domingo, 31 de dezembro de 2006

Passagens de ano. Tenho do tempo uma noção una e ininterrupta, que não se deixa dividir, a cavalgar sem controlo para um qualquer fim de estrada. Os dias de aniversário e as passagens de ano são os momentos em que esta noção – esta certeza! – mais vem ao de cima. No entanto, a nossa cultura diz-nos que devemos comemorar com alegria os aniversários e as passagens de ano: assim seja, apesar de não saber ao certo se comemoramos o facto de se ter vivido mais um ano ou o de ter menos um ano para viver. De qualquer modo, neste pachorrento fim de dia alentejano, esqueço que ontem ouvi dizer que a democracia se constrói através de um nó corrediço na ponta de uma corda, e ergo a taça, desejando um Bom Ano para todos os bloggers, especialmente aqueles com quem tive oportunidade de manter um relacionamento mais próximo, e para todos os leitores de todos os blogues.

sábado, 30 de dezembro de 2006

Estão verdes, não prestam. João Morgado Fernandes – o jornalista, não o blogger editorializa hoje, no DN, sobre Os equívocos da admirável nova Web. Uma parte dos profissionais da comunicação social tradicional – jornalistas, cronistas – esforça-se por desvalorizar o espaço blogosférico, enquanto espaço de participação democrática. É lixo! – Dizem, imitando a raposa. E só não é 100% lixo porque “eles” também aqui se exprimem. Aliás, são a “mais-valia”, a “massa crítica” que alimenta e controla este “inoperante e até perigoso monstro”. «O facto de cada um se poder exprimir não quer dizer que tenha, necessariamente, algo de útil a dizer à comunidade.» - escreve JMF, sem ponderar dois pormenores: primeiro, sem “sem algo de útil” na perspectiva de quem? Segundo, o que é a democracia senão a opinião dessa massa “disseminada” sem nada de “útil” para dizer? Quem é que elegeu Cavaco e Sócrates? Quem decidirá o próximo referendo? Os “mestres pensadores”? O pessoal da Time já conseguiu ver aquilo que por cá ainda nem se cheira. Vamos dar tempo ao tempo porque atrás do tempo tempo virá...

História de um enforcamento anunciado. (2)

Hoje bem cedo espalhou-se a notícia do enforcamento de Saddam Hussein. Como ontem aqui escrevi a campanha de informação e contra-informação anunciava a morte do ditador. Repito o último parágrafo: Nos últimos dias decidiram que a execução devia ser imediata para não deixar criar um movimento internacional anti-execução, com a União Europeia à cabeça. Aguarda-se, pois, a todo o momento, a notícia de um enforcamento ao nascer do sol decidido pelo país invasor, repetindo outras páginas negras da história da humanidade. Não é preciso ser bruxo...

Até amanhã.

Terry Rodgers,* Delia, 1992, 68" x 72", oil on linen.
* (a pedido de um grande amigo aqui fica o link para a obra pictórica de Terry Rodgers)

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Ler os outros:
1. «NEW-YEAR GREETINGS », o Eduardo deu-me o prazer de me incluir na sua lista de bloggers com os quais estabeleceu "relações de amizade, cumplicidade, cordialidade ou simples afinidade electiva", algumas surgidas por causa do blogue. A blogosfera, para além de muitas outras virtualidades, também tem esta boa faceta: encontramo-nos.
2. «A vida humana é um valor absoluto», Pedro Correia (Corta-Fitas).

Material impróprio para consumo.
Nos velhos tempos, o PCP, quando a linha oficial era contrariada por algum militante e as coisas azedavam, o prevaricador era expulso do partido e, em muitos casos, levava estampado nas costa um argumento fatal: tratava-se de um "pide" infiltrado nas fileira do glorioso. Aliás, esta actuação estava na linha das acusações dos processos de Moscovo, onde os militantes fuzilados eram todos "agentes do imperialismo americano". Esta linha "argumentativa", própria de quem lhes escasseia outros argumentos, está praticamente morta, sobretudo em democracia, apesar de a ainda haver resquícios para as bandas de Havana, por exemplo. Apesar de saber que não devo meter a foice em seara alheia, há situações que me deixam os nervos à flor da pele. Mas não só: há comportamentos a que não devemos fechar os olhos para não sermos cúmplices. Ora vejam isto: o autor do Bloguitica escreveu isto. E o jornalista visado, co-autor do Glória Fácil, respondeu isto. Independentemente das razões, que cada leitor avaliará, pergunto: "Caro pidezinho"? Nem sequer falta o "por conta de quem?". Já chegámos a Cuba ou estamos a caminho de Pyongyang? Esta relação - esta fiscalização - dos média pelos blogues começa a tomar forma e as reacções são as que se lê. Ainda agora a procissão vai no adro...

História de um enforcamento anunciado.

O dia de hoje tem sido fértil em informação e contra-informação sobre o enforcamento Saddam Hussein. A CNN dava como certa a execução do ex-presidente do Iraque este fim-de-semana. Pouco depois, o Ministério da Justiça iraquiano desmentia a CNN, declarando que o ditador não seria executado antes de 26 de Janeiro. Mais tarde, um juiz autorizado a assistir ao enforcamento disse que tal acto se realizaria o mais tardar amanhã. Há poucos minutos, uma fonte oficial do Governo iraniano confirmou que o primeiro-ministro, Nuri al-Maliki, já assinou a ordem da sentença de morte. Os advogados de Saddam dizem que os Estados Unidos já o entregaram à custódia do governo iraniano, enquanto o porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Tom Casey, corrigiu que “não houve alterações no estatuto” de Saddam e que este continua sob o controlo dos Estados Unidos. Dentro deste filme, uma coisa é certa - Bush está entalado (em boa verdade, quem está entalado é Saddam, o Bush volta para o seu rancho e para as suas empresas de armamento): não enforca o ditador (poucos têm dúvidas que a decisão “judicial” saiu de Washington) e corre o risco dos Estados Unidos serem humilhados com o regresso ao poder de Saddam após a retirada militar; ou enforca-o, e corre o risco de criar um mártir. Os conselheiros de Bush inclinaram-se para esta última hipótese como a menos dolorosa. Nos últimos dias decidiram que a execução devia ser imediata para não deixar criar um movimento internacional anti-execução, com a União Europeia à cabeça. Aguarda-se, pois, a todo o momento, a notícia de um enforcamento ao nascer do sol decidido pelo país invasor, repetindo outras páginas negras da história da humanidade.
(na foto: Donald Rumsfeld e Saddam: tão amigos que eles eram).

Ficção 2006.

Só li Paris nunca se acaba, de Enrique Vila-Matas este ano, por sugestão de um amigo, apesar de ter sido editado (pela Teorema) em 2005. Já iniciei a segunda leitura (descobre-se sempre algo mais), sinal de que a escrita e a trama me entusiasmaram. Literatura dentro da literatura ( Ernest Hemingway e Marguerite Duras, entre muitos outros), tendo Paris - mítico, literário e artístico - como pano de fundo. Um contador de histórias no melhor estilo hispano-americano (não escrevi latino-americano, obviamente).

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Ler os outros:
1. »Arrumar a casa». Um agradecimento ao nikonman (Praça da República em Beja) pela simpática referência.
2. «O INGLÊS DA PEQUENADA» e «O DESBUNDE DA ENTALADA», Eduardo Pitta (Da Literatura).
3. «BARBÁRIE "DEMOCRÁTICA"», João Gonçalves (Portugal dos Pequeninos).
4. «Aqui! Aqui! Estamos aqui!», MissPearls (Miss Pearls).
5.«O futuro é vermelho», Pedro Correia (Corta-Fitas).
6. «Pressa», Encandescente (Erotismo na Cidade).

Estamos de acordo.

«Se o pão é o símbolo do que o homem precisa, o vinho é o símbolo da superabundância da qual também temos necessidade. Ele é sinal da alegria, da transfiguração da criação. Tira-nos da tristeza e do cansaço do dia-a-dia e faz do estar juntos uma festa. Alegra os sentidos e a alma, solta a língua e abre o coração. E transpõe as barreiras que limitam a nossa existência.» (Cardeal Joseph Ratzinger, citado por Luís Costa, Público 28.12.06)

Sorrisos.
O João Paulo Cotrim disse-me, na travessa do calado: não há povo mais triste do que aquele que faz do sorriso sinal de tristeza. Muitas vezes remoí a frase, e concluía que contornava a realidade. Acabei por a arrumar numa qualquer figura de estilo. Mas, há momentos em que aquelas palavras soam-me como uma terrível verdade.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

Melhor do que isto é muito difícil...
«pergunto-me naturalmente se Rui Rio não estará muito bem encaminhado para suceder a Marques Mendes e fazer verdadeira oposição a um Governo totalitárioJCS (Lóbi do Chá) O sublinhado é meu! E o trabalho que dá desmontar afirmações destas. Talvez enviá-lo para a Coreia do Norte um mês seja mais prático.

Os meus CD`s de 2006.

A mania das grandezas.
Conta-se que D. João V mandou um emissário a Antuérpia para encomendar um carrilhão para o Convento de Mafra. O artesão fundidor flamengo, porque a peça era muito cara, não aceitou a encomenda sem que, primeiro, o emissário transmitisse ao tal "rei de Portugal" o preço. Ora, viajar da Flandres a Portugal no século dezoito não era empresa fácil. E lá veio o emissário de volta. D. João ficou ofendidissímo com tal afronta. E, para mostrar o que é um português de boa cepa, reenviou o emissário à Flandres com o seguinte recado: nunca pensei que um carrilhão feito por um bom artesão flamendo fosse tão barato. Sendo esse o preço quero dois. E, por isso, existem dois carrilhões no Convento de Mafra. O ouro do Brasil e as especiarias asiáticas moldaram o nosso requintado modo de estar na vida: a mania das grandezas.

Rescaldo do Natal.
Nos primeiros vinte e cinco dias de Dezembro os portugueses gastaram em compras pagas através de Multibanco 994 euros por segundo - informa o DN. E ainda há quem me queira contar a história de que o Natal é uma festa religiosa.

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Até amanhã.

Paul Laurenzi, óleo sobre tela (Galerie Marc Faugeras)

Graçolas.

Hoje, a "Comissão de Apelo" do "Alto Tribunal Iraquiano" anunciou que Saddam Hussein vai ser executado por enforcamento nos próximos 30 dias. Horas depois, um porta-voz da Casa Branca, Scott Stanzel de seu nome, disse uma daquelas graçolas a que Bush já nos habituou: "Os iraquianos merecem um louvor por continuarem a utilizar as instituições da democracia em busca de justiça"

Livros (2) A editora Campo de Letras acaba de editar Fidel Castro, biografia a duas vozes, de Ignacio Ramonet, director do Le Monde Diplomatique e um dos promotores do Fórum Social Mundial. É a síntese de um homem e de uma revolução feita a pensar na posteridade. Uma leitura indispensável a castristas e anti-castristas. Nas mais de 600 páginas que traduzem 100 horas de conversa, Castro responde a tudo o que há para responder: desde José Martí até ao futuro do socialismo depois da queda do muro de Berlim e à sua sucessão. Nas palavras de Castro não há uma centelha de lucidez política, mas há dogmas e muita, muita fé. É um crente. Ele crê em Marx, Engels e Lenine com tanta convicção(?) que ficamos sem saber se é apenas um vulgar mentiroso. Ele diz, por exemplo, entre muitos outros exemplos, esta pérola: “Não há que medir as nossas eleições pelo número de votos. Eu meço-as pela profundidade dos sentimentos, do calor. Nunca vi os rostos tão cheios de esperança, com tanto orgulho. (…) As ideias que nós defendemos são, desde há muito tempo, as ideias de todo o povo.” (Página 560). Quando fala nas duas guerras de Angola, onde chegaram a estar 55 mil cubanos, deturpa os factos e os protagonistas para ficar bem na fotografia. Em meia hora de conversa sobre a decisiva batalha de Cuíto-Cunavale, o ditador não consegue pronunciar o nome do General Arnaldo Ochoa, (1) o homem que dirigiu essa batalha, e que foi fuzilado, em Havana, ao alvorecer de um dia de verão de 1989 por ordem directa do ditador. Nas últimas páginas, quando se aborda a sua sucessão e o futuro do “socialismo” em Cuba, percebe-se que se sente um náufrago que fala como quem sabe que nunca atingirá terra firme. (1) “o lado angolano/cubano era chefiado pelo lendário General Arnaldo Ochoa Sanchez, uma figura heróica invencível para os soldados cubanos no local, ultrapassada apenas por Fidel castro. Nas semanas de luta acesa que se seguiram, não só impediram os avanços dos sul-africanos como os derrotaram tão definitivamente que Cuíto Cunavale se tronou um símbolo por todo o continente de que o apartheid e o seu exército já não eram invencíveis.” Victoria Brittan, A guerra civil em Angola.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

Livros Só por estes dias li Cozinha Confidencial (editado em 2005 pela Dom Quixote), de Anthony Bourdain, um chefe de cozinha e escritor nova-iorquino (uma parte do livro foi publicada de forma avulsa e desgarrada na revista The New Yorker), que após vinte e cinco anos de sexo, drogas, mau comportamento e grande cozinha - como o próprio escreve - decidiu contar a sua experiência como cozinheiro. Não é um livro de receitas, obviamente. Mas é um manual indispensável a quem aprecia uma boa refeição e, sobretudo, quando essa refeição é num restaurante. Para um pessimista a leitura de Cozinha Confidencial afastá-lo-á definitivamente dos restaurantes. Para um optimista – é o meu caso – contem um conjunto de ensinamentos que permite um mínimo de separação do trigo do joio. Bourdain escreve, por exemplo: “Posso estar perfeitamente disposto a experimentar lagosta grelhada numa esplanada nas Caraíbas, onde a refrigeração é duvidosa e vejo com os meus próprios olhos as moscas à volta da grelha. Mas na minha cidade, com o hábito diário de comer em restaurantes, decidi adoptar algumas regras de sobrevivência. Nunca como peixe numa segunda-feira, a não ser que esteja no Le Bernardin – um restaurante de quatro estrelas onde sei que compram o peixe directamente da origem.” E explica porquê.
Quanto ao trabalho árduo dos cozinheiros, ele conta: “Não há ninguém melhor do que um não-americano para perceber e apreciar o Sonho Americano do trabalho duro que leva à recompensa material. Os cozinheiros equatorianos, mexicanos, dominicanos e salvadorenhos com quem trabalhei ao longo dos anos fazem com que a maioria dos rapazinhos brancos educados no Culinary Institute of America pareçam uns trapalhões, uns provocadorezinhos chorões."
Em conclusão, uma elucidativa viagem pelos bastidores da restauração e, ao mesmo tempo, uma leitura escorreita, divertida e útil.

A nostalgia da liberdade.

Um conto de Natal.

A história de Natal de Auggie Wren, de Paul Auster, com excelentes ilustrações da argentina Isol, é um pequeno conto cuja leitura se recomenda no dia de hoje.

domingo, 24 de dezembro de 2006

Citações.
Hoje, a propósito da "quadra natalícia", com grande sentido de oportunidade, João Gonçalves recorda Vitor Cunha Rego. Não resisti a transcrever o texto citado e recordar com muita saudade o seu autor.
"Recusam-se a pensar. Mesmo a apenas três dias do natal, o momento em que Deus se fez homem na palha de uma gruta, a maioria das pessoas precipita-se atrás de tudo o que pensa ser diversão, entretenimento, consumo, modismo. Vão acabar exaustos, atordoados de tanta correria. É como se estourassem de inconsciência, na periferia de si próprios e de um mundo de cujo mistério nem sequer querem ouvir falar. São multidões de solitários. Fogem de qualquer luta, afrouxam-se em submissões, aceitam não ser donos deles mesmos. Nem sequer sabem que estão sós porque a solidão desliza sobre eles sem deixar vestígios como a água na pena dos cisnes. Todos nós somos convidados para entrar num castelo, diariamente, vá lá saber-se por quem. Pode o castelo estar cheio de esplendores e de multidão ruidosa que não deixará de acabar em sepulcro, mais depressa do que seria de esperar, se não desconfiarmos dessa exaltação de fraquezas e se, quando ficarmos sem fôlego, não soubermos que esse é o momento de nos reencontrarmos, reconquistando a dignidade e a personalidade. O castelo é um inferno onde cada instante é um milagre. Agarrar esses instantes, que formam o tempo, escapar da ladainha dos que mergulharam no ruído, viver como um desafio, ter a honra de não se submeter a quem não merece submissão e de depender do amor de quem merece essa dependência, é o que deveria ser - se pensássemos. Mas só quando se está cansado de nunca estar só é possível vencer a violência da solidão e pensar no que vale a pena. As coisas são o que são.""(...) A maioria mostra-se incapaz de compreender que, não sendo o tempo a passar mas ela própria, não lhe resta alternativa: ou regressa a Cristo ou ele não será mais do que um objecto que a não pode salvar (...) Ele, se nós soubermos receber Cristo, permite escapar aos tranquilizantes que nos adormecem e aos estimulantes que nos dão corda, substitui e dá grandeza à banalidade do quotidiano, essa máquina onde tudo já foi dito e redito. Dizia Alain, tão insuspeito, que o natal não é uma noite nem um fim - é uma aurora e um começo. Mas só é assim se nos recordarmos a todo o instante que Jesus nasceu e viveu na maior pobreza material e na maior riqueza do coração.""(...) A fé é, antes de tudo o mais, Jesus Cristo nascido na palha de uma pobre gruta. Não pode, por isso, deixar de ser a inspiradora de um radicalismo evangélico que obriga o homem a ir ao fundo das coisas e a não se resignar perante as injustiças, por mais que a mansidão lhe tenha sido ensinada"."(...) O Advento passou ao lado da maioria de nós, mergulhado no consumismo e no oportunismo. O Natal não passará despercebido. Passará apenas"."(...) O Natal é o sorriso de Deus num mundo que teima em prosseguir com teofanias desnecessárias e egoísmos aterradores. Sem esse sorriso a vida seria apocalíptica. O tempo seria apenas uma espera sem sentido, a miséria seria aceitada e aceitável e a opressão tolerável e tolerada. Mas há um sorriso e há forças para lutar por um reino de homens e mulheres livres."

Natal à beira-rio.
(Ana Beatriz Barros) É o braço do abeto a bater na vidraça? E o ponteiro pequeno a caminho da meta! Cala-te, vento velho! É o Natal que passa, A trazer-me da água a infância ressurrecta. Da casa onde nasci via-se perto o rio. Tão novos os meus Pais, tão novos no passado! E o Menino nascia a bordo de um navio Que ficava, no cais, à noite iluminado... Ó noite de Natal, que travo a maresia! Depois fui não sei quem que se perdeu na terra. E quanto mais na terra a terra me envolvia E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra. Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me À beira desse cais onde Jesus nascia... Serei dos que afinal, errando em terra firme, Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia? (David Mourão-Ferreira, Obra Poética, Lisboa, Editorial Presença, 1988).

sábado, 23 de dezembro de 2006

Até amanhã.

Anders Zorn (1860-1920), Diskerskan. 1919.

O zero e o infinito. O Pedro Correia atribui, e bem, o prémio da coerência em 2006 a Ana Gomes, pelo seu olhar “de esquerda” sobre os ditadores – os “maus” e os “bons”. (Aliás, há também o olhar de direita que enferma da mesma miopia). Mas, enganou-se o Pedro rotundamente na última apreciação: “Sob o sol das Caraíbas, até os tiranos ganham logo um semblante mais doce...” – escreve. Puro erro. Se perguntar a Ana Gomes por Rafael Leónidas Trujillo, que manteve a ferro e fogo a República Dominicana entre 1930 e 1961, ela não lhe encontrará a menor doçura . Donde, não é o sol das Caraíbas que confere a doçura aos ditadores. São as amarras ideológicas. Estas amarras já foram fixadas na literatura há muito tempo. O que leva Ana Gomes a dizer sobre Pinochet o que não é capaz de dizer sobre Fidel Castro é o mesmo que levou Rubachov (Bucarine?), personagem de O zero e o infinito, de Arthur Koestler, quando o condenaram à morte por delito de opinião, nos processos de Moscovo, a dizer: “Vou descrever a minha queda de forma a que ela se torne um aviso para aqueles que nesta hora decisiva ainda hesitam e têm dúvidas quanto à direcção do Partido. Coberto de vergonha, arrastado pelo pó, prestes a morrer, descrever-lhes-ei a triste evolução de um traidor para que sirva de lição e de terrível exemplo a milhões de pessoas no nosso país.” Ambos, Ana Gomes e Rubachov sofrem (sofriam) do mesmo síndroma, com uma substancial diferença: o segundo estava nas mãos (tortura física e psicológica) dos seus algozes; a primeira vive em democracia.

Por favor.
Não esqueçam: hoje é o dia do orgasmo global!

Os meus blogopreferidíssimos de 2006.

Obrigado à Carla (à Bomba, como eu prefiro chamar) pela honra de me encaixar nos seus blogopreferidíssimos deste ano. Aproveito para, sem autorização, utilizar a mesma fórmula delicadíssima para referir os meus blogopreferidíssimos* neste ano de 2006: - A Bomba (Logo pela manhã, a minha curiosidade leva-me a procurar saber como acordou); depois leio um poema do Nuno Júdice, antes de ir conferir quais os pessegueiros que o meu amigo João Gonçalves descascou; ou quais os telegramas certeiros do Francisco José Viegas (mesmo sabendo que me vou irritar com as piadinhas de O cantinho do hooligan); passo então ao Eduardo Pitta (que aparte a sua especialidade, a crítica literária, prima sempre, nos outros assuntos - culturais, sociais ou políticos - pela oportunidade e pelo rigor argumentativo) ao Pedro Correia (como de resto a quase toda a numerosa equipa do Corta-fitas) um "militante" de boas causas e de boas tertúlias; e ao Paulo Gorjão, sempre incansavelmente atento.
Sigo então a fragrância de Isabel Goulão e, mais recentemente, o toque classicista de Adriana, sem perder a Teresa e a outra Carla (de Elsinore).
Não perco os meus amigos João Soares, Lauro António e Eduardo Graça, como não perco a produção poética de Encandescente, nem o Jorge Ferreira que anda por aí, em todo os lados, a tomar partido.
Sou incapaz de encerrar o computador sem vasculhar o que escreveu o Luis Novaes Tito, o Carlos Manuel Castro, o Tiago Barbosa Ribeiro e o João Tunes.
*De resto, parafraseando, blogopreferidos são todos os que se encontram na lista ao lado. É por isso que lá estão.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Memórias.

A propósito do post anterior veio-me à memória o Casal Ventoso- um nome bem conhecido, infelizmente, de todos os lisboetas e dizer a quem não conheceu aquele bairro o seguinte: O Casal Ventoso não era como as Telheiras. Nasceu em finais do século XIX, desordenadamente, casa a casa, se assim se pode chamar, uma por cima da outra, numa encosta solarenga do Vale de Alcântara, bordejando a Rua Maria Pia. Com o tempo, vinte ou trinta anos, foi-se estendendo colina abaixo até à ribeira que por ali passava, transformando-se num bairro construído tábua a tábua, nas horas vagas, por gente humilde, homens e mulheres que, sem eira nem beira, afluíram de todos os pontos do país à grande cidade para alimentarem a nossa tardia revolução industrial. E assim viveu, pacato e ignorado, pobre e sem condições de habitabilidade, como bairro operário, de gente trabalhadora e de boa vizinhança, até ao começo dos anos setenta. As características do Casal Ventoso nos anos setenta, nomeadamente a exclusão social dos seus moradores, o desemprego e, sobretudo, o gueto urbanístico – um amontado de barracas sinuosamente empilhadas – facilitaram a transformação do bairro no principal e mais conhecido local de tráfico e consumo de drogas de Lisboa.
E todos os lisboetas sabiam que assim era. E todos os lisboetas se envergonhavam (ou se deviam envergonhar) daquele bairro existir na sua cidade. No início dos anos noventa a situação degradante, humana e urbanística, tinha entretanto piorado substancialmente: os seus habitantes viviam em condições infra-humanas, enquanto milhares e milhares de consumidores de drogas usavam o bairro diariamente para compra de drogas e seu consumo; muitas centenas por lá vegetavam, literalmente, dia e noite, sem amarras familiares nem amigos que lhe estendessem uma mão, agarrados para sempre ao sonho de subirem aos céus; mais de mil famílias, mais de quinhentas crianças e adolescentes, misturavam o seu dia a dia entre a habitação degradada e a envolvência num ambiente dantesco de seringas espetadas, mortes diária por overdoses e negócios ilícitos. Entretanto, a cidade trabalhava, divertia-se e dormia paredes-meias com este pesadelo. Só quem se aventurava bairro adentro, dezenas e dezenas de vezes, como o João Soares e eu próprio, sabe o que é sentir a alma doer. Mais: fica-se com a certeza que palavras como solidariedade e cidadania são para fazer e não para dizer. A partir de 1998 começou-se a desfazer o pesadelo. Deu-se então início à construção de casas dignas para quem vivia no Casal Ventoso, nas proximidades do local para que as pessoas que ali residiam mantivessem os seus laços de familiaridade, de vizinhança e de afectos – a Quinta do Cabrinha, de um e outro lado da Avenida de Ceuta. (Construiu-se no local um centro de apoio aos toxicodependentes, com cama, mesa e roupa lavada, para além de cuidados médicos primários; construiu-se, também ali próximo, na Rua de Cascais, um centro de encaminhamento e recuperação de toxicodependente provenientes do Casal Ventoso; e, também nas proximidades, na Rua Arco de Carvalhão, construiu-se um centro para toxicodependente sem-abrigo, com mais de duzentas camas). Não são palavras lançadas ao vento sem conhecimento, nem sentido. São realidades que dão sentido à palavra solidariedade! Hoje, um novo bairro percorre toda a Avenida de Ceuta. Um novo bairro pensado e construído. Com escola. Com centro de saúde. Com comércio. Com associações desportivas, culturais e sociais. Com vida. Um novo bairro onde os moradores do velho Casal Ventoso sentem que lhes foi restituída a dignidade. Onde sentimos alegria nos olhos de cada criança que salta à corda no pátio amplo e arejado. Onde ouvimos um homem, com sessenta anos, com olhar perdido no sonho, dizer: nasci ali – apontando para a encosta onde existiu o velho bairro – e nunca tive uma casa de banho. Agora tenho e esta é a minha maior felicidade. Quem nunca entrou no antigo Casal Ventoso ou quem é alheio a essa coisa que se chama solidariedade (ou quando esta se restringe a uma árvore de Natal nesta época do ano) pode botar o discurso que quiser, falar mesmo em bairros atravessados por auto-estradas, mas nunca saberá o que é a sensação de felicidade de passar por lá e ver o sorriso de uma criança.

Gostei de ler:
«Lisboa não é uma inevitabilidade» de Carlos Manuel Castro (Tugir). Se o Carlos me permite diria: A degradação de Lisboa não é um inevitabilidade.

O Ex-Procurador.
O designado “processo Casa Pia” tem três vertentes: a pública, a oculta e a semi-oculta. A vertente pública está em julgamento, a partir de uma acusação do Ministério Público. Já perdeu o fôlego mediático de outros tempos, mas aguarda-se o veredicto de quem tem competência para o produzir – os Tribunais. A segunda vertente, penso, ficará eternamente oculta: as investigações da Polícia Judiciária, bem como a acusação produzida pelo Ministério Público sobre a pedofilia relacionada com a Casa Pia, focalizaram um universo restrito de protagonistas deixando de fora, provavelmente, muito “boa gente”. Finalmente a parte semi-oculta: a responsabilidade do ex-Procurador-Geral da República, Souto Moura, na manipulação política da investigação, da acusação e da mediatização de todo o processo. Sara Pina, ex-assessora da Procuradoria-Geral da República, em entrevista à Visão, volta a acusar Souto Moura de mentir sobre a sua responsabilidade na orquestração mediática (e as suas ligações perigosas com jornalistas) cujo objectivo era a “condenação popular” dos acusados. Dois membros do Conselho Superior do Ministério Público, contactados pela Visão, admitem que as declarações de Sara Pina poderão desencadear a abertura de um inquérito a Souto Moura. Ficamos à espera…

Bocage.

Levanta Alzira os olhos pudibunda
Levanta Alzira os olhos pudibunda Para ver onde a mão lhe conduzia; Vendo que nela a porra lhe metia Fez-se mais do que o nácar rubicunda: Toco o pentelho seu, toco a rotunda Lisa bimba, onde Amor seu trono erguia; Entretanto em desejos ardia, Brando licor o pássaro lhe inunda: C'o dedo a greta sua lhe coçava; Ela, maquinalmente a mão movendo, Docemente o caralho embalava: "mais depressa" – lhe digo então morrendo, Enquanto ela sinais do mesmo dava; Mística pívia assim fomos comendo.

Citações.

Nuno Pacheco pergunta, hoje, no Público, Que Iraque em 2007? Transcrevo o último parágrafo.
«A verdade é que, no ponto a que se chegou, ninguém tem ainda ideias muito claras sobre o caminho a seguir. Negociar é uma ideia possível, travar a violência extremista é outra. São, aliás, complementares, embora ninguém arrisque garantir o êxito de uma e de outra. Na mais recente edição do Courrier Internacional, o filósofo José Gil resumia em escassas palavras o estado actual deste drama: "O relatório Baker quase encosta todos à parede com uma alternativa absoluta: ou se resolve tudo ou tudo explode. Mais do que nunca, é em situações destas que a diplomacia deve intervir, mesmo sem nenhumas garantias de êxito." Mas se à diplomacia se reservam tais dúvidas, elas não são menores no campo das armas. Bush, agora numa posição de menor inflexibilidade face a outras estratégias, vai desde já avisando que 2007 trará "escolhas difíceis e sacrifícios complementares". Ou seja: mais tropas no terreno. Mais vidas e dinheiro gastos com a guerra. A do Vietname consumiu 549 mil milhões de dólares (a preços actuais); a do Iraque caminha velozmente para os 600 mil milhões. Um preço elevado para uma "vitória" que é já, mesmo para Bush, uma quase derrota.»

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

Estou boquiaberto (Ou os papéis estão invertidos?).

Por via do Eduardo e de Miguel Abrantes cheguei às páginas e páginas do Correio da Manhã sobre as duas personalidades do momento: Maria José Morgado e Carolina Salgado. A primeira, denota uma ingenuidade imprópria da posição que ocupa e das responsabilidades que lhe estão atribuidas ao revelar, minuto a minuto a sua vida, desde a compra dos jornais, ao pequeno almoço, passando pela viagem de metro para o emprego; quanto à segundo revela uma inesperada inteligência e um apurado instinto "político", o qual se pode apreciar aqui: O CM pergunta-lhe: "– Felícia Cabrita, por exemplo, disse que você fala como uma miúda irresponsável." Carolina responde à letra: "– Apesar de ter assumido uma página menos boa da minha vida, também sei, e só quem de direito o saberá, que nunca nada por mim foi conseguido na posição horizontal. Mas prefiro lembrar e até plagiar, com uma pequena alteração, António Aleixo: “Sei que pareço uma donzela, mas há muitas que eu conheço que embora parecendo que não, são aquilo que eu pareço.” E por aqui me fico - Acrescentou. Em 2007, muita tinta vai correr sobre estas duas senhoras.

Ter memória.
»Uma homenagem» (Passado/Presente)

A ditadura da maioria O Pedro Correia cita Mário Soares, quando este, então Presidente da República, em Novembro de1994, em entrevista ao DN, falou em “ditadura da maioria”, referindo-se à maioria do PSD, liderada por Cavaco Silva, na altura há nove anos como primeiro-ministro. Por analogia, o momento político actual – maioria absoluta do PS – deveria ser visto sobre o mesmo prisma. Mas, o Pedro não acrescentou a passagem seguinte na dita entrevista: "O eleitorado português terá pensado: vamos dar a maioria para que o Governo tenha condições de fazer tudo o que promete. De qualquer maneira, não corremos qualquer perigo maior. O Presidente estará sempre lá para equilibrar o barco, designadamente em matéria de democracia.” (Mário Soares Moderador e Árbitro, Lisboa, Editorial Notícias, 1995, página 51). Por ironia, hoje é Cavaco Silva que ocupa o cargo que Mário Soares ocupava quando falou de “ditadura da maioria”, ou seja, cabe agora a Cavaco “equilibrar o barco”. E parece que não se fez rogado na última entrevista televisiva.

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Fotografia. (ISSUE ONE: KINKY - Via la petite claudine)

Ditaduras abertas No reino da ciência política não há professor universitário que se preza que, na sua interpretação da realidade, não tenha “fixado” um novo conceito teórico ou, pelo menos, trabalhado um conceito já existente com outra semântica, assim como quem adiciona, num toque final, um ramo de salsa. É o caso das “ditaduras abertas” de que nos fala o Combustões. Só que estas classificações acabam por cumprir uma função: aliviar a natureza desta ou daquela ditadura. A observação que fiz num post anterior, em estilo de gracejo, é política; não é académica.

Emendar a mão do Ministro da Economia?

Até amanhã.

Tamara De Lempicka, óleo sobre tela.

Os concursos é que estão a dar...
Depois da iniciativa dos blogues do ano, promovida pelo Geração Rasca, parece que lhe tomaram o gosto. O Tugir promove o concurso da melhor árvore da Natal, enquanto o Miniscente nos brinda com o concurso Ano Novo. Eu, para não perder a oportunidade, já estou a pensar em promover um concurso para a melhor máscara de Carnaval, já que deixei passar o melhor presépio. Nestas coisas de concursos temos que aprender com os profissionais. Por isso, já telefonei para o Malato, cuja experiência nestas coisas de concursos é inquestionável, para me dar uma ajudinha, mas não me atende. Vou tentar a Bárbara Guimarães ou a Catarina Furtado. Vamos lá ver se me atendem. Mas se não me atenderem tenho outras ideias para mais tarde: na Páscoa estava a pensar no melhor Ovo de Páscoa (não é má ideia, pois não?) e no Verão - sem querer ser muito ousado - pensei no melhor triquini (óculos de sol, sandálias e chapéu) que se apresente nas praias "in" do Algarve. (No regulamento será definido o que é praia "in"). Por hoje não vou revelar mais pormenores.

Criatividade.
Os portugueses não devem nada a ninguém em termos de criatividade. Depois do caminho marítimo para a Índia descobrimos a "ditadura aberta". Que Deus nos abençoe.

Aniversários.
Eduardo Graça mantem há 3 anos - cumprem-se hoje - o Absorto. É uma das minhas leituras diárias. Tem 4 "obsessões": Camus, o SIM no próximo referendo, a história do MES e a sua terra natal, Faro. Para além destas "obsessões" está sempre atento ao dia a dia político e cultural.Enfim, uma leitura obrigatória.

domingo, 17 de dezembro de 2006

Cenas do quotidiano.

Em passo moroso, ajustado ao seu ar molengão, desceu a rua da Palma e atravessou o Martim Moniz. Ao chegar ao hotel Mundial virou pela rua Barros Queirós e desembocou no Largo de S. Domingos, mesmo em frente ao teatro D. Maria. Atravessou em seguida o Rossio, pelo lado da pastelaria Suiça, em direcção à rua Augusta. Continuou o seu trajecto rua Augusta fora, com o Arco e a estátua de D. José ao fundo, em direcção ao Tejo, até chegar à rua da Vitória. Aí, sumido no desfile vertiginoso de centenas de rostos apressados, encostou-se ao primeiro vendedor de castanhas assadas que avistou e pediu: - uma dúzia. Bem quentinhas, se faz favor. Esfregou as mãos, enquanto o vendedor rasgava uma página de uma lista telefónica, onde iria embrulhar as castanhas, contadas umas a uma. Ao pagar, despediu-se de um modo apropriado: - Passe um bom Natal. O vendedor, denotando azedume nas palavras, respondeu-lhe: - Natal? Natal? O que é isso?

Por cá nada de novo.
Hoje, os noticiários da TSF abrem com a convocação de eleições antecipadas na Palestina e os distúrbios durante a noite provocados pelos seguidores do Hammas ; segue-se o serial killer inglês e os apelos dos investigadores à população para que forneça informações; seguem-se outras minudências e finalmente os resultados dos jogos de futebol do Benfica e do Sporting. Ainda bem que de vez em quando apareçe uma Carolina para alimentar os noticiários.

Há argumentos que não lembram ao Diabo:
«O que interessava testar era a vontade dos organizadores, de verdadeiramente montar um sistema de contraditório e discussão, ou uma feira negacionista de lunáticos (onde as conclusões são apresentadas á partida).O que interessava era saber se no "colóquio" se pretendia ficar a saber mais, ou menosNuno Rogeiro, (O FUTURO PRESENTE.)

Elogios. Os elogios a Maria José Morgado vêm de todos os lados. Ainda não sei se é bom, se é mau.

sábado, 16 de dezembro de 2006

Lua-de-mel no Irão.
«Esta vergonha preta, tanto medo e tanta ira e tantas mortes. Depois da revolução, o Imã mudou a lei para que as raparigas pudessem ser executadas aos nove anos; para os rapazes a idade de execução é aos dezasseis anos. E pior... - ergue o braço e pousa as pontas dos dedos sobre os olhos -...já ouviu falar do casamento mut'a? - Pergunto-lhe se está a referir-se aos casamentos "temporários", essas disposições sancionadas pelo Estado que podem durar apenas vinte e quatro horas: são conhecidas pela designação de "prostituição legal".
- Sim - suspira ela, e volta a pousar o braço em cima da cara. Fala suavemente, lentamente, monotonamente. - Eles usavam o mut'a antes das execuções. Nos primeiros tempos da revolução, muitos milhares de raparigas foram presas por serem apoiantes dos grupos de oposição ou por violarem o código islâmico, e condenadas à morte. Aquela gente, aqueles fanáticos, acreditam que uma rapariga que é virgem vai automaticamente para o céu, por isso faziam casamentos mut'a com os guardas da prisão, e esses homens - "maridos" temporários - violavam as raparigas antes de elas serem executadas. E esses homens... - volta-se e diz, com o maxilar tão rígido, que parece de madeira - ... falam de Deus
Lua-de-mel no Irão, Alison Wearing (Gótica, 2001).

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Véus versus topless.

(Fotografia de Jordan Matter, times square, NY.)

A partir de um texto de Joana Amaral Dias sobre o véu islâmico, no seu estilo pueril, preconceituoso, ligeiro e panfletário, o 5 Dias, através de textos de António Figueira e Nuno Ramos de Almeida, tem esgrimido argumentos bem interessantes, num e noutro sentido, sobre o assunto. O meu olhar sobre esta questão (e já aqui deixei opinião) aproxima-se mais dos argumentos já aduzidos por António Figueira. Hoje, Nuno Ramos de Almeida vem à liça com novos argumentos, os quais assentam, no fundo, em duas premissas, a saber: primeira, os governos que estão a proibir o uso do véu às mulheres muçulmanas na Europa fazem-no alicerçados em dois princípios errados – um: há culturas superiores (a europeia, cristã) e culturas inferiores (a muçulmana); dois: não compete ao Estado fiscalizar o vestuário de cada um. Essa deve ser uma escolha livre, ou seja, se uma mulher muçulmana quer andar de véu não deve ser o Estado a proibir essa opção, como não deve obrigar-me a andar de gravata. De onde conclui que a proibição não é mais do que uma espécie de represália ocidental integrada na luta “contra o terrorismo” numa desastrosa confusão entre muçulmanos e terroristas. Colocada assim a questão até parece que faz sentido ou, pelo menos, parece fazer sentido a quem defende certo tipo de valores. Mas é só na aparência! Na realidade não faz nenhum sentido. Senão vejamos: um dos argumentos usados pelo governo holandês foi a segurança. Não parece displicente o facto de alguém entrar numa carruagem de metro, num autocarro ou num supermercado, cujas vestes, das sandálias à cabeça, não permite identificar se é homem se é mulher, se transporta ou não um embrulho, uma arma, um explosivo. É evidente que, perante a realidade actual do terrorismo, de que os casos de Madrid e Londres não deixam dúvidas, se apodera da maioria das pessoas um sentimento de insegurança. (Isto têm a ver com o “mapa dos medos”. Por exemplo, em Lisboa, em regra, as pessoas têm medo de ser assaltadas precisamente nas zonas onde há menos assaltos). A questão que se deve colocar é a seguinte: os governos devem ou não actuar, nestas circunstâncias, face a um sentimento generalizado de insegurança dos seus concidadãos, devido ao uso de determinado vestuário? Não se trata de proibir ou não o uso da gravata. Não se trata de saber se é superior ou inferior andar de mamas ao léu ou de rosto tapado. Não se trata de uma questão de choque de culturas ou de religiões. Trata-se, apenas, e tão só, de um sentimento de segurança ou de insegurança. O que se pode discutir aqui é uma hierarquia de valores a defender em casos de conflito. É natural que, qualquer governo, nesta conflitualidade, opte a favor dos sentimentos da maioria e esta, na Europa, são os europeus. A outra questão suscitada por Nuno Ramos de Almeida é deveras melindrosa: como avaliar que a mulher muçulmana enverga aqueles trajes de livre vontade ou se é obrigada devido a uma brutal repressão? Ou, pelo menos, devido a uma brutal repressão em relação à maioria das mulheres muçulmanas. Há aqui pano para mangas. E, depois, ainda há, nas relações internacionais, o princípio da reciprocidade. Por exemplo, em Nova Iorque é permitido o topless nas ruas da cidade. Nos países muçulmanos será permitido a uma nova-iorquina andar de mamas ao léu pelas ruas de cidades muçulmanas? Não? Porquê? Eles proíbem o topless! Mas nós não podemos proibir o véu. Mas, porquê? Somos uma cultura inferior? Laxista? Em decadência? Ou apenas temos uma cultura suficientemente tolerante que permite às outras culturas fazerem o que eles não nos permitem a nós? Apesar de ser uma caricatura, a verdade é esta.Mais véu, menos véu pouco importa. O que importa é a tolerância e a convivência e não me parece que tenhamos que receber lições de ninguém, pese embora a II guerra mundial e outrass barbáries de que a Europa foi palco e actriz.

O problema do coração.

Há muito tempo que não lia um argumento tão falho de sensatez assinado por alguém que anda há meses no "combate" pelo SIM no próximo referendo. Reza assim: «Às dez semanas, diz o primeiro outdoor da campanha do Não, bate um coração. A mensagem é esta: o embrião está vivo. O simples facto de alguém achar que este outdoor apresenta um bom argumento para convencer indecisos é preocupante. Primeiro, porque grande parte dos animais vivos tem um coração que bate - o que não faz ninguém reconhecê-los como pessoasFernanda Câncio, O coração do problema, DN 15.12.06.

Um bom exemplo...

Leituras matinais.
«Marques Mendes não precisa de provar que é um "laranjinha" dos quatro costados. Tem é de provar que existe para além da caricatura do Contra-Informação. Tem um ano para isso, pois já perdeu quase dois anos entretido com o que não interessa para nada. Se conseguir, terá talvez uma hipótese. Se não tentar, se falhar ou se não conseguir, será afastado. Mas, pelo menos, não se terá perdido tudo: terá descoberto que há mais vida para além da política; e está em boa idade para renascer e gozar as deliciosas pequenas coisas com que se faz o dia-a-dia das pessoas normaisJosé Miguel Júdice, Marques Mendes? Quem é? (Público 15.12.06.)

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

Assino por baixo. «Chile 2006», João Miguel Almeida (O Amigo do Povo).

Descobertas. Descobri hoje o hotel das letras - um novo de blogue. Gostei.

Ainda o Envelope 9.
A Escola de Lavores oferece-nos 7 deliciosos minutos em que, na comissão parlamentar de inquérito ao envelope 9, um funcionário da PT se faz passar por desmomoriado. O que está submerdo no caso envelope 9 é exactamente o pedido informal, não escrito, dos ficheiros em causa, numa reunião ou num encontro, feito pelo MP ou pelo Juíz de Instrução a funcionários da PT. A 14 de Janeiro o Público escrevia:"existe um documento no processo, assinado por Maria de Lurdes Cunha, funcionária da PT, que dá conta do envio das disquetes, explicando que tal seria para satisfazer "o prometido na reunião no DIAP", no dia 29 de Abril de 2003. O que foi combinado na mesma reunião é que é um mistério. Não existe nenhum registo desse encontro nos milhares de folhas que constam nos autos" E no dia 19 de Janeiro, o mesmo jornal informava que:"A PT começou a elaborar a facturação detalhada dos telefones, a que foram anexadas as listagens referentes às mais altas figuras do Estado, um dia antes de receber o ofício emanado do inquérito ao caso Casa Pia." O facto dos funcionários da PT terem "perdido a memória" diz quase tudo se esta ponta do iceberg.

Perguntar não ofende. Nuno Rogeiro não sabia à partida o que ia fazer a Teerão?
(Adenda: o Eduardo é menos telegráfico do que eu. Esta é, de facto, uma HISTÓRIA MAL CONTADA). Estou completamente de acordo.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Até amanhã.

Rui Perdigão, Mulher nua na Cidade. Guache s/papel. Assinado. 21 x 30 cm. 1985.

Ler os outros:

-Pessoas que Não Deviam ter Direito a Votar no Referendo, de "Vieira do Mar"(Controversa Maresia). - Nazis de turbante, do Pedro Correia (Corta-fitas).
- O GALETO, do Eduardo Pitta (Da literatura).
- Envelope 9: ordem para devassar, de Miguel Abrantes (Câmara Corporativa).
- PELA MEMÓRIA DE MARIO CHANES DE ARMAS, de João Tunes (Água Lisa)

Da coragem.

«Um grupo de estudantes rebelou-se ontem contra o anti-semitismo doentio dos dirigentes iranianos, interrompendo o discurso de Ahmadinejad na abertura de uma conferência negacionista do Holocausto com gritos de «morte ao ditador». Esta manifestação de revolta no imenso manto da teocracia iraniana será tanto mais corajosa quanto os estudantes sabem que, só pelo seu acto, dificilmente sobreviverão a quem contestamTiago Barbosa Ribeiro (Kontratempos)

Acordar em Bagdade.

via Evaristo Ferreira (Abrangente)

Confesso que vivi.
Às 22 horas e 30 minutos do dia 23 de Setembro de 1973, em Santiago do Chile, uma dúzia de dias após o golpe militar, Pablo Neruda, acaba os seus dias vitíma de enfarte cardíaco. Nos dois ou três dias anteriores toma conhecimento que os seus melhores amigos foram assassinados. Matilde Urrutia (("Mi vida junto a Pablo Neruda") escreveu que as suas últimas palavras, em sussurro foram:"Los fusilan! Los fusilan a todos! Los están fusilando!"

Fotografia.

GREGORY CREWDSON: Imagens encenadas de uma realidade que tem obviamente muito de Hopper e do cinema americano, como escreve Lauro António.

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Terrorismo. (Para que serve a memória?) (1)

Orlando Letelier foi Embaixador do Chile nos Estados Unidos e Ministro dos Negócios Estrangeiros, primeiro, e da Defesa Nacional, depois, no Governo socialista de Salvador Allende. Preso e torturado após o golpe militar de Pinochet, foi libertado em 1974. Exilou-se em Washington, onde denunciava os assassinatos da ditadura chilena. No dia 21 de Setembro de 1976 foi assassinado na capital dos Estados Unidos: colocaram-lhe uma bomba de grande potência no seu automóvel.

Escultura.

Exposição de esculturas do australiano Ron Mueck.

Prós e Contras.
Lisboa. Triste Lisboa. Tanta demagogia. Tanto disparate. Tanta conversa "colateral". Tanto paleio para nada. Para Ruben de Carvalho Lisboa é uma prostituta que a própria mulher, aquela com que ele casou - o PCP - lhe meteu na cama por uns tempos. É obrigado a dizer umas "coisas" para não ficar mal nas reuniões do partido. Sá Fernandes, esse, não sabe bem o que anda a fazer (dinheiro para os eléctricos? Então e a Carris não existe?; aquisição de livros para emigrantes? Em russo ou em ucraniano? O cais para paquetes de cruzeiro tira as vistas do Barreiro, etc.). Manuel Maria Carrilho está em "part-time" nesta "coisa" de Lisboa. Fala de cor, não fala com razão, nem com o coração. Maria José é capaz, se não estou enganado, de levar a cabo um razoável trabalho na área da acção social, mas só isso. Não tem visão global da cidade. Nenhum dos intervenientes tem uma ideia para Lisboa. E Lisboa definha.