos dos avemarías y tres padrenuestros. Benditas sean las dos. (la petite claudine)

Fim de semana

...desvendando o Douro acompanhado por boa comida e bom vinho. A chuva não incomoda, embeleza.

sábado, 21 de outubro de 2006

Escrever direito por linhas tortas.

O "sistema" ensaiou, para descargo de consciência, a acusação a seis engenheiros, um deles com 82 anos e outro com 77, pela queda da ponte de Entre-os-Rios e, consequentemente, pela morte de 59 pessoas. Todos sabemos, incluindo a acusação protagonizada pelo Ministério Público, que a queda da dita ponte se deveu a múltiplos factores. Naturais uns, certamente. Mas, sobretudo, devido à incúria, à falta de profissionalismo e de brio, ao "deixa andar" que, regra geral, nos caracteriza: ascendendo do fundo dos tempos, vai do contínuo ao Ministro, do engenheiro ao cangalheiro que nos amortalha. E também à nossa grande defesa: a burocracia. Daí que, desde o primeiro momento, me arrepiou ver aqueles seis homens, ali sentados, no banco dos réus, em sofrimento, pela desonra de uma acusação que devia recaír sobre todo o país. O Tribunal fez justiça, absolvendo todos os arguidos. Com o respeito que a memória das vítimas nos merece não se deve desligar este julgamento - a procura de bodes expiatórios - do pedido cível, em que, para além do Estado, as famílias das vítimas reclamavam aos arguidos num total de 13,117 milhões de euros. Com esta sentença, tal pedido esfumou-se!.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

Sinceramente...
Ao ler isto de Pedro Arroja concluí que o Blasfémias fez uma má aquisição: prometeu-nos um ponta de lança e saiu um defesa atabalhoado.

Completamente de acordo:
«A PGR, como os professores, está refém do seu sindicato. Oxalá Pinto Monteiro (que vem de fora) não transija e, dia 3, apresente a votos, de novo, Gomes Dias. Se o não fizer, jamais mandará realmente João Gonçalves (Portugal dos Pequeninos).

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

A Direita chilena.

Joaquín Lavín, foi o candidato de Direita derrotado, na segunda volta, por Ricardo Lagos nas presidenciais no Chile, em 1999. Outra vez candidato em 2005, contra Michelle Bachelet, foi de novo derrotado, desta vez sem conseguir atingir a segunda volta. No Domingo, numa entrevista ao jornal La Tercera, Joaquín Lavín reconhece que o principal factor que está na origem das sucessivas derrotas eleitorais da direita chilena é a negação em assumir as responsabilidades que teve no atropelo aos direitos humanos ocorridos durante a ditadura de Pinochet. Com as devidas distâncias, não se passará o mesmo com certa direita portuguesa? Certa direita portuguesa entra em estado de choque porque não consegue ultrapassar os números eleitorais dos trotskistas. Em vez de procurar os culpados por todo o lado, talvez fosse mais profícuo essa certa direita olhar-se ao espelho, tal como parece que a Direita chilena começou a fazer. (via Periodismo Global).

Foto do dia. (NY, brooklyn bridge, jordan matter photography.)

Disparates (2)

O secretário de Estado Adjunto da Indústria e da Inovação, Castro Guerra, em declarações à TSF, culpou os consumidores pelo aumento de quase 16% no preço da electricidade. Disse, explicitamente, que tal aumento só pode ser imputado aos consumidores. E acrescentou para que não houvesse dúvidas: "São os consumidores que devem este dinheiro. Não é mais ninguém". Isto é um perfeito disparate de quem quer sacudir a àgua do capote. Ora, pergunto: quem fez a lei em vigor até este ano, a qual impedia uma actualização de preços acima da inflação? Foram os consumidores? Pergunto ainda: era possível um consumidor pagar a electricidade acima das tarifas fixadas por lei? Deixem-se de disparates: o Estado (os Governos sucessivos que legislaram sobre a matéria) são os únicos responsáveis! Só faltava agora aparecer a moda, quando se aumentam brutalmente os impostos, de um qualquer governante mal preparado, nos dizer: os contribuientes é que são os culpados porque pagaram até agora impostos abaixo das necessidades das despesas do Estado. É caso para ironizar: já que o Ministro da Economia acabou com a crise a semana passada já podem fazer os aumentos que lhes der na gana.

Por que convidar partidos que suportam ditaduras?
«Para os congressos do PS convidam-se os partidos estrangeiros que se possam inserir com um certo grau de probabilidade na grande família dos socialistas, sociais-democratas e trabalhistas ou que, não se inserindo aí, pelo menos defendam ideias básicas de democracia pluralista, respeito pela cidadania e defesa do Estado de direito. O resto, incluindo os inimigos juramentados do conteúdo da Declaração de Princípios do PS não há realpolitik partidária que deva cobrirPaulo Pedroso (Canhoto).
Acrescento: o resto é conversa fiada.

Salazar em Banda Desenhada.

João Paulo Cotrim e Miguel Rocha contam uma inédita história da vida de António de Oliveira Salazar da infância à morte em banda desenhada. O lançamento será em Lisboa, dia 30 de Outubro pelas 18 horas, no Salão Nobre do Ministério das Finanças , Ala Oriental da Praça do Comércio (Átrio das Exposições).

Tortura e silêncios cúmplices.

Ontem, o Presidente norte-americano George W. Bush assinou a lei que autoriza a tortura a suspeitos de terrorismo e os impede de serem julgados nos tribunais, atribuindo esta função a comissões militares. O alcance desta medida e as suas consequências nos fundamentos que sustentam os Estados democráticos ainda está por perceber. A partir de ontem, nos Estados Unidos, um suspeito de terrorismo passa a ser uma não-pessoa: pode ser torturado e, para compor o ramalhete, não lhe é conferida qualquer protecção nem direito a julgamento judicial. Todos sabemos, porque a história abarrota de exemplos, como estas "excepções"no sistema democrático se transformam rapidamente em regra. Mais grave ainda que a intenção do legislador é o livre arbitrio policial na aplicação da lei - serão suspeitos de terrorismo todos aqueles que a policia quiser. Os direitos de qualquer cidadão ficam seriamente ameaçados. (Aguardei um dia para apreciar a reacção do pessoal do costume - aqueles intrépidos defensores dos direitos humanos que seleccionam o exercício de tais direito à medida do que lhes convém - e, como era de esperar, uma cortina de silêncio caiu à volta do assunto.)

terça-feira, 17 de outubro de 2006

Até amanhã. (Tamara Lempicka, óleo sobre tela.)

Masoquismo. A RTP1 está a transmitir um resumo alargado do jogo Celtic de Glasgow - Benfica, o qual terminou há mais de 1hora, tendo o Benfica sido derrotado por 3-0. Esta transmissão terá algum espectador?

Mais impostos? (Ilustrações de Dave Decat)

Criatividade jornalística.
A comunicação social está no ponto de rebuçado: 40 pessoas ocupam o Teatro Rivoli no Porto mas, quem ande distraído ou mais ocupado, fica com a impressão que está meia cidade do Porto a ocupar o Teatro.

Prós e contras.

A frase mais lúcida da noite é de Fernando Ruas: «Se o senhor doutor Saldanha Sanches pudesse designava os presidentes de Câmara

Desejos. (imagem daqui)

quem deseje tanto que a Proposta de Lei do Estatuto do Jornalista seja aprovada na Assembleia da República que, apesar de não ser hoje mais do que uma Proposta, já a está a aplicar. Para além disso, acrescento: se eles soubessem o que é censura...

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

Dizer muito com poucas palavras.
«Em Portugal discute-se muito, pensa-se pouco, trabalha-se ainda menos e reza-se quanto baste.» (No Jumento)

Cegueiras e outros desvarios.

Agora, alegremente, já se compara o convite ao PC Chinês para estar presente no Congresso do PS com a presença das Farc na Festa do "Avante". Voltarei ao assunto com mais tempo mas, por agora, apenas direi que esta posição destina-se a desvalorizar o papel terrorista das Farc. O Hammas pode ser convidado para um congresso do Bloco de Esquerda, e aí ser aplaudido de pé, como o Partido Republicano do senhor Bush pode ser convidado pela Nova Democracia (eles é que não devem aceitar), apesar dos milhares de mortes no Iraque e da tortura e prisões ilegais em Guantanamo. São decisões questionáveis ao nível político. As Farc são outra coisa.

Tiananmem.

Estive na Praça Tiananmem 11 anos depois do massacre de 4 de Junho de 1989. Não vi tanques, nem manifestações, mas apenas turistas de máquina fotográfica. No entanto, era fácil perceber que cada cidadão que circulava na praça era vigiado por dois polícias à civil. Vem esta insignificante lembrança a propósito do despropositado convite ao Partido Comunista Chinês para se fazer representar no próximo Congresso do PS. As relações do Estado português com o Estado da República Popular da China são normais e desejáveis, mas relações partidárias? Na minha actividade profissional relaciono-me com quem tenho de relacionar-me, mas para jantar em minha casa só convido os meus amigos.

domingo, 15 de outubro de 2006

Terramoto. (Actualizado)

Realizam-se, hoje, eleições presidenciais no Equador. Rafael Correa, 43 anos, amigo do presidente venezuelano Hugo Chávez, é o candidato favorito nas sondagens divulgadas a meio da semana. Às 10.34, um abalo sísmico com magnitude 4,1 abalou Quito. Terá sido um prenúncio do terramoto que os resultados eleitorais vão trazer ao Equador?
Afinal, segundo uma sondagem à boca das urnas, ainda não há terramoto político. O milionário Álvaro Noboa, o maior exportador de bananas do Equador, ficará à frente, na primeira volta, com 26,90% e Rafael Correa ficará em segundo lugar com 25%, o que obriga a uma disputa entre estes dois candidatos numa segunda volta. De qualquer modo, só de madrugada se sabérão os resultados oficiais.

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

CITAÇÕES: (Actualizado)

1. - «E valha a verdade, testemunhei os dois acontecimentos, havia mais gente na manifestação de apoio à política ultramarina no Verão de 64 do que ontem na manifestação a exigir a demissão do Primeiro-Ministro e do Ministro das Finanças (não, isso é o Alberto João!, a CGTP ainda está na fase da "a luta continua...", "o Governo para a rua" vem a caminho. Em muitos autocarros alugadosJosé Teles (Corta-fitas)
2. - «Que o jornal tenha andado dois anos (2003-4) a tentar decapitar o Partido Socialista, eis o que parece indiferente ao dr. Jorge Sampaio. O director é ele, ponto final. Bem vistas as coisas, não foi ele que se lixou. Foram os outrosEduardo Pitta (Da Literatura)
3. - «Sinto Vergonha. Nem a mais nobre causa universal me reconcilia com o facto do Dr. Jorge Sampaio ser, mesmo só por um dia, Director do “Correio da Manhã”. Desta forma o Dr. Jorge Sampaio dá credibilidade à linha editorial – de ontem, hoje e… amanhã – deste jornal. » Eduardo Graça (Absorto)

Disparates.
O ministro da Economia, Manuel Pinho, anunciou hoje, em Aveiro, com pompa e circunstância: "A crise acabou". Não adiantou quando mas, com a ligeireza que o caracteriza, ao querer apresentar "trabalho", deu um forte argumento aos que, ontem, no Rossio se manifestaram contra a reforma na Administração Pública.

CITAÇÕES.
«As reformas de Sócrates: Num país com 750.000 funcionários públicos, a verdadeira "revolução" não é "tecnológica" ou "científica", é a libertação da sociedade de um Estado que a sufoca e de que ela depende. Ora, nesta matéria, Sócrates não se atreveu até agora a tocar. E o adiamento, anunciado ontem, da "reforma" da administração central para o fim de 2007, a um ano de eleições, significa no fundo que, por convicção ou impotência, se resignou, ou prefere a velha mediocridade portuguesa Vasco Pulido Valente, Público 13.10.06.

Visões pequeninas:

2. 80 000.
Se José Sócrates seguisse o conselho de certos entendidos em política nacional, o PS ficaria ao nível eleitoral do Bloco de Esquerda, mas muito mais grave do que isso, afundaria o que resta deste triste país. Eu, como cidadão, exijo reformas na Administração Pública que emagreçam o aparelho de Estado: só quero, no fundo, que todos os portugueses tenham os mesmo direitos e os mesmos deveres. Não aceito que uns tenham tenham ADSE e outos Caixa de Previdência; que uns tenham regimes especiais e outros regimes gerais; que uns sejam promovidos automáticamente e outros só o possam ser por mérito. Para abreviar razões, quero um Portugal própero e solidário e sei que nos países que os arautos da desgraça me apontam como modelo só há miséria, repressão e prisões por delito de opinião. Fazem-me sempre lembrar o pequeno diálogo entre Olof Palme e Otelo Saraiva de Carvalho, em 1975: Perguntava Olof a Otelo: quais são os objectivos da revolução? Otelo, sem pensar, como era seu hábito, tinha a resposta na ponta da língua: acabar com os ricos. Olof, sem querer ofender, porque era um homem de vistas largas, com voz quase sumida, respondeu: nós na Suécia lutamos há décadas para acabar com os pobres.

Complicado? Hoje, ao fim do dia, Fernando Henrique Cardoso, apoiante de Geraldo Alckmin, o adversário de Lula da Silva, apresentou o seu livro: "A Arte da Politica – a historia que vivi”, na Fundação Mário Soares. O mesmo Mário Soares que disse hoje que mantém uma boa opinião de Lula da Silva, considerando que este enfrentou problemas, mas "foi um bom presidente" do Brasil. O mesmo Fernando Henrique Cardoso que, também hoje, em entrevista ao DN, comparou Lula da Silva a George W. Bush. Complicado? Não. É a democracia!

quinta-feira, 12 de outubro de 2006

"59 segundos"

A TVE tem um famoso programa de informação às quartas-feiras à noite. É actualmente apresentado com sucesso por Ana Pastor, esta jovem jornalista aqui ao lado. Mas o mais importante do programa, para mim, reside no facto dos entrevistados - jornalistas, políticos e personalidade de destaque convidada - dispôr de 59 segundos, de cada vez, para dizer o que tem a dizer. Acabado o tempo o microfone desaparece - é engolido pelo buraco de onde surgiu, deixando o entrevistado sem som. Gostava de ver os nossos palavrosos políticos, jornalistas e comentadores dizerem o que têm a dizer nos tais 59 segundos. Muitas vezes em 2, 3 ou 4 minutos pouco dizem e estão sempre com queixinhas: não lhes dão tempo suficiente para responder às questões, argumentam. Introduzam em Portugal um programa de informação com este formato e vão ver que teremos uma surpresa: muitas pessoas dirão mais em 59 segundos do que nos 3 ou 4 minutos que normalmente usam.

O Nobel também serve para isto:
Comprei há quase dois anos o romance Os Jardins da Memória, de Orhan Pamuk. Manteve-se na estante, inviolável, desde o dia da compra, à espera de uma oportunidade de leitura. Foi sempre, durante estes dois anos, ultrapassado por outras leituras. Provavelmente - confesso -teria o destino de alguns outros livros que vou comprando e que, por falta de tempo, ficam "abandonados" ao pó das estantes. Sorte: este vai saltar do sítio onde adormeceu ainda hoje. (Ontem transcrevi um parágrafo de Mario Vargas Llosa, Travessuras de menina má, na esperança de acertar no Nobel deste ano, mas isto é como o euromilhões nunca acerto.)

Até amanhã. (“Femme nue” de Tamara Lempicka)

Que grande pachorra.
Daniel Oliveira , armou-se em estudioso das ideologias, e conseguiu a proeza de ler a moção de José Sócrates ao congresso do PS, o que 99% dos socialistas e 95% dos delegados ao congresso não estão dotados de tal pachorra. Normalmente, quem lê as moções apresentadas aos congressos partidários são os que as escrevem e os que revêm as provas. A estes juntam-se meia dúzia - literalmente meia dúzia - de maluquinhos. Daniel Oliveira alinhou entre estes e de tal modo ficou contagiado que descobriu que José Sócrates é um cabide. Não admira tal conclusão depois do esforço a que foi sujeito por tão intensa leitura. E têm saído tantos romances nos últimos dias...

Ninharias.

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

É a taxa, compreende?
O Ministro da Saúde, no afã de cumprir o Orçamento (“tenho de cumprir um orçamento, se não o fizesse tinha toda a gente a morder-me às canelas”), desnorteou-se. A tal ponto que, na Comissão Parlamentar de Saúde, para justificar as taxas moderadoras ou utilizadoras de internamento hospitalar – nem ele próprio sabe se é moderadora, se utilizadora - jogou mão de um argumento de antologia: “Se o cidadão tiver que pagar uma pequena taxa moderadora por dia de internamento, ele próprio incentiva aqueles que o acolhem e tratam a, desde que não haja necessidade, ser libertado e enviado para casa”. Ou seja: - Senhora doutora, desculpe dar a minha opinião, mas eu considero que já estou curado e não adianta estar aqui internado, por isso ou me dá alta ou fujo já do hospital. A médica, com irritação na voz, responde: - Senhor Antunes, eu sei que o senhor está curado, mas eu adorava tanto visitá-lo aqui todos os dias, medir-lhe a tensão, apalpar-lhe o pulso. Essa decisão de querer sair apressadamente do hospital é para mim uma desconsideração pessoal. O senhor Antunes, que ainda sangra do pós-operatório, meio alucinado porque a febre se mantêm alta, responde: - Senhora doutora, qual desconsideração pessoal, qual quê, é a taxa, compreende?

A minha escolha.

Craig Mello, norte-americano, Prémio Nobel da Medicina 2006, é neto, por via paterna, de um açoriano, o que levou muita boa gente a gritar que o senhor era "quase português". A minha esperança é que a Angelina (a minha professora primária tinha o mesmo nome) tenha, pelo menos, um avô originário das Berlengas. Isso facilitava a minha escolha no concurso os "Grandes Portugueses".

Boas maneiras ou caganeira roxa?
Há um blogue que não transcreve nenhum texto publicado na imprensa sem pedir autorização ao seu autor. Ora, se a menção da fonte resolve a questão da autoria, fico na dúvida sobre o significado de tal atitude: trata-se de uma questão de boas maneiras ou apenas uma descontrolada vaidade, a que na minha terra se chama caganeira roxa?

Mudanças.
Antes era só às sextas-feiras. Agora todos os dias são (bons) dias.

Debates.
Nos últimos dias esteve vivo o debate entre Scolari, que defendeu que a selecção nacional no jogo com a Polónia devia jogar para o empate, e alguns jogadores da selecção que opinaram que se devia jogar para a vitória. Para que ninguém se ofendesse com um desses dois possíveis resultados - vitória ou empate - quando entraram em campo jogaram para a derrota.

Quem escolheu aquela cor? A selecção portuguesa de futebol a jogar com equipamento preto é um desastre. Parece a Académica de Coimbra nas suas piores tardes.

Dia 11 de Outubro. Helicóptero (ou pequena avioneta) colide com prédio em Nova Iorque.

Um ano de Sapatos Pretos.

Travessuras de menina má.
«Tu nunca hás-de viver sossegado comigo, já te aviso. Porque não quero que te canses de mim, que te habitues a mim. E, mesmo que acabemos por nos casar para tratar dos meus papéis, nunca serei tua mulher. Eu quero ser sempre tua amante, tua cadelinha, tua puta. Como esta noite. Porque assim hei-de ter-te sempre maluquinho por mim.» (Mario Vargas Llosa, Travessuras de menina má.)

Coisas que nunca te disse (9).

«Trabalhar muitíssimo e viver a vida. Um passeio pela montanha ou olhar uma mulher formosa, ler um livro ou ouvir um concerto, sugerem-me a visão de formas, ritmos e cores, vão formando e alimentando o meu espírito.» Joan Miró.

Cabecinha pensadora.
Estive fora cinco dias e, por isso, só apanhei os ecos de uma entrevista de Nobre Guedes a Judite de Sousa e os comentários à dita entrevista feitos por Marcelo Rebelo de Sousa. A avaliar por este material em segunda mão, a cabecinha pensadora de Paulo Portas está de novo num reboliço. Ele, que arrasta consigo a síndroma de Maria Callas, saiu do Independente com uma estratégia ambiciosa: dar o abraço de urso ao PSD. Apostou na necessidade de Durão Barroso precisar dele – institucionalmente do PP – para formar governo. E arriscou tudo, desde as feiras ao “Eu fico” nas autárquicas de Lisboa. A obsessão foi premiada e chegou ao Governo, tal como tinha planeado. Mas, a estratégia deu para o torto: o “urso” não se deixou abraçar, nem a postura plástica de “homem de Estado” convenceu quem quer que fosse. Humilhado nas eleições, simulou a retirada porque o PP continuava a ser um partido demasiado pequeno para as suas desmedidas ambições. E, na reflexão do retiro, concluiu que para fazer do PP um grande partido à custa do PSD a estratégia não passava por estar com o PSD no Governo, mas com o PS. Daqui para frente Paulo Portas, por si ou por interposta pessoa, vai apostar na necessidade do PS, em resultado das próximas legislativas, precisar do PP para governar. Obviamente, que esta estratégia vai dar para o torto.

terça-feira, 10 de outubro de 2006

Lápis vermelho e lápis azul (II).
A RTP já corrigiu a monumental distracção de ter omitido dos "Grandes Portugueses" António de Oliveira Salazar.

(José Nunes, Foram-se os anéis)

Até amanhã. (Brad Holland - óleo sobre tela.)

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

Lápis vermelho e lápis azul.

António de Oliveira Salazar não consta da lista em que a RTP desafia a escolher "QUEM É O MAIOR PORTUGUÊS DE SEMPRE?" Há quem pergunte: Será que tinham medo que Salazar pudesse ganhar? Independentemente dos méritos e deméritos de cada um dos personagens, eu inclino-me mais para dizer que Salazar não consta desta lista pelos mesmos motivos que daqui a a 10 ou 15 anos Fidel Castro provavelmente não constará numa lista semelhante promovida pela RTCubana. Se está mal no caso da RTP não deixará, naturalmente, de estar mal no eventual caso da televisão cubana. Ou não será assim?

Negócios a sério.
Há por aí uns pategos sempre disponíveis para dizerem cobras e lagartos quando algum empresário luso pretende fazer um negócio de poucos milhões. O lançamento de qualquer OPA é uma espécie de "assalto à mão armada", a privatização de 19% do capital social de uma empresa pública é "um crime contra o povo". A Google acaba de comprar a You Tube por 1310 milhões de euros. Mais de 260 milhões de contos para falarmos em moeda antiga. Quem acompanhou as últimas evoluções da You Tube entende agora melhor os montantes envolvidos nesta compra. Às vezes, alguns pategos da nossa praça parecem nortecoreanos envergonhados a querer perpectuar a cepa torta em que nos afundamos.

Porquê?
O Professor Pedro Arroja fez, finalmente, a sua estreia na blogosfera, desfazendo o sebastianismo em que o queriam envolver. Li e reli o texto, para traz e para a frente, à procura do objectivo último da sua estreia. Umas vezes inclinava-me para uma interpretação; outras vezes para outra. Tomei notas. Fiz equações. Ponderei palavra a palavra. E, no fim, fiquei sempre na dúvida: porquê desconsiderar Bush desta maneira como começo de conversa? Porquê explicar ao comum dos mortais que as mentiras de Bush têm uma explicação filosófica? Porquê transferir para os straussianos que rodeiam Bush a mentira em que assentou a invasão do Iraque e todas as outas mentiras que o sustentam? Cito o professor: «A corrente de filosofia política mais influente na Administração Bush é provavelmente aquela que é herdeira do pensamento de Leo Strauss (1899-1973). (…) Como os straussianos não acreditam nos princípios da moralidade – excepto para as massas - eles não se sentem restringidos por quaisquer considerações éticas. A decepção e a mentira ganham assim o estatuto de instrumentos aceitáveis, senão mesmo indispensáveis, da acção política. Porém, numa sociedade racionalista, os mitos são como os castelos-de-cartas, desmoronam-se facilmente. Por isso, para realizarem o seu programa político, os straussianos têm de criar "mentiras esplêndidas e fraudes espectaculares" (Drury, 1994).»
Como última explicação, interroguei-me: será uma tentativa de reabilitação?

Desfazer a hipocrisia. «A TORRE, A PETIÇÃO», Eduardo Pitta (Da Literatura).

Lá vai bomba!
Pelas reacções aos ensaios nucleares da Coreia do Norte – da “comunidade internacional”, do “conselho de segurança” da ONU, da “União Europeia”, dos Estados Unidos – percebe-se que ninguém faz a menor ideia como poderá travar os coreanos. Uns falam em “bloqueios marítimos”, outros em “respostas firmes e rápidas” o que vai dar tudo ao mesmo: os efeitos práticos aproximam-se do zero. (Aliás, com o Irão passa-se, com as devidas distâncias, mais ou menos a mesma coisa). Mas, mais que as experiências nucleares (e o perigo que isso representa nas mãos de esquizofrénicos), o que é impressionante é que o regime de Pyongyang (que nos chega através de elucidativas imagens e reportagens) é o estádio elaborado a que chegou o modelo de sociedade defendido pelo Partido Comunista Português. E há muita boa gente que esquece isso, sobretudo pelo facto dos comunistas portugueses se situarem, eleitoralmente falando, dentro dos limites de segurança. A propósito, recordo a badalada entrevista de Bernardino Soares ao DN, em Fevereiro de 2003: DN: Consideraria que na Coreia do Norte vigora um regime comunista?
BS: Temos falado nisso em vários congressos... julgo que o que caracteriza a questão do Coreia do Norte, neste momento, é a difícil apreensão do que se passa, de facto, naquele país.
DN: Difícil apreensão? Os dados que dispõe não são suficientes para poder dizer, por exemplo, se a Coreia do Norte é uma democracia?
BS: Tenho muitas reservas em relação à filtragem da informação feita pelas agências internacionais.
DN: Ao ponto de não poder dizer se o país é democrático?
BS: Sim. Tenho dúvidas que não seja uma democracia.

domingo, 8 de outubro de 2006

Leituras matinais.
1. O MAL DA EDUCAÇÃO: "A escola única, gratuita e obrigatória, instituída e comandada pelo Estado, produto do nacionalismo e do anticlericalismo do século XIX, é agora inteiramente obsoleta e uma fonte de ineficiência e confusão. Reservando para si um papel fiscalizador e regulador, o Estado devia promover a emergência de um "mercado de ensino", em que a escola (pública, particular ou cooperativa) fosse de facto autónoma (e pudesse, nomeadamente, contratar professores), mas sobretudo um "mercado" em que a escola, mesmo a título simbólico, fosse paga. (...) O "mercado", embora imperfeito e limitado, ajudaria a devolver alguma responsabilidade ao sistema: aos pais porque pagariam, aos filhos porque a violência, a indisciplina e a preguiça custariam caro, e aos professores porque a concorrência lhes traria uma autoridade real. O esforço de "arrumação" da sra. ministra é meritório. Só que, infelizmente, sendo as coisas o que são, não mudará nada do que importa mudar" (VASCO PULIDO VALENTE, Publico 08-10-06).
2. "Um dilema", Nuno Brederode Santos, DN 08-10-06).

sábado, 7 de outubro de 2006

Edward Hopper No Whitney Museum of American Art, New York: ter o arrepio de contemplar o original.

quinta-feira, 5 de outubro de 2006

John Brewster Jr. John Brewster Jr. (1766-1854), exposicao unica, inaugurada ontem, no American Folk Art Museun.

Hoje foi um dia em cheio.

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

Make Love Not War

O Luís questionou-me sobre o contador dos custos da guerra do Iraque escarrapachado aqui no lado direito. O que posso acrescentar sobre o assunto é que qualquer saldo contabilístico tem que estar equilibrado - dizem os especialistas. Ou seja, o que sai por um lado tem que entrar por outro. Significa que se o contador aqui ao lado regista aquele montante de gastos com a guerra do Iraque (estão a sair dólares), alguém tem que os receber (estão a entrar dólares). As guerras são assim: quem se safa são os accionistas das indústrias de armamento e outras actividades económicas conexas, apesar de nos quererem convencer (onde se incluem muitos Mestres Pensadores da nossa praça, mesmo sem possuírem acções) que era muito importante derrubar o ditador iraquiano (esgotados todos os outros argumentos). Sem querer cair na ordinarice, direi que a vida está cheia de coisas importantes para fazer. Por exemplo, também era muito importante desflorar a minha prima Josefina, que neste momento está nos sessenta e três anos e nunca conheceu nenhum homem em sentido bíblico, e ninguém está disponível para tal tarefa. O que prova que a economia e a política estão sempre ligados, mas isso, penso, só será novidade para os poetas. (Sublinho poetas, o que exclui liminarmente qualquer outro tipo de artistas).

terça-feira, 3 de outubro de 2006

Intolerância.
Nos últimos anos e, sobretudo, depois de Setembro de 2001, o terrorismo assumiu tais proporções que já quase nos falta a memória para os designados “piratas do ar”. Estes estão aí de novo: dois turcos ameaçam a vida de mais de uma centena de inocentes por uma única razão: a intolerância.

Olhe, faz favor: tem votos à venda?
Pelo que me é dado compreender o senhor professor doutor Arroja (e, pela sua voz, uma certa tendência liberal) está de acordo com o que escreve o brasileiro Janer Cristaldo: «É corrente afirmar-se que Lula comprou o voto de milhões de miseráveis com a bolsa-família. Claro que comprou.» Ou não está? De qualquer modo não tem importância, se houver divergência entre o pensamento do professor Arroja e a suposta prática de Lula resolver-se-á a questão em tribunal.

Sentido de oportunidade.
Conta-se de novo por aí uma velha frase pronunciada num discurso por Gestúlio Vargas: «Brasil estava à beira do abismo, comigo deu um passo em frente

Indicação de voto para a segunda volta das eleições no Brasil?
(Via Absorto)

Gato escaldado de água fria tem medo. «Lula da Silva garante que participará nos debates da segunda volta

Os benefícios da Democracia (II)

Os soldados norte-americanos em território paraguaio beneficiavam, até ontem, de imunidade semelhante ao corpo diplomático, o que significa que só podiam ser julgados em tribunais norte-americanos pelos crimes exercidos no desempenho das suas funções. Esta protecção, única nos países do Mercosur, vinha do tempo da ditadura do General Alfredo Stroessner, a qual durou entre 1954 e 1989. O Governo paraguaio que retirou ontem essa imunidade estava a ser interna e externamente pressionado desde que o ano passado entraram no Paraguai 400 militares norte-americanos. Na altura, falou-se que os norte-americanos imunes às leis locais iriam montar uma base militar junto à fronteira com a Bolívia. Pelo menos, agora já passam a ser julgados em tribunais paraguaios.

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

Braga.

Os achados arqueológicos encontrados há três anos sob a plataforma de via da estação de Braga foram preservados no mesmo local. Bem Hajas Braga!

Atenção. O Luís enviou uma mensagem enigmática.

Reinaldo Arenas e a Direita.

Este fim-de-semana, talvez porque se realizavam eleições no Brasil, talvez porque se avizinhavam as primeiras chuvas, iniciei a (re) leitura de El Color del Verano de Reinaldo Arenas. Li pela primeira vez Arenas, já aqui o escrevi, em 1992: Antes que anochezca, editado nesse ano pela Tusquets. Comprei-o no Aeroporto de Madrid, enquanto aguardava o avião com destino a Cuba. Meia dúzia de dias depois, li nas esplanadas do Hotel Nacional, em Havana, Celestino antes da alba, Edições Union, Havana, 1967 – única edição cubana, esgotada em menos de um mês – com uma dedicatória de Arenas. Por estes dias, tinha adquirido esta preciosidade, nos “subterrâneos” de La Habana Vieja, em troca do livro recentemente publicado e que, pela minha mão, devia ser o primeiro exemplar a entrar na ilha. (Aliás, conto esta história, mais ficção, menos ficção no romance “O General…). Li durante esse ano toda a obra de Reinaldo Arenas. Nesta (re) leitura veio-me à memória como a Direita o citou a propósito da doença de Castro (o texto publicado no El País em 7 de Agosto de 2006 - Elogio a Fidel Castro) , a ele, um homem de esquerda, até teria dado voltas no túmulo. A assumida homossexualidade de Arenas e o seu estilo desalinhado e irreverente deu-lhes tantos problemas em Cuba, como nos Estados Unidos ou noutros países ocidentais. Dedico, pois, aos meus amigos de Direita que por ignorância ou devaneio o citaram a transcrição do que o próprio escreveu: “Dizia Rama nesse artigo que era um erro eu ter abandonado o país, porque tudo era devido a um problema burocrático; agora estaria condenado ao ostracismo. Tudo aquilo era extremamente cínico; além do mais, era ridículo, aplicado a alguém que desde 1967 não publicava nada em Cuba e tinha sofrido a repressão e a prisão dentro daquele país, onde, aí sim, estava condenado ao ostracismo. Compreendi que a guerra começava outra vez, mas agora sobre uma forma muito mais disfarçada; menos terrível do que a que Fidel Castro travava contra os intelectuais em Cuba, embora nem por isso menos sinistra. Nada daquilo me apanhou de surpresa; eu sabia já que o sistema capitalista era também um sistema sórdido e mercantilizado. Já numa das minhas declarações depois de sair de Cuba dissera “ A diferença entre o sistema comunista e o capitalista é que, embora ambos nos dêem um pontapé no cu, no comunismo dão-no-lo e temos de aplaudir, e no capitalismo podemos gritar; eu vim para gritar.” A Direita tem que conhecer melhor quem cita.